Capítulo 5

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6 anos depois...

Lucy, agora com 12 anos, ainda frequentava o mesmo banco de anos atrás. Lá, passava a maior parte do tempo observando as nuvens. Parecia ter superado tudo, mas um novo incômodo a perturbava: o fato de não ser capaz de falar.

Isso fazia com que outras crianças não simpatizassem com ela. Como nunca recebiam respostas, tinham dificuldade de se comunicar e, por isso, tendiam a enxergá-la com maus olhos. Se aborreciam facilmente com a pobre garota.

Outra dificuldade recorrente era com a adoção. Lucy viu, incontáveis vezes, outras crianças sendo escolhidas por diferentes famílias, mas ela nunca foi adotada. A maioria das pessoas também sentia dificuldade em se comunicar com ela, e, como ninguém — nem ela — sabia usar linguagem de sinais, acabavam optando por não escolhê-la. Sim, Lucy, durante todos esses anos, não conseguiu aprender Libras. Sempre achou muito difícil.

Nas aulas, também enfrentava complicações. Praticamente em nenhuma ia bem — com exceção de uma: Educação Física. Essa sempre foi tranquila para ela.

Além do banco, Lucy gostava de explorar o gigantesco orfanato, especialmente quando seu lugar favorito estava ocupado.

Durante esses anos, por volta de três, Lucy passou a lidar com uma garota que vivia implicando com ela: Íris. De cabelo ainda mais curto que o de Lucy, Íris tinha um ano a menos, mas era um centímetro mais alta (Lucy media 1,50). A personalidade de Íris era descrita pelas outras crianças como forte, exagerada e arrogante. Ela costumava andar com duas amigas: Ranny e Diane.

Ranny era descrita de forma mais simples. Tinha longos cabelos loiros e olhos azuis. Aos 13 anos, demonstrava ser orgulhosa e batia de frente com os outros, inclusive com Íris. Já Diane era a mais tranquila do trio: calma, inteligente, usava óculos e tinha olhos e cabelos pretos. Era da mesma idade de Lucy, e, ao contrário das amigas, era a mais "certinha", mas também a mais submissa. Sempre desistia de algo quando ia contra as outras duas.

Apesar das provocações, Íris nunca chegou a levantar a mão para Lucy.

Certo dia, uma nova criança chegou ao orfanato. Esse tipo de momento costumava gerar curiosidade entre as outras crianças — exceto para Lucy e Íris. Enquanto todos iam receber a nova menina, Lucy permanecia tranquila em seu banco.

A garota nova se chamava Jade. Era morena, com cabelos longos e lisos, de coloração preta suave, e possuía belos olhos verdes — ligeiramente mais escuros que os de Íris.

Assim que chegou, Jade foi levada por uma das supervisoras para conhecer seu quarto.

— Então, Jade, certo?

— Sim! — respondeu a garota.

— Esse aqui é o seu quarto, tudo bem? Qualquer coisa que precisar, é só chamar algum dos responsáveis. Eles vão te ajudar.

— Obrigada.

— Certo, agora venha.

A supervisora a conduziu até onde estavam as outras crianças — exceto Íris e Lucy.

— Ok. Gostaria que algum de vocês levasse essa mocinha para brincar um pouco. Quem gostaria?

Várias crianças responderam animadamente. Por isso, a supervisora olhou para Jade e disse:

— Quem você gostaria que fosse sua companhia agora, mocinha?

Jade olhou calmamente para todas as crianças pulando e gritando. Lá no fundo, viu um banco... e nele, uma criança sozinha.

— Aquela ali! — apontou.

A supervisora hesitou.

— Tem certeza?

Lucy (2021)Onde histórias criam vida. Descubra agora