3 - Traga felicidade

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"Foi há muito tempo, mas descobri que não é verdade o que dizem a respeito do passado, essa história de que podemos enterrá-lo. Porque, de um jeito ou de outro, ele sempre consegue escapar.”

Fui até minha mãe pra pedir a ela ajuda, não estava entendendo direito, será  que estaria morta? Ninguém nunca me falou que há uma coisa que o dinheiro não é capaz de comprar.
Tentei ser corajoso, e positivo, apesar de não poder escutar o barulho familiar da chuva forte, uma mulher chegou com ar de desespero, eu a olhei vendo minha salvação, talvez não estivesse querendo aceitar o inevitável.

- moça ajude o papai, ele está dentro do carro, que afundou - eu sempre fui muito bobo, as pessoas amaciavam às coisas pra mim, mas eu sabia que eles tinham ido pra sempre, eu sabia que não poderia mais sair de carro com eles pra lugares simples, naquele dia odiei lugares como a casa de minha avó, a chuva, e os sons.
Como um filme, vi minha vida depois da morte deles passar como um flash, até tudo ficar tão recente que...

Acordei.

E os dias seguiam com pressa, e totalmente iguais, mesma rotina,  ao menos pra mim, porque eles com certeza tem uma vida social.
Todos os dias recebia versos que descobri serem de músicas, não sabia quem mandava, nem porque, talvez estivesse caçoando de mim por ser surdo, mas sinceramente,  eu não ligava, estava até gostando de conhecer algumas músicas, quando eu era criança ouvia música alta no carro com meias pais, minha mãe até balançava a cabeça animada.

"Eu devia sorrir mais, abraçar meus pais, viajar o mundo e socializar, nunca reclamar, só agradecer, fácil de falar difícil fazer... "

Fiquei encarando a mensagem e imaginando qual seria o ritmo da música, não lembro de como era o ritmo das coisas, como eram os sons. A chuva pra mim era um evento silencioso, o mundo era silencioso, então a luz que sinalizava quando alguém estava na porta, piscou.
Fiquei um tempo pensando sobre o tempo que faz, que não recebo visitas, o Luís é  muito ocupado e a Cristina sempre estava na rua, nem a chamava mais pra vir,  e agora que estavam namorando, deveriam estar juntos.
Não sei porque, mais uma imagem deles debaixo de uma coberta, com esse frio que a chuva causava, eu era muito friento.
Me levantei por fim, a luz ao lado da lâmpada piscava como um sensor.

***

- Edite? - questionei esquipatico, talvez ela fosse a última pessoa, que imaginária na minha casa, tinha conhecido ela, e conversávamos bastante na escola, mas era só pra ignorar a vela, creio.

- Olá Dom - ela sorrio, e isso aqueceu um pouco meu coração - eu estava entediada em casa e como moro perto de você,  pensei que não se importaria - eu sorri sendo gentil.

- na verdade, eu também estava entediado - eu segurei sua mão, como se aquilo fosse familiar, e a conduzi até minha cozinha

- a gente pode assistir um filme - falei dando de ombros, estava feliz por ter compainha,
Coloquei a pipoca no fogo, e encarei seu rosto.

- você mora aqui com quem? - questionou vendo o tamanho desnecessário da minha cozinha,  gosto de lugares grandes, são acolhedores.

- com minha irmã mas velha, eu sei, o tamanho é  desnecessário para duas pessoas - ela assentiu devagar, incrédula, como se não soubesse do meu passado distante, e trágico.
Terminei de fazer a pipoca, coloquei numa bacia pus sal, e leite condensado por cima.

- você deve estar querendo me matar - ponderou se referindo a pipoca

- Todos nós estamos caminhando para a morte. - passei na sua frente, indo até a sala, sendo seguido por ela, coloquei um filme qualquer e peguei refrigerante.

- e cadê sua irmã? - disse já sentada no sofá,  como se sempre viesse na minha casa.
Enquanto brincávamos o filme rolava, nenhum dos dois prestava atenção, eu gostava disso, ela não me olhava como uma pessoa defeituosa, e pra mim, pelo menos com Edite, isso a fazia rutilar ainda mais.

Depois de um tempo resolvemos comer a pipoca, e prestar atenção no filme.
O filme já estava em seus instantes finais, quando minha irmã passou pela sala e nós viu.

- oi - estendeu o "i" em sinal de proeminência - vou fazer o jantar, você vai ficar pra comer alguma coisa?

- não, na verdade eu já devia ter ido embora, está tarde. - disse observando o relógio em seu pulso.

- mas se for isso não se preocupe, Dom te leva - eu a olhei e sorri, a quanto tempo os dois solitários não tem alguém a mais, para jantar.

- vai fica, a comida da minha irmã é  ótima. - ela ponderou mentalmente, depois assentiu, minha irmã se virou e subiu como sempre faz, toma um banho e cozinha.

- Seus pais não vão ligar né, os meus são meio, negligentes  sabe.- se ela tivesse dito isso de uma forma seca, talvez eu tivesse desejado que um meteorito a atingisse.
Mas ela não falou, foi gentil, com a sua incredulidade, e até falou um pouco de seus pais, então eu fui objetivo.

- eles morreram tem bastante tempo. - falar daquilo não me causava dor, mas era triste dizer que eles morreram, pensar em seus rostos e ter que recorrer a fotografias, porque a memória me apunhalou, assim como a audição, como será a minha voz?
Imaginei que ela já tinha me surpreendido demais, porém ela não disse coisas do tipo " eu sinto muito " ou " lamento"

- meus pais, eles não se importam nem um pouco, a hora que chego se passei de ano ou como anda meu boletim, oque quero fazer ano que vem, ou se eu realmente sou viciada  em andar com meus fones de ouvido - ela diz os tocando - eu vim pra cá, por causa disso, eles haviam sumido de casa, não sei se já voltaram, mas as vezes eu queria, um abraço sabe... - eu me vi fazendo a coisa que eu mais odeio no mundo, porém, as únicas palavras que me vieram a mente:

- eu sinto muito - peguei sua mão - mas eu tenho algo que pode te animar - a arrastei até a cozinha onde minha irmã já estava - vamos fazer um sunday gigante, e afogar nossas mágoas.

- antes do jantar? - ela olhou Liv, imaginando que ela fosse falar algo.

- deixem um espacinho pro jantar - taxou - porquê se não, eu forço vocês a comer até explodirem

Nós rimos e começamos a fazer.

- a teoria de fazer um sunday é  o seguinte,  ainda mais um pra afogar toda tristeza, algo que te deixe feliz e que seja doce  - disse pondo três bolas de sorvete de chocolate na taça grande.

- coloca cauda de morango, isso me deixa feliz - eu coloquei e peguei granulado marrom

- granulado é  bom. - murmurei

- jujuba - Edite disse, entrando no espírito.

- MM - e assim a lista de coisas seguio,  até ficarmos satisfeitos.






Não esqueçam da estrelinha

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