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MICHELLE

Esses últimos dias tem passado rápido e menos ensolarado, nada de novo aconteceu, a não ser às notas baixas do Arthur na escola, esse garoto me deixa de cabelo pra cima, as vezes acho que não sou uma boa mãe, ou só pelo simples fato de não estar aceitando a mudança repentina do meu filho.

A floricultura está na sua clientela de sempre, nunca estava vazia, principalmente quando era dia dos namorados, e é nesse dia que eu trabalho mais, mesmo assim, ainda não me arrependo da minha decisão sobre o meu trabalho.
No meu horário de almoço eu sempre como no mesmo lugar, o Burguer King ... Sim, eu como porcaria sempre que posso, se for para comer algo saudável, eu faço isso em casa, mas não deixo de fazer exercícios, isso é muito importante, a não ser que eu dê a louca e prefiro comer um pode de sorvete a noite e assistir um filme de romance antigo, aí sim, eu não me importo com a minha saúde.
A fila de espera está sempre grande, mas a minha vontade de comer é maior, então prefiro ficar aqui e esperar, sei que irá valer a pena depois, sempre vale.

Finalmente consegui pegar o meu almoço, quase na hora de voltar para a floricultura, procuro uma mesa para sentar e agradeço a Deus por me fazer esperar naquela fila e me sentir satisfeita, assim que consigo um lugar e pego no hambúrguer, alguém me cutuca no ombro, espero que essa pessoa acredite em Deus, porque ela irá conhecer ele mais cedo por atrapalhar meu momento de glória.

— Quem é você? - olho para o cara que estava atrás de mim com os braços cruzados

— Desculpe atrapalhar mas, uma moça pediu para te entregar esse bilhete - ele estende a mão e me entrega o respectivo bilhete, que na verdade, era uma carta, e eu conhecia bem qual carta era — Quem te entregou isso?

— Aquela moça - ele aponta para um lugar e eu não consigo identificar pra onde — Acho que ela foi embora

— Como ela era? - eu pergunto pra ele quase desesperada, que na verdade, estou mesmo

— Ela era ruiva, e dizia que te conhecia

Não conheço muitas ruivas nessa vida, só que todas elas - que na verdade são duas - são amigas da minha mãe

— Ela era jovem?

— Creio eu que sim

— Obrigada pela informação - pego o meu lanche e vou até o balcão para pedir para que coloquem em um saco, quero tudo isso para a viagem

Isso é realmente uma puta brincadeira, definitivamente, tem alguém me seguindo, e eu não estou gostando disso, e me acabo mentalmente por não vir de carro, achei que uma caminhada iria fazem bem depois do lanche, mas parece que tive que opinar para uma maratona até a floricultura.

- Vamos meu amor?

- Sim mamãe, mas eu quero me despedir da vovó

Tinha achado melhor que o Arthur ficasse com os meus pais, nem que fosse esses três dias na semana, depois do ocorrido no Burger King fiquei atolada de pensamentos, manter o meu filho perto de mim quando estou nesse estado, nem sempre é bom pra ele

- Tudo bem, vai lá, não demore muito

Uma curiosidade sobre o Arthur: ele automaticamente muda o seu humor de acordo como você está. Quando você está com raiva ele muito teimoso e não quer fazer as coisas, quando você fica alegre ele fica totalmente elétrico, do dia até a noite, diz ele que só assim pode entender o que as pessoas estão passando, eu não queria deixa-lo preocupado por eu acha que estou sendo estranhamente perseguida

- Arthur, vamos logo, está demorando muito

E nada de uma resposta, pode ser que ele tenha parado para comer chocolate, o que vai nos atrasar até a chegada da nossa casa. Andar por aquele lugar me faz lembrar da infância, dos livros em cima da cabeça para ter postura, ou as aulas de inglês que duravam por horas e horas, "ensinos dignos de uma dama", era sempre o que minha mãe dizia. Os corredores sempre em um silêncio, nunca tinha habitado uma alma nesse cômodo, quando criança, era proibida a minha entrada ali, principalmente em uma sala, onde saia vozes estranhas, e por incrível que pareça, tem vozes ali nesse momento

"Não adianta, já conversamos sobre isso a muito tempo"

Aquela voz era do meu pai?

"Ainda estou pensando o porquê você deixou ele entrar em nossa casa"

É, eu tinha certeza, meus pais estão naquela sala, e tenho a leve impressão de que tinha mais alguém lá

"Pense bem, a mercadoria nos traria muito dinheiro"

O que ? Mercadoria? Do que eles estão falando, mas que merda é essa? Aquelas vozes acabam quando meu celular começa a tocar, e eu me matei mentalmente por isso, principalmente quando vi a porta se abrir

- Michelle, o que faz aqui?

Minha mãe estava deslumbrante, como sempre, e pela primeira vez não a vejo usando um salto alto, mesmo dentro de casa, seu vestido era solto abaixo do joelho, fazendo com que a cor vermelha realce a sua pele e a sua postura, seus cabelos ondulados e com brilho fazia com que qualquer jovem quisesse ficar como ela futuramente, eu estou chamando minha mãe de velha e conservada ao mesmo tempo? Acho que isso acontece quando estou nervosa

- Eu...

- Vovó, achei você

Ver meu filho correr até a avó me deu um certo alívio, já estava prevendo a bronca que eu iria levar, acredita que a regra do cômodo ainda é rígida?

- Vamos meu amorzinho, está na hora de ir

Eu tinha que sair de lá o mais rápido possível, não me sentia bem nesse lugar, aquela conversa estava estranha, meu pai me disse para não ouvir a conversa dos outros, eu me lembro muito bem quando ele me soltou essas palavras

Flashback ON

- Vamos Michelle, é seu aniversário de nove ano, se anima

Esse dia está sendo totalmente chato, só gosto de comemorar meu aniversário com os meus pais aqui, só que eles sumiram por um tempinho. Eu via as pessoas rindo alto e se achando com suas roupas caras e brilhosas, mas eu só queria a minha mãe e o meu pai aqui, mesmo em casa eles não param um segundo. Sai de perto das pessoas e fui para o lugar mais longe que eu pude naquela casa, só que quanto mais eu me afastava mais outras vozes aumentavam, e eu conhecia aquelas vozes, eram os meus pais

"Eu já disse pra você Carlos, não quero mais fazer negócios com eles"

"Você sabe o quanto isso pode ser lucrativo?"

"Está louco, só pode, meu bem, escute-me, eles podem ser capazes de levar a nossa filha"

Como assim me levar? Eu não quero ficar longe deles, isso não pode acontecer

"Michelle, o que faz aqui?"

Por alguns segundos eu me desliguei desse mundo, e não percebi a aproximação dos meus pais

- Papai, eu...

Meu rosto queima como fogo, depois de tantas novelas assistidas com a minha mãe, agora eu sei como é levar um tapa

- Nunca mais seja intrometida e escute a conversa dos outros, entendeu?

Nunca me senti tão errada naquela hora...

Flashback Off

Isso foi a muito tempo, mas não pude deixar de esquecer, nunca mais fiz algo sem a autorização dos meus pais, até perceber o quanto posso ser independente, digamos que aquilo me traumatizou muito, mas agora, sinto que devo me aprofundar bem mais no que acontece por aquela casa, por aquela sala, e principalmente, com quem eles estavam conversando?

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