— Pai! — Fiquei parada em pé próxima à porta de entrada com o coração batendo forte, escutando o silêncio que emanava da casa que meu pai manteve organizada e limpa. Atrás de mim, um cortador de grama gemia baixinho sob o sol da manhã. Os raios dourados se espalhavam pelo chão de madeira e pelo corrimão que acompanhava as escadas. Eu havia corrido até ali com saltos altos e aquele vestido exagerado. As pessoas ficaram olhando, e o fato de eu não ter me sentido nem um pouco cansada me deixou preocupada. Meu pulso estava acelerado por causa do medo, e não por causa da corrida.
— Pai?
Eu entrei. Os meus olhos ficaram úmidos de tanta emoção quando o meu pai veio lá de cima, incrédulo, com uma voz trémula.
— Camila?
Subi de dois em dois degraus, tropeçando no meu vestido, usando as mãos para chegar logo até o topo.
Com a garganta apertada, parei bruscamente na entrada do meu quarto. Meu pai estava sentado no chão, cercado pelas minhas caixas, que estavam abertas, mas intactas. Ele parecia estar mais velho, pois o seu rosto fino estava manchado de dor, e eu não consegui me mover. Não sabia o que fazer.
Com os olhos bem abertos, ele olhou para o nada, como se eu não estivesse ali.
— Você nem desfez as malas — ele sussurrou. Uma lágrima quente correu até o meu queixo, vinda do nada. Encontrá-lo naquele estado me fez perceber que ele realmente precisava de mim para trazer as boas lembranças de volta. Ninguém nunca havia precisado de mim antes.
— Pai... perdão, pai... — foi o que eu consegui dizer, em pé ali, sem ação.
Ele respirou fundo e voltou a si. O seu rosto ficou iluminado de tanta emoção. Em um movimento rápido, ele ficou de pé.
—Você está viva? — ele disse. Quase perdi o ar quando ele deu três passos em minha direção e me abraçou com muita força. — Eles falaram que você havia morrido. Você está viva?
— Eu estou bem — choraminguei contra o peito dele. O alívio era tanto que doía. Ele tinha o cheiro do laboratório onde trabalhava, cheiro de óleo e tinta. Nenhum outro cheio era melhor do que aquele. Eu não conseguia parar de chorar. Eu estava morta — eu achava. O amuleto estava comigo, mas eu não sabia se ia conseguir ficar, e o medo em relação a isso me fez sentir ainda mais insegura.
— Estou bem — eu disse em meio a um soluço — mas houve um erro. Meio que rindo, ele me afastou dele e olhou para o meu rosto. Lágrimas surgiram em seus olhos, e ele sorriu como se nunca mais fosse parar de se sentir feliz.
— Eu estava no hospital — ele disse — e vi você.
— A memória da dor que ele havia sentido tomou os seus olhos, e ele tocou o meu cabelo com a mão trémula, como se quisesse ter certeza de que era eu de verdade. — Mas você está bem. Tentei ligar para a sua mãe. Ela vai achar que eu estou louco. Mais louco do que o normal. Não consegui deixar uma mensagem dizendo que você havia se acidentado. Então, eu desliguei. Mas você está bem mesmo? — Minha garganta estava apertada, e eu funguei o nariz. "Eu não vou largar este amuleto. Nunca."
— Perdão, pai — falei, ainda chorando. — Eu não devia ter saído com aquele cara. Eu nunca devia ter feito isso. Me desculpa. Perdão!
— Psiu. — Ele me puxou de volta em um abraço e me balançou, mas isso apenas me fez chorar ainda mais.
— Tudo bem. Você está bem — ele disse, acariciando o meu cabelo. No entanto, ele não sabia que, na realidade, eu estava morta.
Com a respiração curta, meu pai mexeu o corpo como se tivesse pensado em alguma coisa. Ele me afastou, segurando os meus ombros. O frio que tomou o meu corpo quando ele me olhou fez com que as minhas lágrimas morressem rapidamente.
— Você está bem mesmo — ele disse, preocupado. — Nem um arranhão.
Eu sorri, nervosa, e uma das mãos dele perdeu a força.
— Pai, eu tenho que contar uma coisa. Eu... — Um barulho suave veio da porta. Meu pai desviou o olhar por cima do meu ombro, e eu virei o rosto. Lauren estava em pé de forma estranha ao lado de uma mulher baixa que vestia uma roupa larga, como um uniforme de luta marcial. A roupa era bem larga, e não parecia ser muito prática. Ela tinha boa postura e era séria, com feições fortes e uma pele bronzeada. Seus olhos eram de um castanho profundo, com linhas bem pesadas nos cantos. Os seus cabelos também indicavam sua superioridade, os fios apertados acima da cabeça mostrando uma raiz negra com fios loiros ao longo do comprimento.
