Inquieta, me sentei no telhado, no escuro, tacando pedras à noite, tentando reorganizar os meus pensamentos. Eu não estava viva, mas também não estava totalmente morta. Como eu havia suspeitado, um interrogatório cuidadoso com o meu pai confirmou que ele não sabia que eu estava morta no hospital e nem lembrava sobre o acidente. Ele achou que eu havia me livrado de Shawn quando descobri que nós não combinávamos, e que depois peguei uma carona com Seth e Lauren, e assisti TV a noite toda, sem nem ter tirado o vestido.
Ele não estava feliz por eu ter arruinado o vestido alugado, no entanto. Não gostei de ter o valor descontado da minha mesada, mas eu não ia reclamar. Eu estava ali, meio viva, e era isso que importava. Meu pai ficou um pouco surpreso ao ver que aceitei a punição sem protestos, e até disse que eu estava mais madura. Ah, se ele soubesse.
Eu observava o meu pai de perto todos os dias enquanto eu arrumava as minhas coisas nas gavetas e prateleiras. Era óbvio que ele sabia que alguma coisa estava errada, mesmo que não conseguisse identificar o que era. Ele quase nunca se afastava de mim. Toda hora ele vinha me trazer algo para comer. Era tanta proteção que me dava vontade de berrar. Mais de uma vez eu o peguei olhando para mim com uma expressão de medo, que ele escondia quando eu olhava de volta. O jantar foi acompanhado por uma longa conversa sobre a comida. Depois de ficar brincando com o meu prato por uns vinte minutos, eu pedi licença, dizendo que estava cansada por causa da festa de formatura.
E era para eu estar cansada, mas eu não estava. Ali estava eu sentada no telhado às duas da madrugada, tacando pedras, fingindo estar com sono enquanto o mundo girava, escuro e frio. Talvez eu não precisasse mais dormir.
Com os ombros pesados, peguei mais uma pedrinha no meio das telhas e a taquei dentro da chaminé. Ela atingiu um metal e fez um barulho seco, ricocheteando até cair lá embaixo. Me estiquei para pegar outra pedra, e depois voltei à minha posição, arrumando a calça jeans.
Um leve sentimento de aflição nasceu em mim começando das pontas das minhas mãos em pequenas pontadas, escorregando para dentro em forma de ondas mais fortes. A sensação de estar sendo vigiada apareceu com força, e me virei, aflita, quando Lauren caiu de uma árvore atrás de mim.— Ei! — berrei, sentindo o meu coração pulando ao vê-la aterrissando em uma telha como se fosse um gato, — Que tal me avisar quando você estiver por perto?
Lauren ficou em pé embaixo da luz da lua com as mãos na cintura. Ela estava envolvida por uma luz fraca, que era tão visível quanto a sua irritação.
— Se eu fosse um agente da morte eu já teria matado você.
— Bem, eu já estou morta, não estou? — falei, jogando uma pedra nela. Ela nem se moveu, e a pedra passou por cima de um de seus ombros. — O que você quer? — perguntei, sem delongas.
Em vez de responder, ela encolheu os ombros e olhou para o outro lado.
— Quero saber o que foi que você não falou para a Ally.
— Como é?
Ela ficou parada como uma rocha, braços cruzados sobre o peito.
— Seth falou alguma coisa para você no carro. Foi o único momento no qual você ficou fora da minha mira. Quero saber o que foi. Um detalhe pode servir para que você consiga continuar fingindo que está viva, ou pode levar você ao júri negro. — Ela se moveu de forma decisiva, com raiva.
— Eu não vou falhar novamente, não por sua causa. Você já era importante para o Seth antes de pegar a pedra dele. Foi por isso que ele foi pegar o seu corpo no necrotério. Quero saber o porquê.
Olhei para o pingente, que brilhava por causa da luz do luar, e depois olhei para o meu pé. O ângulo estranho do telhado estava fazendo com que os meus tornozelos ficassem doloridos.— Ele disse que o meu nome havia complicado inúmeras vezes os assuntos dos homens, e que ele ia coletar a minha alma.
Lauren se moveu, sentando-se ao meu lado, deixando bastante espaço entre nós.
— Ele já fez isso. Você não é mais uma ameaça agora que está morta. Por que ele voltou para pegar você?Sentindo-me mais segura diante da postura relaxada dela, eu a encarei. Seus olhos pareciam ser prateados.
—Você não vai contar?—perguntei, querendo acreditar nela. Eu precisava falar com alguém, e não tinha como ligar para os meus amigos antigos e falar sobre a minha morte — mesmo que isso possa soar muito divertido.
Lauren hesitou.— Não, mas eu posso levar você para conversar com Ally pessoalmente.
Respirei fundo.
