Capítulo 4. Vidro fosco

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Na segunda semana que vim ficar com ele no hospital, não foi tão suave. As noites sempre muito agitadas, com medicamentos de duas em duas horas e exames de sangue de madrugada, não nos permitia dormir. Apelidamos o técnico que vinha coletar sangue de vampiro. Meu irmão quando no CTI, levou dezessete furadas até conseguirem coletar o sangue ( ele que contou), seus braços estavam roxos e ele traumatizado. As veias dançarinas, como as de minha mãe, eram difíceis de pegar e ele sofria, reclamava e chorava.

Na primeira semana fizeram radioterapia no tumor da coluna e ele ficou bem. Na segunda semana, iniciou a quimioterapia e ele teve algumas reações no organismo. Sua imunidade caiu, assim como as hemácias e plaquetas. Foram necessárias duas transfusões de sangue e ele se entristeceu, mas oramos e confiamos em Deus.

Nesse tempo houve algumas intercorrências com a equipe técnica, mas ele continuou com o tratamento, preocupado, perguntando como estavam e orando, fazendo eles tomarem mais cuidado e terem mais zelo pelo paciente. Creio que quando os cuidadores são bem tratados pelo paciente, se humanizam e passam a olhar o paciente, mais como uma pessoa do que como paciente.

Passada essa transição das transfusões, as taxas melhoraram e os médicos ficaram mais confiantes, parecia tudo correr bem. Mas um dos sintomas não passou. Um cansaço, vindo da respiração precária, prejudicava a alimentação e a fala. Ele começou a reclamar dizendo que não conseguia mais puxar o ar, que os pulmões não enchiam,  que a capacidade de armazenamento de ar estava muito restrita. Sentia como se tivesse um cinturão em torno de seu tórax, na altura das costelas.

Quero deixar aqui, bem explicado, que ele não sentia nada da cintura para baixo e estava com o corpo totalmente anestesiado pela morfina, dipirona, dexametasona e outros que não sei. Mas ele em momento algum perdeu a consciência e prestava atenção em toda medicação que lhe davam. Assim foi que ele descobriu que estavam lhe dando dez mg de morfina, quando deveria estar tomando só cinco.

O problema era que, na farmácia, só tinham comprimidos de dez e quem tinha que dividir o comprimido era o técnico, isso custou a chamada de um funcionário e também o aviso para prestarem atenção nas dosagens. Por causa disso, em alguns momentos, o paciente ficou muito grogue, mole e com a respiração alterada.

Não sei se foi devido a isso, ou ao fato dele não sentir dor, ou mesmo ao hábito de ele a tudo dar uma justificativa, que só na terceira semana deram atenção a precariedade de sua respiração.  Quando, durante a noite, a respiração dele ficou tão precária que pensei que ele partiria, choramos juntos e com muita oração, vencemos a noite. Ele mencionou o medo do câncer ter atingido os pulmões, pois ele estava tomando tanta  medicação e fazendo exercícios para o peitoral e não melhorava.

A fisioterapeuta diminuiu o peso dos exercícios e comunicou a deficiência respiratória. Quando a doutora chegou para a visita diária, eu estava esperando no corredor e comuniquei o ocorrido e o medo dele a ela, a resposta foi:

-Nao me assusta não!

Ela entrou e eu desabei no corredor, chorando, as duas técnicas que estavam cuidando dele, vieram me ajudar e com suas palavras de fé, consegui me controlar e retornar ao quarto, onde a médica verificou o estado dele e passou uma tomografia com urgência. Foi uma compulsão quando as duas técnicas que me socorreram passaram adiante o fato e iniciou uma visitação de funcionários. A cada instante entrava um copeiro, faxineiro, técnico, enfermeira, fioterapeuta, nutricionista, fonoaudióloga, todos queriam espiar o paciente mais querido do andar.

Quando chegou o resultado da tomografia, chegamos a respirar aliviados, o diagnóstico foi derrame pleural. Como também já tive um e sabia qual seria o tratamento e que a  cura é rápida. Mas como disse anteriormente, vencemos um leão a cada dia. O exame também revelou um tal de vidro fosco. Alguém já ouviu falar disso? Nem nós. Disseram que esse diagnóstico é de quem está com covid.

Quase caí em parafuso. Mas quando temos o Espírito Santo habitando em nós, ( como diz a Bíblia em 1Co 6:19) Ele nos trás a consciência da necessidade de orar e confiar. Foi o que fiz, orei junto com meu irmão e aguardamos o resultado do exame que foi feito.

A seriedade quase acusatória da doutora, trouxe um pouco de desconfiança, pois se ele estava ali há um mês, se o resultado desse positivo, ele teria pego no hospital. Então podiam, para tentar se defender da acusação de terem relaxado na prevenção, poderiam pôr a culpa nos cuidadores e visitantes. O pior seria se ele estivesse contaminado, passasse para mim e eu passasse para minha mãe.

Nos agarramos a Jesus em oração e repreendemos o mal. Foi um dia difícil, novamente houve uma confusão e o resultado que sairia ainda pela manhã só foi comunicado após a troca do plantão da noite, quando eu  cobrei da enfermeira, o resultado. Só então veio a médica do hospital e confirmou que não havia covid nenhum. Mais uma vitória contra o pai da mentira. Só que acabei passando mais uma noite no hospital.

Glória a Deus por mais uma vitória.

Milagre (Concluído)Onde histórias criam vida. Descubra agora