Capítulo 3

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   María despertou de madrugada. O pouco que conseguiu dormir teve sonhos perturbadores e se sentiu agitada. Tomou uma ducha e resolveu fazer um café para si. Às seis horas se dirigiu ao hospital. Sua mãe estava dormindo no banco. María a olhou com pesar e tocou-lhe a face. Helen se endireitou e quando a viu a abraçou.

— Mamãe, vai para casa. Eu fico aqui. Qualquer notícia eu te ligo.

Helen a olhou com os olhos vidrados.

— Eu vou. Preciso tomar um banho e preciso de um café.

— Isso mamãe. Ainda é cedo. Você verá logo ele irá para casa.

María beijou-lhe as faces e a viu sair.

Os pais de María ainda eram novos, sua mãe e seu pai tinham ambos cinquenta anos de idade. Ela se parecia muito com sua mãe, no tipo físico, ambas eram esbeltas, tinham cabelos negros e olhos verdes. Seu pai era loiro de olhos azuis. María sempre sentiu falta de um irmão ou uma irmã. Ela se ressentia de ser filha única. Seus pais sempre colocavam muitas expectativas nela. Talvez por isso ela sempre tivesse medo de decepcioná-los.

Às onze horas da manhã, sua mãe estava de volta. Havia colocado um vestido leve creme e sua aparência estava melhor. Estava mais corada e mais confiante e renovada.

— Filha, alguma notícia?

María ia responder que não, quando o médico apareceu. María levantou-se e Helen virou-se para o médico com ansiedade.

— Senhora Valverde, seu marido já fez o exame. Ele fará um cateterismo simples, para o desentupimento de uma veia. Ele ficará bom. Vocês podem entrar no quarto. Não o deixem muito agitado. Passem a ele tranquilidade e segurança que tudo dará certo.

Helen e María se abraçaram entre lágrimas.

Mãe e filha se dirigiram para o quarto. María ficou atrás. Sua mãe avançou e aproximando-se da cama do marido o beijou na testa. Ele lhe sorriu e pegou-lhe as mãos. María entrou em seguida. O viu muito pálido, ligado a um aparelho cardíaco e soro.

— Papai. — María o abraçou. Ele lhe abraçou forte. María lhe sorriu se sentindo mais reconfortada. — O médico disse que logo você estará em casa. Tenha paciência agora.

Helen fitou o marido.

— Rafael, eu estou feliz, o médico disse que você ficará bom.

Ele sorriu para a esposa com os olhos ternos. Helen o beijou. María saiu, não queria atrapalhar o momento dos dois.

Quando saía viu surpresa Luciano entrar no corredor saindo do elevador.

Ele estava com roupas mais descontraídas. Uma calça bege leve e uma camisa areia. Seus cabelos negros estavam molhados pelo banho. Seus olhos se encontraram. Ele a mediu. Observou os cabelos de María soltos que lhe iam até os ombros, sua expressão abatida e o brilho dos olhos verdes que brilharam surpresos ao vê-lo.

Luciano lhe sorriu. María foi mansamente até ele. Ele abriu os braços e ela o abraçou. Quando ela subiu o rosto para observá-lo, ele lhe beijou ternamente os lábios.

— E seu pai?

María ainda abraçada a ele sentiu seu olhos arderem pelas lágrimas e ela lhe sorriu.

— Ficará bom.

Luciano a abraçou fortemente e a afastou de si, a fitando intensamente.

— Que bom. Vamos almoçar?

María olhou o relógio e viu que já passavam do meio dia. Ela assentiu feliz.

Ele a levou a um restaurante nas imediações do hospital. Caminharam juntos lado a lado. O restaurante escolhido era um italiano, cercado por mesinhas na calçada, onde ao fundo tocava uma música suave italiana.

Luciano era uma pessoa agradável. Seus olhos negros eram intensos e ele passou-lhe a falar de sua vida. Contou-lhe de sua infância, da determinação do pai em comprar uma fábrica falida e a transformar numa empresa renomada, onde os cosméticos La Belle eram vendidos em todo o mundo. María se sentiu mal, pois se deu conta de como Luciano era rico. Um contraste com seu mundo onde ele era o dono de uma grande indústria cosmética e ela uma simples secretária.

María gostaria muito de saber de sua vida com a ex-mulher.

— Luciano, você é separado?

Luciano pensativamente lhe disse.

— Não, sou viúvo há três anos.

María percebeu que Luciano não queria falar sobre o assunto, pois mudou de assunto. Ele manobrou a conversa fazendo-a ela falar de si. Então ela contou-lhe dos pais, as grandes expectativas que eles sempre colocavam nela por ela ser filha única. Da sua formação, dos seus gostos, ambos descobriram o mesmo gosto por músicas e por literatura.

Na saída Luciano lhe pegou a mão e eles saíram de mãos dadas. María sentiu-se feliz com o conforto da mão quente dele na sua. Quando estavam em frente ao hospital ele beijou-lhe a boca de leve, e como que não se contendo ele a tomou nos braços e lhe deu um beijo apaixonado.

Ainda com ela nos braços lhe perguntou.

— Você vai voltar para o hospital?

— Sim.

Luciano beijou-lhe levemente os lábios e a afastou.

— Te vejo amanhã então.

María lhe sorriu.

— Até amanhã.

María acordou, se espreguiçou na cama e olhou desanimada o relógio. Hoje era domingo, primeiro domingo que passava sozinha. Sua mãe ficou com seu pai no hospital. Ele ia ficar de repouso para que segunda feira de manhã fizesse o cateterismo.

Luciano ficou de passar á tarde. Ainda relutava em ter qualquer envolvimento com ele. Ele era uma pessoa agradável, rico extremamente bonito e atraente. Mas vire mexe seus pensamentos a levavam para Esteban. Lembrava-se dele nas horas mais inoportunas, principalmente quando ia dormir.

Perguntava-se, como alguém que conheci tão pouco tempo pode ocupar meus pensamentos como ele ocupou?

A verdade é que ele tinha uma áurea de masculinidade selvagem que a atraía. Luciano era muito mais bonito que Esteban, mas Esteban permeava seus pensamentos, e ela muitas vezes com raiva o afastava, mas não tinha jeito. No fundo tinha vontade de conhecer o que estava por trás daquele homem tão sério e misterioso.

Lembrou-se do sorriso de desdém quando ele a viu sair com Luciano, aquilo a incomodou, ao ponto dessa imagem não sair de seus pensamentos.

A tarde foi tranquila. Luciano a levou para um parque e juntos caminharam de mãos dadas. María sentia o conforto da companhia dele. Ele era uma pessoa agradável. Luciano à respeitou o tempo todo.

Ele a beijou somente quando a deixou em casa lá pelas seis da tarde, pois María tinha inventado uma dor de cabeça.

Seus lábios tomaram os dela num beijo possessivo. María logo o afastou e entrou.

Ficou a pensar sobre isso, o que a levava a rejeitar Luciano.

Seria o fato de ela ser uma simples secretária e Luciano ser rico?

Imaginou Esteban tomando os lábios dela e estremeceu.

Será que se Esteban a beijasse seria diferente?

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