2-A verdade

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Ma babe, esse cap é pra vc. Minha primeira leitora <3
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O sentimento de ausência foi saindo de mim vagarosamente em uma série de pequenas pontadas de dor ao som de duas pessoas discutindo. Me senti mal,
não por causa da dor nas minhas costas que quase me impedia de respirar,
mas devido à sensação de impotência e medo que as vozes, baixas e em tons
variados, desenterravam do meu passado. Quase dava para sentir o cheiro dos
pelos do meu coelho empalhado enquanto eu me curvava em posição fetal e escutava as duas pessoas, que significavam o mundo para mim, me
assustando além da minha imaginação. O fato de eles falarem que não foi
minha culpa não diminuiu minha dor em nada. Essa dor eu teria que guardar
dentro de mim, até que se tornasse uma parte do meu ser. Era uma dor que se
aderia aos meus ossos. Chorar no colo da minha mãe significaria dizer que eu
a amo mais do que tudo. Chorar no ombro do meu pai significaria dizer que eu
o amava mais ainda. Que maneira terrível de amadurecer.
No entanto, estas pessoas... elas não eram os meus pais. Pareciam ser duas
jovens.
Respirei fundo e descobri que estava mais fácil fazer este movimento. A última
escuridão começou a sumir junto com as pontadas de dor, e meus pulmões se
moveram, doendo como se alguém estivesse sentado sobre eles. Ao perceber
que meus olhos estavam fechados, eu os abri e vi um borrão preto bem
próximo do meu nariz. Havia um cheiro pesado, como o cheiro de plástico.
— Ela tinha 17 anos quando entrou naquele carro. A culpa é sua — uma voz
jovem porém bem feminina disse com veemência, abafada de uma maneira
estranha. Tive a impressão bizarra de que a discussão já estava acontecendo
há algum tempo, mas eu só conseguia lembrar de pequenos fragmentos da
conversa em meio a pensamentos inquietantes sobre nada.
— Você não vai jogar a culpa disso em cima de mim — uma menina disse, sua
voz tão irritada e determinada quanto a anterior. — Ela tinha 18 anos quando
ele jogou a moeda. Isso foi furada sua, e não minha. Deus me livre, ela estava
bem na sua frente! Como você conseguiu errar?
— Errei porque ela ainda não tinha 18 anos! — a outra respondeu. — Ela tinha 17
anos quando ele a pegou. Como é que eu ia saber que ele estava atrás dela?
Por que você não estava lá? Você também errou feio.
A garota engasgou diante da afronta. Eu estava gelada. Respirando ainda mais
fundo, eu me senti mais forte. Menos pontadas, mais dores contínuas. Estava
abafado, meu hálito voltava para mim em uma nuvem quente. Não estava
escuro; eu estava em alguma coisa.
— Sua demente mental! — primeira menina respondeu. — não venha me dizer que
eu falhei. Ela morreu com 18 anos. É por isso que eu não estava lá. Ninguém
me notificou.
— Mas eu não lido com as de 17 — a outra disse, um toque de perversidade em
sua voz. — Achei que ele estivesse atrás do rapaz.
De repente, percebi que o borrão preto que estava fazendo com que minha
respiração voltasse para mim era um plástico. Minhas mãos se elevaram e
minhas unhas empurraram o plástico em uma apunhalada de medo. Quase em
pânico, eu me sentei.
"Eu estou em uma mesa?" Parecia ser algo bem sólido. Tirei o plástico de mim.
As duas jovens estavam em pé ao lado de duas portas brancas sujas, e elas se
viraram, surpresas. O rosto pálido da menina menor ficou vermelho, e a outra garota, de tamanho bem maior, se afastou para trás como se estivesse com vergonha de ter sido surpreendida discutindo com a outra menina.
— Ei! — a maior disse, jogando a trança longa para trás. — Você
acordou. Hum, oi. Eu sou a Dinah, e esta é a Lauren.
A menina menor abaixou o olhar e acenou com vergonha.
— Oi — ela disse —, tudo bem?
— Você estava com o Shawn — falei, meus dedos tremendo ao apontar para ela.
Esta fez que sim com a cabeça, ainda sem olhar para mim. A fantasia dela
parecia algo muito estranho ali ao lado do short e do top da outra. Ambas usavam
uma pedra negra como pingente no pescoço. Eram peças sem graça e até
insignificantes, mas o meu olhar foi atraído por elas por que eram a única coisa
que elas tinham em comum. Fora a raiva uma pela outra e a surpresa em
relação a mim.
