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Cada um de nós tem em si o céu e o inferno.
— Oscar Wilde. O Retrato de Dorian Grey.”


JÉSSIKA VELARK 




Não sabemos o momento exato em que tudo começa a dar terrivelmente errado. Ou sabemos e não ousamos enxergar o precipício a qual estamos prestes a cair — deitada na minha cama, em um quarto que há tanto não era meu, os acontecimentos de horas atrás me cercam como malditos assassinos sedentos por meu sangue.  

Passei horas após a chegada sem aviso, minha mãe não ousou fazer perguntas, apenas me acolhe e faz o possível para me manter com os pés firmes na realidade, porém, ao adentrar o cômodo que tinha muito de quem eu era, desabei e chorei tudo o que não pude em meio aquele momento que imaginei tanto acontecer e agora lamento terrivelmente. 

Encolhida na cama, meu coração quebrantado perfura meu peito com seus cacos pontiagudos, trazendo a dor emocional que muito conheço — é doloroso se acostumar com o irreal, sentir conforto no que poderia acabar em um piscar de olhos. 

Confortar-se em escombros era uma desgraça premeditada. 

Ainda consigo ouvir sua voz rude e maldita, a brutalidade com a qual tomou meu corpo, o ódio que irradiava em seus olhos azuis — constatar o seu retorno foi como um despertar após tanto tempo mergulhada em inércia. 

Eu deveria estar feliz, deveria agradecer por finalmente estar livre, a despeito de todo o ciclo de condenação e falsa redenção, me acomodei ao ponto de esquecer tudo o que de fato importava — busco respirar, tento impedir o tremor em todo meu corpo, porém, a crise de ansiedade se alastra como fogo em pólvora, me encolho ainda mais, implorando em silêncio para qualquer um me protegesse desse maldito inferno a qual fui lançada mais uma vez. 

O problema de se acostumar com a felicidade é que esquecemos de como as pessoas são crueis e não possuem remorso algum.

A noite virou dia sem que pude perceber, o sono não viera e a fome tampouco, meu corpo dolorido são reflexos da tortura que me fui condenada — não fazia ideia do horário, não sabia o que fazer. 

Não queria crer que tudo foi de fato real.

Deveria ter percebido nas entrelinhas a sua estranheza, seu sumiço e suas aparições esporádicas e robóticas, fui tão burra. Por Deus! Como sinto raiva de mim mesma por sucumbir a tudo isso. 

Leves batidas soam antes da porta se abrir, me viro e me sento, minha mãe entra segurando uma bandeja de café da manhã, deixa próximo a mim e se senta.

— Como está, amor?

— Nada bem.

— Quer contar? — Seu olhar carinhoso continha tristeza e preocupação, a qual jamais que tivesse.

— Por enquanto não, mãe — engulo em seco. — Me desculpe por ter chego aqui daquele jeito, totalmente transtornada e assustada. 

— Está tudo bem, meu amor. A mamãe entende, porém me dói te ver assim. 

— Me desculpe — não consigo dizer outra coisa. 

— Ficará tudo bem — sua mão acaricia a minha, quente, macia e convidativa. 

Sentia falta dela, sentia falta de tudo que era normal em minha vida. Tento sorrir, devolvo o gesto e pego a xícara de café expresso com canela, não sentia fome, no entanto, me esforcei um pouco em vista que estava sob os olhares atentos da dona Marta. 

VELARK | PART I E IIHistórias para pegar e não largar. Descubra agora