Abrir a porta da cozinha, evitando fazer barulho. Estou há dois dias fora de casa, meus pais provavelmente já colocaram o FBI atrás de mim. Mesmo com todo o cuidado do mundo, espantei o Mrs.Ben, o gato maldito de minha mãe. O felino miou e pulou sobre a mesa, derrubando uma xicara de café inacabado. O barulho da porcelana se chocando contra o chão, ecoou pela casa. Não demorou a mulher de camisola e cabelos desgrenhados, surgir correndo na cozinha, me pegando no flagra.
Os olhos claros de minha mãe pareceram surpresos em me ver. Ela passou a mão, de forma bruta pelo cabelo, empurrando as mechas que caiam sobre o seu rosto, para atrás da orelha. As marcas de expressão em seu rosto estão mais evidentes, por conta do cansaço.
Demorou um pouco até a ficha da minha mãe cair e a expressão de surpresa dar lugar olhar de reprovação. Ela cruzou os braços finos sobre o peito e andou pisando duro na minha direção.
— Onde você estava, David? – perguntou minha mãe, parando a poucos metros de mim. — Dois dias fora de casa? Ligamos para todos os seus amigos, ninguém sabia de você, estão todos preocupados...
— Eu não tenho amigos! – minha afirmação a pegou de surpresa.
— Estão todos te procurando. Seu pai sai para dar queixa de desaparecimento na policia. – minha agarrou meu pulso. Para alguém tão magra, como ela, minha mãe até que tinha bastante força.
Bufei e me livrei da sua pegando, passando por ela e ignorando seus sermões.
— Você está de castigo! – ela gritou ao perceber que eu não daria mais atenção ao que ela estava dizendo.
Desde que contei a minha família sobre minha orientação sexual, as coisas mudara na minha casa. Eu era o filho amado, o mundo girava sob meus pés, depois da minha revelação veio tudo por baixo. Meus pais não aceitavam um filho gay, mas ele não tinha muito que fazer, há não ser me aturar em casa até a faculdade.
Não faltava muito para o pesadelo chamado colegial.
Minha mãe permaneceu na ponta da escada, observando enquanto eu subia cada degrau, arrastando meus pés até o meu quarto. Cair de costas na minha cama, após empurrar a porta com o pé para fechar e abafar as reclamações que vinha do andar de baixo.
Está em casa novamente era um choque de realidade, depois de dois dias ao lado de Mickey e sua turma. Estive em festas que jamais imaginei na minha vida. Os garotos tinham um jeito diferente de se divertir. Algo que leva a sua mente para uma dimensão diferente, um lugar onde os problemas parecem não existir. Minha mente permanecia leve a todo o momento, a cada segundo Mickey me apresentava uma sensação nova.
Eu gostei daquilo. Do diferente, do novo. A sensação de está fazendo algo errado era como uma injeção de adrenalina, que me motivava a ir mais longe.
Peguei no sono enquanto ainda delirava com as novas experiências em minha vida. As diversas vozes que vinha do andar de baixo me despertou. Demorei a me acostumar com o forte brilho do sol que invadia meu quarto. Quando finalmente conseguir abrir meus olhos, tive um sobressalto ao me deparar com meu pai sentado próximo aos meus pés. Seu olhar distante ganhou um brilho de raiva ao perceber que eu estava acordado.
— Dois dias? – sua voz rouca soou tão baixa que eu quase não o escutei.
— Sentiram saudades? – gemi ao conseguir sentar na cama e me espreguiçar.
— Acha que seu sarcasmo vai evitar que você receba uma punição? – meu pai ficou de pé. — Escute bem David. Já aturamos essa sua esquisitice, de sair com outros garotos. Mas você ainda mora debaixo do meu teto e me deve o devido respeito.
— Enquanto ao respeito que eu mereço? – ele ficou surpreso com a minha pergunta. Era minha deixa. — Vocês me cobram respeito, mas não vejo nenhum respeito vindo de vocês. Como espera ganhar algo de mim, que vocês não me dão?
— Não seja bobo, garoto. – ele franziu o cenho. Meu pai estava incomodado, eu o atingir. Ponto para mim! — Posso obriga-lo a me respeitar.
— Pode? – fiquei de pé. — Não finja que se importa comigo. Vocês já deixaram bem claro que não dão a mínima para mim. Se eu não voltasse para casa, seria um alivio. Tanto para mim, quanto para vocês.
Deixei meu quarto, sabendo que eu acabara de ganhar uma batalha. Mesmo assim, eu não tinha o sentimento de uma vitória. A única coisa em meu peito era a derrota. A perda da minha família, que eu não sabia mais como recuperar, e a única opção que me restará. Afasta-los.
Segui as vozes até o andar debaixo. Minha mãe estava na sala, servindo suco a Amanda, que ergueu o olhar ao ouvir o barulho nas escadas. Um sorriso radiante brotou em seu rosto. Ela ficou de pé e correu para me abraçar, mas eu me afastei.
— Você quer nos matar de preocupação? – perguntou ela, com lagrimas nos olhos. Amanda levou uma das mãos, com as unhas pintadas de vermelho vivo, a boca. Minha mãe correu em sua direção para acalmar os soluços falsos de Amanda.
— Procuramos você por toda parte. – me surpreendi ao ver Kyler. Ele se aproximou com cautela, tentou pegar minha mão, mas a afastei. — Graças a Deus, David. Você está salvo.
— O que vocês estão fazendo aqui?
Meus olhos fuzilaram Amanda e Kyler.
— Eles são seus amigos. – interviu minha mãe, me repreendendo. Ela sabia qual era minha relação com Kyler, mas acredito que ela e meu pai sempre fizeram vista grossa para o meu relacionamento. Talvez por Kyler ser de uma família respeitada e por sua reputação de bom moço.
— Não tenho amigo! – me virei e comecei a subir as escadas.
— Não diga uma coisa horrível como essa. – a voz estridente subiu uma oitava. — Eles fizeram de tudo para encontra-lo.
— Eles também fizeram para eu partisse. – olhei para os dois amantes por cima do ombro. — Agora vocês já podem sumir da minha casa.
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Será Que é Amor?
Short StoryDavid Mitchell e um garoto popular, adorado por todos e com um namorado perfeito. Mas em uma noite que deveria ser especial para David, ele se da conta de toda a falsidade que o rodeia, quando descobre que seu namorado está dormindo com sua melhor a...