— Onde estou? — eu perguntei, e Lauren moveu o corpo. Ela era um ser
Não muito alto e mexia nos tacos do chão com o pé. — Onde está Shawn? — Eu hesitei,
percebendo que eu estava em um hospital, mas... "Cara, eu estou dentro de
uma droga de saco que serve para cobrir corpos?" — Estou no necrotério? —
questionei. — O que estou fazendo em um necrotério?
Em um movimento brusco, tirei as minhas pernas do plástico e coloquei os pés
no chão. Meus saltos bateram no solo e eu me segurei para buscar equilíbrio.
Havia uma identificação em um elástico plástico no meu pulso. Eu a arranquei,
tirando um pouco de cabelo junto. Havia um rasgo grande na minha saia, e
uma ferida profunda marcava o local. Eu estava coberta de poeira e grama, e
eu fedia a terra e antisséptico. A situação estava bem estranha mesmo.
— Alguém cometeu um erro — eu disse, colocando a identificação no meu
bolso. Dinah respirou fundo.
— Lauren — ela disse, e a mais baixa ficou zangada.
— Isso não é culpa minha! — ela exclamou, posicionando-se atrás da outra. — Ela
tinha 17 anos quando entrou no carro! Como é que eu ia saber que era o
aniversário dela?
— Ah, é? Cara, ela tinha 18 anos quando morreu, então o problema é seu sim!
"Morta? Será que elas estão cegas?"
— Quer saber? — falei, sentindo-me cada vez mais sóbria. — Vocês duas
podem continuar discutindo aí sobre o movimento do sol, mas eu tenho que
encontrar alguém e avisar que estou bem. — Os saltos fizeram o som de
sempre, e eu fui andando em direção às portas brancas sujas.
— Camila, espere — a garota menor disse. — Você não pode ir.
— É sério — eu disse. — Meu pai vai ficar muuuito furioso.
Passei por elas e andei uns cinco metros, até que senti como se estivesse me
desconectando do mundo. Zonza, coloquei a mão em uma mesa vazia. A
sensação estranha veio inesperadamente. Minha mão se contraiu de forma
involuntária, e eu a puxei de volta para o corpo, como se o frio do metal tivesse
queimado os meus ossos. Me senti como... uma esponja. Fina. O barulho suave da ventilação ficou abafado. Até os meus batimentos cardíacos pareciam estar mais distantes. Me virei com as mãos sobre o peito, como se estivesse
tentando me fazer sentir normal novamente.
— O quê...
Do outro lado da sala, Lauren  elevou os ombros finos.
— Você está morta, Camila. Desculpa. Se você se afastar muito dos nossos
amuletos, vai começar a perder substância.
Ele apontou para a maca, e eu olhei.
Fiquei completamente sem fôlego. Eu ainda estava lá. Quer dizer, eu ainda
estava na maca. Eu estava deitada sobre o colchão dentro de um saco todo
amassado, sem muita expressão e pálida. O meu vestido elaborado estava
todo amarrotado em volta de mim, um rastro de uma elegância ultrapassada e
esquecida.
"Estou morta? Mas sinto o meu coração batendo."
Minhas pernas ficaram fracas, e eu comecei a cair.
— Que beleza. Ela é uma das que desmaia — a maior disse, com a voz seca.
Lauren se esticou para conseguir me pegar. Seus braços vieram me
socorrer e a minha cabeça rodou. Assim que ela me tocou, tudo veio à tona
novamente: sons, cheiros, e até o meu pulso. Minhas pálpebras vibraram. Os
lábios de Lauren , ao meu lado, estavam tensos. Ela estava tão pertinho.
Pensei ter sentido o cheiro de flores do campo.
— Por que você não cala a boca — ela disse à Dinah ao me colocar no chão
com calma. — Será que dá para ter um pouco de compaixão? É o seu trabalho,
sabe.
O frio do chão entrou pelo meu corpo e pareceu deixar a minha vista mais
nítida, "Como eu posso estar morta? Os mortos desmaiam?"
— Não estou morta — eu disse, cambaleante. Lauren ajudou a me sentar,
apoiando-me contra o pé de uma mesa.
— Está sim. — Ela se agachou ao meu lado, seus olhos verdes estavam
arregalados e mostravam preocupação. Sincera. — Sinto muito mesmo. Achei
que ele fosse pegar o Shawn. Eles geralmente não deixam rastros, como um
carro daqueles. Você deve mesmo incomodar.
Meus pensamentos voltaram para a cena do acidente, e eu coloquei uma das
mãos sobre o estômago. Shawn havia estado lá. Eu lembrava disso.