—Ele disse que acabar com a minha vidinha era uma passagem para um lugar melhor. Ele voltou para provar que ele havia... me coletado.
Eu esperei por uma reação, mas não houve nenhuma. Finalmente, não aguentei o silêncio e levantei o rosto afim de olhar dentro dos olhos de Lauren. Ela estava olhando para mim como se estivesse tentando decifrar a mensagem. Claramente, sem ter encontrado uma resposta, ela disse, com calma:
—Acho que você deveria manter isso em segredo por enquanto. Ele provavelmente não quis dizer nada com isso. Esqueça. Gaste o seu tempo tentando se adaptar.
— É — respondi com uma ponta de risada sarcástica —, uma escola nova é sempre divertida.— Eu quis dizer se adaptar aos vivos.
—Ah.Tudo bem. Eu ia ter que aprender a me adaptar, não a uma escola nova, mas aos vivos. Legal. Ao recordar o jantar desastroso que eu tive com o meu pai, eu mordi o lábio.
— Hum, Lauren...eu preciso comer?
— Claro. Se você quiser. Eu não como. Não como muito — ela disse com um tom de desejo. — Se você for como eu, você não vai ter fome nunca.
Ajeitei o meu cabelo atrás das orelhas.
— E dormir? — Ela riu.
— Você pode tentar. Eu não consigo, a não ser que esteja muito entediada.
Peguei mais pedrinhas do meio das telhas e as taquei contra a chaminé de novo.
— Como é que conseguimos não comer? — perguntei.Lauren se virou, ficando de frente para mim.
— Aquela sua pedra solta energia, e você se alimenta disso. Você armazena energia. Cuidado com os médiuns. Eles vão achar que você está possuída.— Ah — murmurei. Eu havia pensado em tentar obter algumas informações úteis em alguma igreja, mas como eles nunca estão certos quanto à morte, talvez não saibam tantas coisas assim. Sentada no telhado, naquela noite escura, suspirei ao lado de um anjo da morte, o meu anjo da guarda. "Legal, Camila", pensei, imaginando se seria possível que a minha vida, ou melhor, a minha morte, ficasse pior do que aquilo. Toquei a pedra que me mantinha viva com cuidado, pensando sobre o que eu teria que fazer dali em diante. Ir para a escola. Fazer dever de casa. Ficar com o meu pai. Tentar entender quem eu era e o que eu tinha que fazer. Nada havia mudado, na verdade, a não ser a coisa da fome e do sono. Eu tinha o tal agente da morte tentando me encontrar. Eu tinha um anjo da guarda também. E a vida, aparentemente, continua, mesmo que você não esteja mais participando dela.
Lauren me surpreendeu ao se levantar repentinamente. Eu me curvei para trás para conseguir vê-la direito embaixo das estrelas.— Vamos — ela disse, estendendo a mão. — Eu não tenho nada para fazer hoje à noite, e estou entediada. Você não é de berrar muito, é?
Meu primeiro pensamento foi "berrar?", e depois "vamos aonde?" No entanto, falei algo bem idiota em vez disso:
— Não posso. Estou de castigo. Não posso pisar fora de casa até que eu pague por aquele vestido, a não ser para ir à escola, — Mesmo assim, sorri e dei a minha mão para que ela me ajudasse a levantar. Se Ally conseguiu fazer com que o meu pai esquecesse que eu havia morrido, talvez Lauren conseguisse disfarçar uma fugidinha minha, só por algumas horas.
— Bem, eu não posso mudar o fato de você estar de castigo — ela disse —, mas não precisa sair de casa para irmos aonde estamos indo.
— O quê? — perguntei. Fiquei surpresa ao vê-la indo para trás de mim. Ela ficou muito mais alta por causa da inclinação do telhado. — Ei! — exclamei quando ela me abraçou. No entanto, o meu protesto sumiu em meio ao choque de ver uma sombra cinza se curvando em volta de nós de repente. Ela era real, e tinha o cheiro do travesseiro de penas da minha mãe. Eu engasguei quando ela me apertou mais forte e meus pés saíram do telhado em uma ascensão contra a gravidade.
— Caramba! — exclamei enquanto o mundo se esticava lá embaixo, prateado e preto sob a luz do luar. — Você tem asas?
Lauren gargalhou. O meu estômago se revirou todo, e nós fomos mais para cima. Talvez... talvez isso tudo não fosse ser tão ruim assim.
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Entre o Céu e a Terra
FanfictionUm baile de formatura cheio de piratas e marinheiros, isso que eu ganhei depois de passar um bom tempo organizando uma festa de verdade na minha antiga escola e depois ser transferida pra cá. Ainda por cima é meu aniversário, que belo jeito de comem...