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MICHELLE

2 anos depois

Quando você desiste do sonho da sua família, sua vida toda vai ser ouvir comentários dizendo o quanto foi idiota, burra, incompetente, irresponsável, hipócrita... Enfim, recebi um dicionário de xingamentos e possíveis frases que te deixavam depressiva por um bom tempo.
Acabar com os planos de fazer medicina foi um baque para qualquer um, todos ficaram surpresos com a minha mudança repentina de vida.
"Deixar de ser médica para ser florista é pedir para ser humilhada", disse meu pai aos meus vinte e três anos.
Antes mesmo de você nascer sua vida já é planejada sem ao menos ter a chance de dar a opinião, escolhem seu nome, compra coisas da cor que acham que é baseada no seu gênero e até chegam planeja o seu enterro, comigo não foi diferente, minha vida foi bem mais que planejada, tive que nascer pra fazer o que mandavam, mas pelo azar de todos, já nasci do ventre da minha mãe tacando o foda-se pra qualquer um que não me agradasse.

Não tem nada a ver uma coisa com a outra, medicina e floricultura, é realmente bizarro essa reviravolta de "novela", onde a garotinha se torna rebelde pra seguir o mundo lá fora, mas, já me disseram que as flores são capazes de mudar a sua alma e atrair aquilo que mais te pertence, que te guiam com o seu cheiro doce até no paraíso sem ter que morrer, depois disso eu deixei de lado um grande sonho, para tornar uma ideia em realidade. E essa frase não podia estar mais certa, e pelas flores eu conheci Richard.

Flashback ON

- Michelle? Será que posso sair mais cedo?

Annabeth era uma das funcionárias da floricultura, tem uma responsabilidade gigantesca com o trabalho, as vezes eu achava que era ela que coloria aquilo tudo junto com as flores.

- Sim, claro, vá antes que sua filha piore - dou um sorriso

- Muito obrigada

Ela só tem dezoito anos, já ouvi muitas pessoas a julgando por ter uma filha aos dezesseis, infelizmente, essas pessoas não entendem o grau da situação, Annabeth foi abusada nessa época, não pediu para isso acontecer, ainda me lembro dela me pedindo uma vaga de emprego para sustentar a filha, não pude negar, porém, prometi a ela que não tocaria mas no assunto, se trata de algo delicado, mas para fechar esse acordo, convenci a ela de procurar uma ajuda em um psicólogo, os momentos intensos que ela passou, não podem criar raízes e permanecer ali dentro, tem que desabafar para os demônios queimarem.

Já se passavam das 22:00 horas, tinha que fechar tudo, a rua fica escura e deserta demais a essa hora, e eu não estava afim de ser assaltada ou algo pior.
Quando estou quase terminado de arrumar o balcão, ouço a porta abrindo e o sininho tocar.

- Sinto muito, mas já fechamos - digo ainda de costas para a porta e arrumando o balcão de atendimento

- Por favor, se eu não levar nada para a minha mãe, ela corta o meu pescoço

Me viro para ver quem era, e ele é um tanto...charmoso, com um ar de superioridade, talvez fosse pelas suas roupas, algo me diz que tudo aqui tinha um preço muito alto.

- Que tipo de flor vai querer?

- O tipo de flor que faz uma mulher esquecer que você chegou atrasado no aniversário dela - rimos

- Não sei se essa espécie existe mas, posso dar um jeito - falo com a maior simpatia do mundo

Saio do balcão para preparar um buquê, tento fazer o meu melhor e deixar a criatividade me guiar, quando fica pronto, retorno ao encontro do cliente.

- Essas flores se chamam Lisianthus, dizem que o seu significado é a sofisticação e elegância - digo entregando o buquê - Aposto que ela vai gostar

- Essas são as duas palavras que a minha mãe gostaria que se dirigisse a ela - e mais uma vez nós rimos juntos por conta das suas piadas

- Que bom que gostou - vejo ele pegando um dos cartões do balcão que serviam como divulgação

- Obrigado pela ajuda, conte com a minha volta aqui

- Estarei esperando

No momento em que estava abrindo a porta prestes a sair, ele olha pra trás, da uma piscada com o olho direito e sorri, me deixamos completamente boba.
Ver ele sorrir fez a paz se reinar pelo ambiente, e ver ele indo embora, fez com que eu voltasse a realidade, uma realidade dolorosa, mais ainda sim com um doce cheiro das flores.

Flashback OFF

Eu queria não poder mais lembrar do passado e me sentir triste, sozinha ou incompleta sem ele, Arthur já sabe do acontecimento, aparentemente não afetou seu comportamento na escola, mas em casa, ele é outra criança, não quer mais brincar comigo, ou fazer bolo de chocolate assim que termina seu programa favorito aos sábados.

Como matar a saudade? Está cada vez mais difícil lembrar de como era ser tocada por Richard Alvarez, a leveza que existia em seu tom de voz ao falar de como estava completamente apaixonado por mim todas as noites, até mesmo das briguinhas eu sinto falta.
Todos dizem que esse sentimento de dor vai passar com o tempo, sinto que ainda tenho muito o que sofrer com isso, mas tenho que ser forte pelo Arthur, não posso deixá-lo chegar em um nível de depressão, não aguentaria ver meu filho cabisbaixo em qualquer lugar, ou tentando fingir a sua felicidade, quero vê-lo rir a cada segundo que eu olhar ou pensar nele, quero que ele curta a sua infância o máximo possível, como qualquer criança deveria viver

Michelle Ramos, uma mulher de trinta e um anos, dona de uma floricultura, cria um filho incrivelmente maravilhoso, viúva e com uma família que se finge maior do que os outros, não tem nexo, preciso respirar ar puro o máximo possível, ainda rezo todas as noites para que as flores me levem novamente para aquilo que pertença a mim, e me faça feliz como eu mereço, ou, acho que mereço.

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