Reflexos e reações

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O silêncio no quarto 11 tornou-se insuportável após a confissão.

— VOCÊ ESTÁ LOUCO, GAROTO? — exclamei, sentindo meu rosto ferver.

César não desviou os olhos da tela do computador, mas um sorriso de canto surgiu em seu rosto. — Era eu no vídeo, não era?

— Talvez... — murmurei, desviando o olhar para a parede.

— Entendi — ele respondeu com um riso soprado. Ele fechou o notebook abruptamente e, pela primeira vez, sustentou o olhar diretamente no meu. — Eu... acho que vou descer um pouco. Preciso de ar. Ou de mais uma partida de LoL lá embaixo.

Ele saiu do quarto com o computador debaixo do braço, deixando-me sozinha com meus pensamentos caóticos.

— MERDA! — gritei contra o travesseiro. — Eu nunca mais vou conseguir olhar na cara dele.

Precisava de uma distração. Entrei no banheiro, deixei a água quente levar um pouco da tensão e, ao sair, avistei uma tesoura sobre a cômoda. Olhei-me no espelho. Precisava de uma mudança, algo que me fizesse sentir no controle novamente. Lembrei que Liz sempre carregava tinta preta em sua mala para disfarces.

— É o que tem para hoje — decidi.

Cortei as pontas desfiadas e apliquei a tinta. Quando terminei, o visual estava agressivo e renovado. Troquei de roupa, optando por algo mais escuro e funcional. Foi nesse momento que César retornou ao quarto. Ele parou na porta, analisando-me de cima a baixo.

— O que aconteceu com o seu cabelo? E com as suas roupas?

— Eu vou sair — respondi secamente, pegando minha bolsa.

— De novo? — Ele franziu o cenho. — Está tudo bem?

— Sim. Você faz perguntas demais, César.

Mandei uma mensagem rápida para Mariana: "Vamos sair hoje?". A resposta veio em segundos: "Com certeza. Já estou por aqui".

Desci as escadas apressada. Na recepção vazia, o homem de ontem bloqueou meu caminho.

— Onde vai com tanta pressa, moça bonita? — ele perguntou, com um tom de voz que me fez gelar.

— Não te interessa — tentei passar por ele, mas ele segurou meu braço com força.

— Eu só estava tentando ser educado — ele sibilou, aproximando-se demais. — Cala a boca e colabora.

— Tira a mão de mim! — tentei me soltar, sentindo o pânico subir.

— TIRA A MÃO DA MINHA NAMORADA! — A voz de César ecoou pelo saguão.

Antes que o recepcionista pudesse reagir, César avançou. Ele podia parecer magro, mas o soco que desferiu no rosto do homem foi preciso e potente. O sujeito desabou no chão, inconsciente. César me puxou para perto, protegendo-me com o próprio corpo.

— Ele te machucou? Eu cheguei a tempo?

— Sim... você chegou — respondi, tentando recuperar o fôlego.

Ele me abraçou com força e me guiou de volta para o andar de cima. Entramos no quarto e eu ainda tremia.

— Vamos deixar ele lá no chão? — perguntei.

— Primeiro eu vou cuidar de você. Depois eu cuido dele — ele disse, sério. — E sobre o que eu disse lá embaixo... "minha namorada"... você aceita?

— Aceito — respondi com um sorriso fraco.

Ele se aproximou e me beijou. Foi um beijo calmo, que parecia selar tudo o que havíamos passado nas últimas 24 horas.

— Desde a primeira vez que te vi na chuva, eu queria fazer isso — ele confessou. — Você era a minha "menina suprema".

— Que medo desse seu vocabulário de jogo — ri, quebrando o gelo. — Mas vem, temos que resolver a situação lá embaixo.

César desceu primeiro. Eu fui até as coisas da Liz e peguei a arma que o Thiago havia mencionado. Desci logo em seguida.

— O que é isso? — César perguntou, apontando para o revólver na minha mão.

— Uma arma, César. Me admira você ser da Ordem e agir como se nunca tivesse visto uma.

— Eu sei o que é uma arma! Quero saber o que pretende fazer com ela.

— O que você acha? Ameaçar ou... finalizar o trabalho.

César pegou a arma da minha mão com determinação. Ele se aproximou do homem, que começava a recobrar os sentidos, e disparou sem hesitação. O silêncio que se seguiu foi absoluto.

— Você nunca mais vai mexer com mulher nenhuma. Muito menos com a minha — ele sentenciou.

— Pode subir, César — eu disse, pegando um par de luvas de limpeza no armário do corredor. — Eu limpo isso e dou um jeito no corpo.

— Não quer ajuda?

— Você já fez a parte difícil. Deixa que eu cuido dos rastros.

Limpei o local com eficiência técnica, descartando as evidências de forma que parecesse apenas mais um desaparecimento urbano comum naquela cidade estranha. Voltei para o quarto exausta.

— Temos que contar para a Liz — eu disse, sentando na cama.

— O quê? Ela vai nos entregar para o Veríssimo!

— A Liz é a última pessoa que faria isso, confia em mim. Ela entende esse tipo de "limpeza".

— Se você diz... — ele suspirou, sentando ao meu lado. — E como ficamos nós dois? Eu ainda não estou acostumado com isso.

— Eu também não.

— Você é minha primeira namorada, sabia? — ele admitiu, olhando para as mãos. — Você é famosa, deve estar acostumada com caras muito mais interessantes.

Percebi a insegurança no tom dele e segurei sua mão.

— Não é assim que funciona o mundo real, César. A única pessoa que eu quero por perto agora é você.

Noites FriasOnde histórias criam vida. Descubra agora