— Ele acha que eu estou morta. O Shawn, eu digo. Do outro lado da sala veio a
voz de Dinah,
— Você está morta.
Voltei o meu olhar para a maca, e Lauren se moveu a fim de bloquear a
minha visão.
— Quem são vocês? — perguntei, sentindo a tontura diminuir,
Lauren se levantou,
— Nós, bem, somos da Manutenção Organizacional de Recuperação Total de
Erros.
Refleti sobre aquilo. Manutenção Organizacional, Recuperação... M.O.R.T.E.?
"Que droga!" Um jato de adrenalina subiu e desceu pelo meu corpo. Me
levantei depressa com o olhar fixo na maca. Eu estava ali. Eu estava viva!
Aquela lá até podia ser eu, mas eu também estava em pé.
— Vocês são a Morte! — exclamei, dando a volta na mesa, deixando-a entre
eu e elas. Meus dedos do pé começaram a ficar dormentes, e eu parei,
olhando fixamente para o amuleto de Lauren. — Ai, meu Deus, estou morta— sussurrei. — Não posso estar morta. Não estou pronta para morrer. Ainda
não acabei de viver! Tenho apenas 18 anos!
— Nós não somos a Morte! — Dinah estava com os braços cruzados como se
estivesse defendendo um ponto fraco do corpo. — Nós somos anjos da
morte. Os agentes da morte matam as pessoas antes que a moeda delas seja
jogada, e os anjos da morte tentam salvá-las. Os agentes da morte são
traidores que falam demais e não ficam acordados para ver o sol nascer, senão
viram pó.
Lauren parecia estar um pouco encabulada quando moveu o seu corpo.
— Os agentes da morte são anjos da morte que foram convencidos a trabalhar
para... o outro lado. Eles não matam mais pessoas porque a Morte não deixa,
mas se aparece alguma chance eles tentam pegar a pessoa mais cedo, e da
maneira mais dramática possível. Eles são uma falcatrua. Sem classe alguma.
A última informação foi dada com uma voz muito zangada, e eu fiquei
pensando sobre aquela rivalidade. Continuei andando para trás até começar a
me sentir como uma esponja novamente. Olhando para o amuleto deles, me
movi para a frente a fim de afastar aquela sensação.
— Vocês matam as pessoas. Foi isso que o Seth disse. Ele disse alguma coisa
sobre colher a minha alma! Vocês matam as pessoas, sim!
Lauren passou uma das mãos atrás do pescoço.
— Ah, não matamos, não. Na maioria das vezes. — Ela olhou para Dinah
rapidamente. — Seth é um agente da morte. Nós aparecemos apenas quando
eles pegam alguém fora de hora. Aconteceu um erro.
— Erro? — Minha cabeça chegou a rodar de tanta esperança. Isso queria dizer
que eles podiam me levar de volta?
Dinah deu um passo à frente.
—Não era para você ter morrido, entende? Um agente da morte tirou a sua
vida antes que a sua moeda fosse jogada. O nosso dever é impedir que façam
isso, mas às vezes nós não conseguimos. Nós estamos aqui para fazer um
pedido de desculpas formal e colocar você no caminho certo. — Fazendo uma
expressão de desgosto, ela olhou para Lauren. — E assim que ele admitir
que o erro foi dele eu posso dar o fora daqui.
Empenei as costas, recusando-me a olhar para o meu corpo na maca.
— Eu não vou a lugar nenhum. Se vocês erraram, tudo bem. É só me mandar
de volta! Eu estou bem ali. — Me aproximei delas, morrendo de medo. —
Vocês podem fazer isso, não podem?
Lauren tremeu.
— É um pouco tarde demais. Todo mudo já sabe que você está morta.
— Não interessa! — gritei, e logo o meu rosto ficou gelado por causa de um
certo pensamento. Papai. Ele achava que eu estava...
— Pai... — sussurrei, em pânico. Respirando fundo, eu me voltei para as portas
brancas e sujas e comecei a correr.
— Camila, espere! — Lauren berrou. Bati com força nas portas, passando
através delas, mesmo que elas não tivessem sido completamente abertas. Eu
estava na sala ao lado. Eu tinha passado pelas portas, por cima delas. Como
se eu nem estivesse ali.
Havia um homem gordo em uma das mesas, e ele olhou para mim ao ouvir o
ranger discreto das portas. Seus pequenos olhos redondos se arregalaram, e
ele deu um suspiro profundo. Com a boca aberta, ele apontou.

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