Junmyeon não sabia o que tinha feito de tão ruim em sua vida, para ser obrigado a aturar aquele tipo de coisa ao amanhecer do dia. Ainda não eram nem sete horas da manhã, e seus pais já estavam falando asneiras na mesa do café. Se ele pudesse, não comeria na mesa junto à eles, mas sabia quanto eram chatos com isso. Tinha que tomar café com a família, almoçar com a família e jantar com a família. Ele nem queria ser daquela família do fim das contas.
Junmyeon faça aquilo. Junmyeon seja aquilo. Não tinha nenhum santo dia que ele tinha paz vivendo sob o mesmo teto que seus progenitores. Ninguém fazia ideia de como era um inferno ser obrigado a aturá-los. Na escola, as pessoas o julgavam como sortudo apenas por viver em uma mansão luxuosa, ter dinheiro e bens materiais que a maioria deles não tinham. Mas do que adiantava isso tudo se o garoto não tinha sossego? Ele não queria o afeto dos pais, porque sabia bem que nunca teria, então exigia pelo menos um pouco de paz e liberdade.
Jun tinha sempre que tirar as melhores notas, foi obrigado a ser presidente do grêmio estudantil, tinha que ser bom em tênis e golfe para jogar com os filhos dos sócios de seu pai nos fins de semana, tinha que aprender línguas que ele nunca vai usar na vida. Afinal, para que servia a língua alemã? O que diachos ele ganharia aprendendo a falar aquela língua do demônio? Nada. Saber falar alemão era uma coisa inútil em sua concepção, só usaria se um dia viajasse para a Alemanha, e era uma coisa que talvez nunca aconteceria, pois, não achava o país uma grande coisa. Mas, estava sendo obrigado pelo seu pai a aprender a língua, segundo seu progenitor, aquilo seria algo útil para ele no futuro, coisa que ele discordava totalmente. Agora, ele achava legal ter aprendido inglês e mandarim, achava que essas sim, seriam línguas muito úteis em sua vida.
— Junmyeon, arrumei um cursinho à noite para você. — disse o seu pai, segundos depois que ele havia sentado em volta da mesa.
O pequeno olhou para o progenitor com os olhos arregalados, uma feição mista de desgosto e surpresa. Ele não havia nem dado tempo do garoto colocar um pouco de café na xícara, e já estava inventando outra coisa para deixá-lo sobrecarregado.
— Outro curso, abeoji? — tentou disfarçar o desgosto em seu tom de voz, mas a sua cara entregava tudo o que estava sentindo.
— Não adianta me olhar assim, Junmyeon. — o mais velho bateu o punho na mesa, apontando o dedo no rosto do filho. — Já estamos na metade do ano. Você precisa começar o curso o mais rápido possível, entrar em uma boa universidade de administração.
Junmyeon largou a torrada que tinha em mão dentro do prato, batendo o pé no chão freneticamente por conta do nervosismo. Esse era o seu maior problema, não queria fazer administração, mas não conseguia ir contra o pai. Não conseguia dizer não e fazer algo que tenha vontade. Tinha medo de encará-lo e apanhar.
— Podemos não falar sobre isso agora?
— Temos que falar sobre isso agora sim. — o homem levantou um pouco o tom de voz. — Acha que esse idiota vai assumir minhas empresas? — apontou para Minseok, que até então estava comendo calado e com a cabeça baixa. — Seu irmão não tem capacidade mental nem para ser catador de lixo.
Seu pai cuspiu as palavras, deixando os dois irmãos tristes com aquilo. Junmyeon não gostava de como seu pai tratava o mais velho, mas também nunca tinha coragem para protegê-lo. Minseok era sempre maltratado, como se fosse um encosto, isso deixava o baixinho irritado, pois, amava o irmão mais-que-tudo na vida. Os dois só tinham um ao outro para tudo, sempre se apoiavam em qualquer coisa. Mas, Minseok se sentia triste por ser tratado daquela forma dentro de casa, era como se ele não significasse absolutamente nada para os pais, o que realmente era verdade.
O tratamento com Minseok nunca foi um dos melhores, mas as coisas pioraram quando ele se revelou gênero-fluido. Ele apenas se sentia homem em determinados dias. E mulher em outros. Simples assim. Minseok era dessa forma. Ele poderia querer brincar de bonecas num dia e virar um garoto que curte carrinhos e futebol no outro. Ele gostava de usar roupas femininas, maquiagem, era delicado no trato, mas se identificava a maior parte do tempo como um menino e insistia que o chamem de ele, no masculino, mesmo nos dias em que se sentia como garota. O garoto já sofreu bullying na escola porque os meninos não queriam que ele usasse o banheiro masculino e lhe arrancaram as calças para ver se realmente era homem. E ser tratado dessa forma pelos pais apenas pioravam as coisas, afinal ele apenas se sentia daquela forma, era o que ele era.
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Insecurity [sulay] ~ threeshot
FanfictionKim Junmyeon era um garoto inseguro, mas ele estava trabalhando nisso.