3 de março
Aquela não era a primeira vez que Eijiro andava de avião. Quando criança, pelo menos uma vez ao ano ele e sua família planejavam uma viagem de férias para algum lugar novo; o garoto cresceu com essa tradição, e sempre gostou de passar o tempo nas alturas. Às vezes ele gostava de se imaginar como piloto, gostava de pensar em um futuro onde ele passaria grande parte do seu dia ali entre as nuvens, sem ter de se preocupar com os problemas lá embaixo, na Terra. Era um pensamento bobinho, mas qual garoto nunca sonhou em ser piloto de avião? Astronauta? Ou até mesmo um super herói que voa?
Por algum motivo, estar lá em cima, voando no céu ou flutuando no espaço, era um sonho frequente dele.
Por ter uma criação... digamos delicada, Eijiro sempre foi uma criança quieta. Durante os voos que fez na sua infância, ele preferia ficar sentado quietinho no seu canto, ou dormindo ou se distraindo com algum filme na TV do avião. Neste dia de março, no entanto, ele não conseguia pegar no sono de jeito nenhum.
Em seus fones de ouvido os vocais de Luke Hemmings em "She's Kinda Hot" estavam estourando, uma tentativa falha de se distrair dos pensamentos que não paravam de rodar sua mente. A ansiedade se despertava no corpo de Eijiro a cada minuto que se passava; ele não conseguia calar seus pensamentos com música, muito menos conseguia dormir e escapar para o mundo dos sonhos.
Talvez fosse o fato da mudança. É... talvez. Mudar de cidade nunca é fácil, ele precisaria se preocupar com a escola nova, as pessoas novas, ousava dizer que até o ar daquela cidade era diferente.
Um ar infantil. Com cheirinho de criança e sabor de cookies quentinhos.
Aquela cidade estava repleta de memórias que Eijiro pensou ter esquecido, mas elas sempre estiveram ali guardadas nos fundos da sua mente, esperando a hora certa de aparecer e bombardeá-lo com nostalgia. Memórias de uma vida mais simples, sem preocupações sobre notas boas na escola, namoros e términos, estágios nas férias de verão ou coisas do tipo. Eram lembranças de faz-de-conta, de joelhos sujos de terra e lama, de cabelos bagunçados pelo vento, de risadas que preenchiam o tão grande quintal - aquele maldito quintal, que mais parecia o mundo todo.
Todas essas memórias estavam o atingindo como flechas desde as últimas três semanas, mas naquele dia de março, em um voo de ida (sem expectativa de voltar) há milhares de metros do solo, as memórias o atingiram como balas entrando diretamente no seu coração. Ele estava tão nervoso e ansioso que sua cabeça começara a dilatar, e ele sem querer cometera o pecado de não trazer um remédio para dor de cabeça.
Eijiro suspirou. Ainda faltava cerca de uma hora para o avião pousar.
Naquela cidade de sua infância, estava a antiga casa dos seus avós. Eijiro e a mãe se mudaram para lá quando o garoto tinha apenas quatro anos de idade, aos sete ele se mudou novamente, deixando para trás uma vida de brincadeiras e visitas de domingos. Os avós de Eijiro sempre foram muito acolhedores, e como a casa era grande e espaçosa, ele sempre teve um quarto próprio, um cantinho para chamar de seu. Só que, pouco tempo depois dele fazer sete anos, a mãe recebeu uma transferência de trabalho na capital - uma proposta irrecusável - e ele obviamente a acompanhou neste novo capítulo de sua vida. Agora, anos depois ele voltaria a andar pelos corredores daquela antiga casa, ele voltaria a usar o banheiro com porcelanas coloridas, voltaria a olhar para a janela do seu quarto que tinha vista para o quarto de-
Sua mãe se mexe na cadeira ao lado. Ela está lendo alguma coisa no celular, também perdida em pensamentos. Eijiro, que está no assento da janela do avião, a encara curiosamente.
Se já estava difícil para ele, imagine para sua mãe. Aquela também foi a casa em que sua mãe cresceu, aquela cidade também pertencia às memórias da sua mãe. Assim como ele, ela também teria que enfrentar todas as pessoas do seu passado, todas as lembranças de uma vida (talvez) mais fácil e simples. Aquela casa era dos seus avós, e com certeza Eijiro não deveria tirar a importância da sua dor, mas pela primeira vez ele pensou na tristeza que sua mãe sentiria assim que ela entrasse pela porta e os próprios pais não estiverem mais ali para recebê-la de braços abertos e sorrisos contagiantes no rosto.
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Hear me | Kiribaku
FanfictionAos dezesseis anos de idade, Eijiro Kirishima recebe uma bolsa de estudos para estudar na UA, uma escola de prestígio, famosa pelos seus alunos exemplares e pelas notas altas. O problema é que a UA fica localizada na cidade onde Eijiro passou boa pa...
