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Lorena tirou a mochila das costas e sentou-se no assento do ônibus, segurando-a no colo. Do seu lado, uma menina que ela julgou ter uns 12 anos. Quando a encontrou, minutos antes, fugindo desesperada, pensou que a garota havia sido assaltada ou coisa semelhante, mas a garota parecia intacta e com todos seus pertences. Talvez só tenha se assustado mesmo, com alguma pessoa estranha ou animal. De qualquer forma, Loli tentou acalmá-la e se ofereceu para acompanhá-la até em casa. Com uma nota de dinheiro, pagou a passagem de ônibus das duas e se sentaram.
Loli reparou que os olhos da garota estavam avermelhados. Parte porque ela estava muito assustada e chorando, mas parte parecia estar irritado.
- Você quer um colírio? Eu tenho na minha bolsa.
- Não. - Jéssica disse, esfregando os olhos.
- Quer meu telefone emprestado para ligar para algum parente e avisá-los? - disse, oferecendo o celular com a mão. Jéssica olhou para o aparelho e fez que não com a cabeça "eu tenho meu celular" - Ok, tudo bem.
Ela deveria ter previsto isso. Hoje em dia, quase todo mundo tem um celular. Enquanto Lorena só foi ter seu primeiro Motorola v8 quando tinha uns 14 anos, aquela garota de 12 já deveria estar no seu segundo ou terceiro da vida, e tudo bem. Os tempos mudam, né? De qualquer forma, não custava nada ela oferecer.
O ônibus começou a andar e Jéssica olhou para trás e através da janela, angustiada. Lorena pôs a mão na perna esquerda da garota e sorriu.
- Não se preocupe. O que quer que tenha te assustado, não vai te encontrar aqui. Você está segura.
E Jéssica, embora ainda em pânico com o que vira naquele beco, sentiu com essas palavras (e com a aura dourada ao redor de Loli que só ela podia ver) que, de certa forma, era verdade: ela estava segura agora.
- O-obrigada. - disse baixinho.
- Não foi nada. Se quiser conversar sobre o que aconteceu, pode falar comigo, tá?
- Tá.
Lorena sabia que havia acontecido algo bem pesado para assustar aquela garota assim, mas que ela ainda não se sentia confortável o suficiente para falar, ainda mais porque ela nem conhecia a Loli, o que podia tanto facilitar quanto dificultar ainda mais. Decidiu não insistir mais por hora. Conversar sobre outros assuntos talvez fosse a melhor opção.
- Vi que você está com o uniforme municipal. Acabou de sair da aula ou estuda de manhã?
- Acabei de sair.
- Ah sim. A aula foi legal?
- Não.
Por que ela perguntou isso? A aula sempre é chata, ainda mais nessa idade. Isso era uma verdade universal, da mesma forma que os shows do Roberto Carlos no fim de ano e que as coisas sempre tem como piorar. "Droga, Lorena. Pensa antes de falar".
Silêncio.
O ônibus ficou cheio rápido, embora só tivesse parado em dois pontos até então. Na terceira parada, Jéssica falou timidamente:
- Eu moro nessa rua.
- É? Certo. Quer que eu te acompanhe até lá?
- Não precisa. É ali do outro lado da rua.
- Ah... Tá bom. Você tá bem?
- Estou sim. - levantou e passou entre as costas dos bancos da frente e as pernas de Lorena.
Andou, entre as pessoas e parou na saída do ônibus - Ei.
- Oi? - Loli perguntou.
- É... Obrigada de novo...
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Leoa Dourada
AventuraApós um dia misterioso que ficou conhecido como dia do Desígnio, pessoas com habilidades extraordinárias começaram a aparecer no interior do Brasil. Lorena é uma garota negra de 19 anos que cresceu e viveu a vida toda em Paladinópolis, cidade que s...