— Olá—meu pai disse, me colocando ao seu lado —, vocês trouxeram a minha filha para casa? Obrigado.
Não gostei do sorriso de Lauren, e tive que me segurar para não me esconder atrás do meu pai. O braço dele ainda estava em volta dos meus ombros. Eu não queria me mover dali. Droga. Lauren havia trazido sua chefe. Eu queria ficar. "Droga, eu não quero estar morta. Não é justo!"
A mulher mais velha fez uma expressão de tristeza.
— Não — ela disse, e a palavra parecia ter uma rigidez agradável —, ela conseguiu chegar aqui sozinha. Só Deus sabe como.
Enxuguei os olhos, com medo.
— Elas não me trouxeram aqui — falei, sentindo-me nervosa. — Eu não as conheço. Eu já vi aquela ali — adicionei, apontando para a de olhos verdes —, mas não a outra.
Mesmo assim, o meu pai deu um sorriso neutro, tentando organizar as ideias.
— Vocês são do hospital? — ele perguntou. Seu rosto ficou sério. — Quem é o responsável pela notícia de que minha filha estava morta? Alguém vai perder a cabeça aqui.
Lauren curvou o pescoço, e a chefe endossou o gesto.
— Palavras mais verdadeiras que essas nunca foram ditas, senhor. — Os olhos dela analisaram o meu quarto, passeando pelas paredes rosas, móveis brancos, e caixas abertas que nunca foram desarrumadas. Finalmente, ela olhou para mim, e eu me perguntei que conclusões que ela havia tirado. Com um fim de vida tão abrupto, eu parecia um pouco com o meu quarto. Estava tudo ali, mas nada havia sido organizado. Tudo ainda dentro das caixas. E agora iriam fechá-las novamente e colocá-las em um armário, todas as coisas boas que mal foram vistas ou usadas. "Eu ainda não acabei." Meu corpo ficou rígido quando a mais velha entrou em meu quarto. Uma de suas mãos se ergueu como se fosse para me acalmar.
— Precisamos conversar — ela disse, o que me deixou completamente gelada.
Meu Deus. Ela queria que eu fosse com ela.
Apertei o amuleto nas mãos e o meu pai me abraçou mais forte. Ele viu os meus olhos com medo e finalmente entendeu que algo estava errado. Elê se colocou entre as duas pessoas que estavam à porta e eu.
— Camila, chame a polícia — ele disse, e eu peguei o telefone que estava em cima da mesinha. Isso eu tinha tirado da caixa.
— Ah, nós precisamos de um minuto — disse a mulher mais velha.
Minha atenção foi atraída pelo movimento que a ela fez com uma das mãos. Parecia que ela era uma péssima atriz em um filme de ficção científica. O som da linha telefónica ficou mudo, assim como o do cortador de grama lá fora. Em choque, olhei para o telefone, e depois para o meu pai, em pé entre as duas mulheres e eu. Ele não se movia.
Senti meus joelhos se enfraquecendo. Colocando o telefone de volta à base, olhei para o meu pai. Ele parecia estar bem, a não ser pelo fato de que ele não se movia.
A mais velha suspirou, o que desviou minha atenção para ela. "Desgraçada", pensei, com frio e medo. Eu não ia entregar os pontos.
— Deixe-o ir — falei com a voz trémula —, ou eu vou... vou...
Os lábios de Lauren se ergueram e a outra mulher arqueou as sobrancelhas. Seus olhos eram azul-acinzentados. Eu jurava que eles eram castanhos.
— Vai o quê? — ela disse, dando outro passo firme em cima do carpete com os braços cruzados sobre o peito.
Olhei novamente para o meu pai estático.
— Vou berrar, ou sei lá — ameacei.
— Pode berrar. Ninguém vai escutar. Vai ser um nada, muito rápido para ser escutado.
Respirei fundo para tentar gritar, e ela balançou a cabeça. O ar saiu de mim como em uma explosão e eu andei para trás quando ela avançou mais um pouco. No entanto, ela não estava vindo em minha direção. Afastando a minha cadeira branca da penteadeira, ela sentou seu corpo diminuto de lado, colocou um cotovelo nas costas da cadeira e apoiou a testa na mão, como se estivesse cansada. Sua imagem ao lado das minhas coisas de menina e da caixinha de música era estranha.
