VII

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TH eventualmente vestiu uma elegante túnica de brocado e saiu. Passou a tarde despachando com NJ. O outro lobo estranhou a expressão fechada e triste do príncipe, pressentiu que algo ia muito mal, mas TH não lhe deu abertura para fazer perguntas. Era época de preparação intensa por causa do festival e naquele dia tiveram agenda cheia de reuniões.

À noite, JK voltou para a residência e, não encontrando TH, atravessou a rua em direção à sede. A maioria dos funcionários já tinha se recolhido, nem NJ estava mais, mas a luz da lareira estava acesa no gabinete. Entrou sem que o marido percebesse e pôs as mãos na sua cintura. TH se soltou com um gesto brusco e se afastou.

"Eu ainda não terminei"

"Mas já está tarde... Não como nada desde meio dia. Você não quer ir jantar?"

"Não precisa me esperar, vou assim que puder" respondeu sem se virar, a coluna tensa.

"Então eu te ajudo"

"Não preciso de ajuda, só de um pouco mais de tempo" desvencilhou-se mais uma vez dos braços que tentavam alcançá-lo e foi à escrivaninha no outro lado da sala.

"O que está aconteceu? Por que você está assim?"

"Não aconteceu nada"

"Eu sei que você está chateado, eu já sei, pelo seu cheiro e seu rosto"

"Estou cansado, JK. Por que você não me espera em casa?"

"Se tem alguma coisa errada, eu quero saber"

"Já disse que não tem e você está insistindo"

"Você não está me deixando chegar perto de você"

"É porque quero ficar sozinho"

JK suspirou, percebeu que alguma coisa tinha acontecido. Pensou em dar meia volta, fazer o que ele pedia. TH evidentemente estava de péssimo humor, talvez fosse melhor esperar. Mas JK não conseguia lidar com a sensação de ansiedade no peito. Fazia tempo que os dois não se desentendiam e quando isso acontecia TH geralmente preferia brigar a mantê-lo longe.

Não foi embora afinal. Andou pela antessala, sentou-se em uma das poltronas de madeira, planejava aguardar sem incomodar. Observou de longe o estado do gabinete, seu desarranjo geral e a quantidade de papéis. Talvez essa época do ano fosse mesmo estressante e o mau humor de TH não tivesse nada a ver com eles.

Era isso que se dizia, até que TH jogou um envelope verde na mesa a sua frente.

"O que é isso?"

"Não reconhece?", olhos riscados o desafiaram. "É uma carta de amante. Diz que o amor de vocês não será esquecido"

Uma sensação gelada lhe subiu pelo ventre. Finalmente entendeu a causa da tensão daquela noite "Onde você encontrou isso?"

"Na gaveta da sua mesa de cabeceira"

Ficou alguns segundos sem reação, com os olhos bem abertos, tentando se organizar mentalmente, entender a extensão do problema, perceber o quanto TH estava bravo. Abriu de qualquer jeito o envelope, revendo o que nele estava contido. "Eu nem lembrava, nem sabia que isso estava lá (...) Isso foi antes, não significa nada para mim"

"O que você quer dizer?"

"Foi antes do casamento"

"Você teve um caso com uma nobre da cidade, nós nos casamos dias depois da sua chegada, não foi antes coisa nenhuma"

"Foi antes de te conhecer"

"Vocês ainda se encontram??"

"Claro que não!"

O CasamentoOnde histórias criam vida. Descubra agora