a missão

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Ao cruzar o limiar da base, o peso das memórias me atingiu. Ver rostos familiares era como abrir cicatrizes que eu lutei para fechar; afinal, é difícil manter contato quando tudo o que você quer é esquecer que este lugar existe.

Elizabeth e Thiago estavam ali. Eles sempre foram o coração da Ordem para mim. No passado, compartilharam missões, conselhos e silêncios comigo. A última vez que trabalhamos juntos foi naquela escola... mas esse é um assunto que nenhum de nós ousa tocar.

— Bom dia, Liz. Bom dia, Thiago.

Os dois estavam próximos, conversando baixo, e deram um leve sobressalto com a minha voz. Logo, porém, recuperaram a postura.

— Bom dia, [Seu Nome]! — Liz sorriu, embora seus olhos buscassem respostas. — Faz tanto tempo que não te vemos.

— Foram meses complicados — respondi, simplificando uma eternidade de caos mental.

— Bom dia, minha querida! — Thiago, sempre o mais caloroso, veio de braços abertos para um abraço. Antes que ele me alcançasse, desviei o caminho com um passo lateral.

— Nem comece, Thiago. Sem abraços hoje.

Eles eram como pais para todos ali, e eu já tinha baixado a guarda para os dois mais do que gostaria de admitir no passado. Mas hoje, eu precisava manter as paredes erguidas.

— Você está aqui para a missão? — Liz perguntou, a dúvida estampada no rosto.

— O Veríssimo me chamou. Ainda não sei os detalhes.

— Então precisa conhecer o resto da equipe — disse Liz, já me guiando pelo corredor.

— Eu odeio isso — resmunguei.

— É essencial, não dá para fugir. Você sabe como as coisas funcionam aqui — rebateu Thiago, com aquele tom de quem conhece cada uma das minhas teimosias.

Caminhando pela base, vi rostos novos misturados aos antigos. Ao chegarmos à porta da sala de comando, três figuras aguardavam. Um homem alto, marcado por tatuagens e uma cicatriz que contava histórias de batalhas passadas; um rapaz mais jovem, de suéter vermelho e uma pulseira do Japão; e o último...

— César?

Ele se virou, confuso, até que a ficha caiu.
— Ah... oi.

— Vocês se conhecem? — Thiago arqueou uma sobrinha.

— Mais ou menos — respondi ao mesmo tempo que César dizia:
— Eu a vi a uma quadra daqui. Conversamos um pouco, só isso.

Liz me analisou com aquele olhar de quem está montando um quebra-cabeça. Antes que o interrogatório continuasse, a porta pesada se abriu.

— Mia? — o nome escapou dos meus lábios antes que eu pudesse conter.

— O Veríssimo está esperando. Podem entrar, por favor — disse ela, mantendo a formalidade, embora seus olhos brilhassem ao me ver.

— Bom te ver, Mia — sussurrei ao passar por ela, permitindo-me um pequeno sorriso que ela retribuiu com uma risadinha discreta.

Lá dentro, o Veríssimo estava sentado à mesa. A pose era dramática, o olhar, impenetrável. Sentei-me ao fundo com Mia, enquanto os outros ocupavam a frente.

— Uma equipe desapareceu durante uma investigação — começou Veríssimo, a voz fria. — Elizabeth dará os detalhes.

A reunião foi longa e densa. Quando todos começaram a sair, senti uma mão firme no meu ombro. Era ele.

— Que bom que decidiu participar desta missão — disse Veríssimo, num tom que beirava o elogio, mas que logo azedou: — Só tente não estragar nada desta vez.

O comentário me atingiu como um soco. Senti o sangue ferver e a raiva assumir o controle.

— Então me chamou só para me insultar? — me virei, encarando-o de frente. — Não importa o que o senhor pensa de mim. Se me chamou, é porque sabe que eu sou a única com o potencial necessário para resolver isso.

— Boa sorte, [Seu Nome] — ele respondeu, com aquele desdém característico.

Saí da sala e dei de cara com Mia, que tentava disfarçar que estava ouvindo atrás da porta. Ela se assustou e deixou vários papéis caírem no chão.

— O que vocês conversaram? — perguntou ela, enquanto eu a ajudava a recolher as folhas.

— Nada importante. O que você ainda faz aqui, Mia?

— Depois que você saiu, o papai finalmente me deixou trabalhar na Ordem. Fico mais na parte burocrática, mas eu queria mesmo era ir para o campo. Parece bem mais emocionante.

— Vai sonhando, Mia. O campo não é o que você imagina.

Terminei de juntar os papéis e me juntei à nova equipe. Elizabeth me olhou e suspirou.

— Brigando com o Veríssimo de novo?

— O normal de sempre — respondi, ajeitando a mochila.

— Bom, precisamos ir — anunciou Thiago.

O homem alto e tatuado se levantou, pegando as chaves.
— Se ninguém aqui sabe dirigir, eu assumo o volante — disse ele.

— Vai por mim, Cris... ninguém quer isso — César murmurou, com um suspiro cansado.

— Na verdade, você pode dirigir sim, Cris — interveio Elizabeth, dando o veredito.

Enquanto caminhávamos em direção à van, me aproximei de César.
— Bom te reencontrar, César.

Ele não respondeu, apenas continuou andando com aquele jeito meio desligado.

— Você conhece o grandalhão? — perguntei, indicando o Cris.

— Ele é meu pai.

— Que relação maravilhosa, hein? — brinquei, mas ele parou e me olhou seriamente.

— Olha quem fala. Eu ouvi você gritando com o Veríssimo e falando com a garota dos papéis. Ele é seu pai também?

— Meu tio — respondi, o peso da palavra "família" soando amargo.

— Bom saber — César deu um meio sorriso.

— Gostei de você, César.

— Ótimo — Cris gritou do banco do motorista, ligando o motor. — Vamos com emoção!

Noites FriasOnde histórias criam vida. Descubra agora