Desci bem devagar tentando me equilibrar naquele salto. Um chofer entrou no carro e o levou para estacionar, haviam muitos carros de luxo parando para os convidados em seus finos trajes de gala descerem. Algumas pessoas me olharam torto e me senti um pouco deslocada, talvez fosse porque eu era a única mulher que não estava de vestido longo, ou por eu estar de preto, não sei dizer ao certo.
Uma brisa gelada bateu em meu rosto me arrepiando de frio. Entramos no salão do clube de braços dados, eu e meu pai. Suas mãos estavam geladas, ele parecia nervoso com o que poderia acontecer ali. O casamento todo foi um exagero. Haviam tantos convidados que parecia uma pequena multidão no enorme salão. Tinham arranjos de flores por todos os lados que exalavam um aroma suave que se misturava ao caos de perfumes importados dos convidados. Belos arranjos de orquídeas repousavam em cima das mesas com pomposas toalhas douradas, estavam postos tantos talheres que eu não sabia para que servia metade, e o prato era de uma fina porcelana com desenhos talhados em ouro.
Uma orquestra inteira estava em um palco no fundo do salão. Depois de um tempo, eles começaram a tocar uma música que silenciou os convidados. Todos observaram o noivo, meu tio, entrar no salão pelo longo tapete vermelho de braços dados com a minha avó. Ele sorria de orelha a orelha, enquanto a minha avó estava quase chorando emocionada, ou talvez triste, não sei dizer ao certo, mas as lágrimas que enchiam seus olhos eram nítidas, parecia que ia transbordar em choro a qualquer instante. Eu tinha doces lembranças com meu o tio Cássio, ele brincava muito comigo quando eu era criança, sempre me levava ao parque em dias ensolarados. Não tinha mais tanto contato com ele, meu pai se afastou de sua família há alguns anos por causa de uma briga cujo motivo eu desconheço. Acho que ele foi convidado apenas por mera formalidade. Ou talvez meu tio quisesse fazer as pazes, o que seria ótimo, assim eu talvez tivesse mais pessoas para conversar! Meu pai foi bem resistente a ir àquele casamento, não sei ao certo o que o fez mudar de ideia, mas lá estávamos nós.
Depois de um tempo que ele estava no altar, as vozes de conversas paralelas pelo salão aos poucos foram voltando. Os convidados aguardavam ansiosos pela entrada da noiva. Ela demorou bastante, acho que levou bem a sério aquela história da noiva ter que chegar atrasada, devia querer garantir que o noivo estaria no altar quando entrasse. A marcha nupcial começou a tocar e o som abafado de vozes conversando silenciou abruptamente, todo mundo olhava para a noiva entrando no salão e passando pelo tapete vermelho que a levaria para o altar. Na frente da noiva três crianças pequenas jogavam pétalas de rosa branca enquanto andavam lentamente. A mulher usava um vestido branco todo rendado, de costas completamente nuas e com um decote que avantajava seus belos seios. Seus longos cabelos negros estavam meio presos num penteado de gala e a extensa cauda do vestido arrastava no chão, era seguida por sua daminha de honra, uma menininha que devia ter uns quatro ou cinco anos, ela tinha uma carinha de travessa e mordia os lábios num sorriso tímido enquanto apressava o passo de suas curtas perninhas por baixo do pomposo vestido rodado. Eu não conseguia me imaginar casando daquele jeito um dia, não sei porque, é como se aquilo não fosse para mim...
A cerimônia pareceu demorar uma eternidade, meu bumbum já estava dolorido de ficar tanto tempo sentada. Quando finalmente acabou, me levantei aliviada para tomar um ar fresco do lado de fora do salão. Pude ouvir o som abafado de vozes outra vez e uma música animada começou a tocar na pista de dança, garçons estavam por toda parte em seus trajes elegantes e posturas impecáveis, equilibrando suas bandejas com muita classe para servir quitutes e bebidas aos convidados. Um delicioso e tentador cheiro de comida se espalhava no ar quando saí do salão. Já do lado de fora pude desfrutar de uma bela vista, apesar do vento gelado que soprava, preferia a tranquilidade do jardim do que a agitação da festa. Sentei-me em um banco e fiquei observando a enorme lua cheia que refletia branca na água escura e tremeluzente do lago, combinava com a iluminada ponte JK que parecia tão próxima no meu campo de visão. Se alguém tirasse uma foto daria um belo cartão postal, pena que eu não estava com a minha câmera, com o celular não era a mesma coisa, por isso deixei para lá. Eu estava distraída em meus pensamentos quando um homem se aproximou.
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Insana
Teen FictionLia é uma adolescente em luto pela morte da mãe, e repentinamente começa a ser perseguida por monstros. A jovem embarca em uma louca aventura com seu novo amigo, um cachorro falante que caiu do céu, para fugir dos monstros e entender o que está acon...