— Por que as coisas não são fáceis? — ela murmurou, brincando com as minhas zebras de cerâmica. — Isso é uma brincadeira? — ela falou mais alto, olhando para o céu. — Você está rindo? Está dando umas boas risadas por causa disto? —
Olhei para a porta, e Lauren balançava a cabeça como se quisesse me alertar. Tudo bem. Tinha a janela ainda, se bem que com aquele vestido eu provavelmente ia acabar me matando, se caísse. Não. Eu já estava morta.
— Meu pai está bem? — perguntei, tocando o ombro dele.
Lauren fez que sim com a cabeça, e a mulher mais velha voltou a me olhar. Sorrindo como se tivesse tomado uma decisão, ela estendeu a mão. Olhei para ela, sem imitar o gesto.
— Prazer em conhecê-la — ela disse com firmeza. — Camila, certo? Todos me chamam de Ally—. Eu a encarei, e ela acabou abaixando a mão. Seus olhos estavam castanhos novamente.
— Lauren me contou sobre o que você fez — ela disse. — Posso ver?
Surpresa, eu me movi calmamente, tirando a mão do ombro do meu pai. Cara... que estranho. Era como se o mundo todo tivesse parado. Contudo, considerando que eu era uma morta-viva, a paralisia do meu pai nem era nada demais.
— Ver o quê?
— A pedra — Ally disse, e a ponta de ansiedade em sua voz me atingiu como se fosse uma chama.
Ela a queria. Ela a queria, e a pedra era a única coisa que me mantinha viva. Ou menos morta.
— Acho que não — eu disse. A expressão de alarme no rosto de Ally reafirmou a minha impressão de que ela queria tocar a pedra.
—Camila— ela disse com calma, levantando-se —, quero apenas olhar para ela.
— Você a quer para você! — exclamei, com meu coração pulando. — Eu só estou sólida por causa dela. Não quero morrer. Vocês mandaram mal. Não era para eu estar morta! A culpa é de vocês!
— Sim, mas você está morta — Ally disse. Minha respiração parou quando ela estendeu a mão. — Eu só quero ver.
— Não vou entregá-la! — berrei, e os olhos de Ally ficaram acesos, com medo.
— Camila, não! Não diga isso! — ela berrou, tentando me tocar.
Me movi para trás, afastando-me da proteção questionável do meu pai, e apertei a pedra.
— É minha! — eu gritei. Minhas costas encontraram a parede.
Ally ficou de pé em um segundo. A preocupação era clara em suas feições. Ela deixou os seus braços caírem ao longo do corpo. O mundo pareceu estar diferente.
— Camila...— ele suspirou —, você não devia ter feito isso.
Sem saber por que ela havia parado, eu a encarei, e logo depois me surpreendi ao sentir um arrepio dentro de mim. Uma sensação gélida nasceu na palma da minha mão, de dentro do amuleto, e correu o meu corpo inteiro, fazendo-me tremer. Foi como um choque elétrico. Eu ouvi o eco dos meus batimentos dentro de mim, a batida vindo de dentro da minha pele, preenchendo os espaços, fazendo-me sentir quase... inteira. Um instante depois, uma onda de calor apareceu, como se para amenizar a onda gelada, e depois... pronto.
Fiquei sem ar, em pé contra a parede, paralisada. Com o coração batendo forte, olhei para Ally. Ela tinha uma expressão piedosa, calma e triste. Tive medo de me mexer. No entanto, o amuleto parecia estar diferente dentro da minha mão. Pequenos raios de sensações diferentes ainda saíam dele. Sem ter mais o que fazer, abri os meus dedos para ver a pedra. Meu queixo caiu, e eu fiquei olhando. Ela havia mudado.
— Olhem! — eu disse ingenuamente. — Ela mudou!
Ally curvou as costas e se sentou novamente, murmurando alguma coisa. Chocada, deixei que o pingente caísse e fiquei segurando apenas o cordão. Quando o tirei do agente da morte, a pedra era simples, cinza, quase negra, e sem graça. Agora, ela estava completamente negra e com um brilho estranho, como se fosse um buraco negro pendurado no cordão, uma escuridão sem fim. O fio preto e desgastado que a rodeava estava novo e se assemelhava a uma corrente também negra e com seus fios muito bem trançados. Mesmo sendo todo preto, o cordão parecia capturar a luz do ambiente e espalhá-la ao redor do quarto. "Droga, eu devo ter quebrado isso." Contudo, ela estava linda. Como poderia estar quebrada?

VOCÊ ESTÁ LENDO
Entre o Céu e a Terra
FanficUm baile de formatura cheio de piratas e marinheiros, isso que eu ganhei depois de passar um bom tempo organizando uma festa de verdade na minha antiga escola e depois ser transferida pra cá. Ainda por cima é meu aniversário, que belo jeito de comem...