Capítulo 3

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Hospital

Lucy finalmente despertou, abrindo os olhos devagar. Por um breve momento, pensou que tudo não passava de um pesadelo.

— Ah, finalmente acordou, né, mocinha! — disse a enfermeira com um sorriso gentil. — Como está se sentindo?

Lucy levou a mão à cabeça e sentiu uma faixa envolvendo—a. A realidade caiu sobre ela como um peso esmagador, e as lágrimas começaram a escorrer silenciosamente pelo seu rosto.

— Está com dor? Mocinha...? Tudo bem... vou ali e já volto.

A enfermeira hesitou diante do silêncio da menina, mas acabou saindo, deixando—a sozinha.

Lucy olhou para o lado e viu um lenço com seu nome bordado. Algo dentro dela reconhecia aquele objeto. Ao pegá-lo, uma foto caiu, mas ela nem percebeu. Apertou o tecido contra o peito com força, acreditando que fazia parte do presente de aniversário que seu pai estava preparando.

A enfermeira retornou com uma médica.

— Oi! Como você está? — perguntou a doutora, observando as lágrimas ainda marcando o rosto da menina.

— Viu? Eu disse que ela não fala... Talvez aquele homem esteja certo... — murmurou a enfermeira, desconfortável.

Ao notar a foto caída no chão, ela a recolheu e colocou ao lado de Lucy, que mal reagia. Antes que a conversa continuasse, um médico apareceu à porta.

— Com licença. Precisamos de vocês duas agora.

A médica assentiu.

— Mocinha, fique aqui, tá bem? Já voltamos.

Elas saíram, e o silêncio tomou conta do quarto. Lucy respirou fundo e olhou ao redor. Seu peito apertava com o ambiente frio e impessoal.

Hospitais sempre foram lugares assustadores para ela.

Determinada, Lucy se levantou. Pegou o lenço e a foto com cuidado e foi até a porta.

Espiou o corredor.

Estava vazio.

Com passos cautelosos, saiu do quarto. Enquanto caminhava, viu médicos e enfermeiros correndo em direção a uma sala — havia uma emergência em andamento.

Seu coração acelerou. Aquela confusão era sua melhor chance.

Ela se movia rapidamente, mas evitava correr. Sempre que ouvia passos, escondia—se atrás de macas e carrinhos de suprimentos. O medo tornava sua respiração pesada, mas ela continuou, seguindo instintivamente o caminho até a saída.

Depois de atravessar dois corredores, avistou as portas de vidro da recepção.

O local estava caótico: pacientes discutiam com atendentes, e um segurança tentava conter alguém exaltado. Ninguém parecia notar a presença dela.

Lucy aproveitou a distração e caminhou o mais naturalmente possível até a porta. Quando seus pés tocaram a calçada, um arrepio percorreu seu corpo.

Estava livre.

Ruas

Sem rumo, seguiu andando pela rua. Seus passos trôpegos denunciavam o cansaço. O dia que deveria ser o mais feliz de sua vida havia se tornado um pesadelo.

Foi então que uma jovem a notou.

— Oi, mocinha! Tá perdida?

Lucy ergueu o olhar. A moça, de expressão gentil, logo percebeu o estado da menina: a faixa na cabeça, os olhos vermelhos de tanto chorar, a roupa suja.

Lucy (2021)Onde histórias criam vida. Descubra agora