Moedas para os mortos

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O momento de paz no quarto 11 foi breve. Eu me afastei devagar do beijo de César e estendi a mão.

— A arma... — sussurrei.

— O quê? — Ele piscou, ainda um pouco atordoado pelo momento.

— A arma que eu te dei lá embaixo. Me devolve.

— Ah... claro. — Ele tateou o cós da calça e me entregou o revólver. Coloquei-o sobre a cabeceira, um lembrete frio da realidade que nos cercava, e voltei para os braços dele. Parecia um sonho onde nada poderia dar errado, até que o vibrar metálico do meu celular em cima da madeira cortou o clima.

— Atende — César pediu, soltando um suspiro cansado.

Olhei o visor. Era ela.
— Liz... Oi, o que aconteceu?

— Pega o carro. Só desta vez, [Seu Nome]... — A voz dela estava embargada, estranha. — Vem para o Suvaco Seco agora. E traz o César.

Ela desligou antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa. César me encarava, tentando ler minha expressão.
— O que houve? Que cara é essa?

— A Liz mandou a gente ir para o bar. Agora.

— Agora?! — Ele franziu o cenho. — Mas... você sabe dirigir?

— Confia em mim — respondi, já pegando as chaves.

Dirigi pelas ruas escuras de Carpazinha com uma pressa que fazia os pneus cantarem nas curvas. Quando chegamos ao Suvaco Seco, a cena era devastadora. Thiago, Liz, Joui, Arthur e Ivete estavam reunidos perto de um terreno onde a terra havia sido removida recentemente. Vários corpos estavam ali.

— O que está acontecendo? Por que voltamos para cá? — César perguntou, a voz falhando.

— Calma... LIZ! — gritei, correndo até ela.

— Não era você que vivia me pedindo calma? — Liz rebateu, com os olhos vermelhos.

Arthur estava em um canto, abraçado aos próprios joelhos.
— Os Abutres... todos eles — ele soluçava. — Eu vi... eu vi eles morrendo um por um. Eles se foram.

Ficamos em silêncio diante da dor dele. Arthur se levantou com dificuldade, estendendo a mão trêmula.
— Vocês têm uma moeda?

Era um rito antigo, um respeito aos que partiram. Todos tiramos moedas do bolso e as entregamos a ele. Liz fez um sinal com a cabeça, chamando-me para um canto afastado enquanto os outros ajudavam Arthur.

— E aí? — ela começou, cruzando os braços.

— "E aí" o quê, Liz? Era por isso que eu deveria ter vindo com vocês desde o início!

— Eu sei... mas é assim que as coisas são — ela disse, com uma frieza que escondia o próprio sofrimento. — As pessoas morrem e, às vezes, não podemos fazer nada. Não me culpe pela morte deles, e nem pelo que aconteceu no seu passado.

Ela me deu um empurrão leve, um gesto de frustração, mas logo suspirou.
— Desculpa... Essa tinta de cabelo por acaso era minha? — Ela arqueou a sobrinha. — Mas que garota folgada. Pelo menos você aproveitou o tempo com o César.

— Você está louca, Liz.

— Eu vejo o jeito que vocês se olham, não tente me enganar.

— Você precisa de um médico — desviei o olhar, sentindo minhas bochechas queimarem.

— Não me chama de louca, você é tão doida quanto eu.

— Como se eu não soubesse... — murmurei. Olhei para o Thiago, que parecia distante. — Como ele está?

— Indo... — Liz suspirou. — Acho que estamos todos enlouquecendo antes mesmo de resolver essa missão.

— Não podemos desanimar agora.

Liz parou e me encarou de cima a baixo, surpresa.
— Quem é você e o que fez com a minha "filha"? A [Seu Nome] que eu conheço estaria no fundo do poço querendo ir embora agora. Peraí... vocês...

— Eu já disse que não gosto dele! — interrompi, rápida demais. — Vem, vamos voltar, essa conversa já passou dos limites.

— Eu não sou idiota — ela resmungou enquanto voltávamos para o grupo.

Thiago se aproximou com um sorriso cansado.
— Oi, querida.

— Oi, Thiago. Como você está se sentindo?

— Melhor impossível — ele mentiu, e eu soube disso no mesmo instante.

Entramos todos no bar para uma última rodada de silêncio e reflexão. César e eu ficamos um passo atrás dos outros.

— A Liz desconfiou de alguma coisa? — ele sussurrou. — Você contou para ela sobre nós?

— Não. Claro que não.

— Você... quer manter isso em segredo? Por quê?

Parei por um momento, encarando o chão.
— César... você contaria para o seu pai, para o Cris... assim, no meio de todo esse caos?

Ele ficou em silêncio por um longo tempo.
— Não... acho que não.

— Foi o que eu imaginei.

Passamos horas no bar. Ivete servia as bebidas em silêncio. César, Thiago e eu fomos os únicos que não tocamos em álcool. Quando voltamos para o hotel, Thiago estranhou por um segundo o balcão da recepção estar vazio, mas o cansaço era tanto que ele não questionou. Subimos para os quartos.

No quarto 11, o clima estava pesado.
— Tudo bem, César?

— Está... — ele respondeu, mas eu via a mentira em seus olhos.

— Não minta para mim. Além de me teleportar, eu sei ler mentes — brinquei, tentando aliviar a tensão.

— É mentira — ele riu fraco.

— Quer testar? Você está chateado porque eu não quero contar para os "meus pais" sobre nós e acha que vai ter que fingir para sempre. Acertei?

Ele travou. — Você não sabe ler mentes, né?

— Não — ri, aproximando-me dele. — Mas eu te conheço. Eu conto... se isso for te deixar feliz. Vem cá, me dá um abraço.

Abri os braços e ele veio ao meu encontro, escondendo o rosto no meu ombro. No mesmo instante, a Voz na minha cabeça começou a rir.

— Olha só para ele... parece um vira-lata carente. Um cachorrinho indefeso com essa casca de "marrento".

— Sai da minha cabeça — sibilei entre dentes.

— O quê? — César se afastou, confuso.

— Nada... só coisa da minha cabeça — disfarcei, passando a mão pelos cabelos dele. — O que você passa nesse cabelo para ser tão macio?

— Água — ele respondeu, dando um sorrisinho de lado.

— Sério? Que inveja — ri. — César... você quer que eu conte amanhã?

— Por que não agora?

— Porque a Liz está bêbada e o Thiago... bom, o Thiago está exausto.

— É verdade. E o Thiago tem uma cara de mau às vezes... eu tenho um pouco de medo dele — ele confessou.

— Relaxa. Nada vai acontecer... pelo menos comigo — brinquei, puxando-o pela mão. — Vamos lá.

Fomos até o quarto 8. Bati na porta e Thiago abriu, parecendo surpreso por nos ver ali àquela hora.

— Thiago... posso falar com você rapidinho?

— Claro, querida. O que houve? Algum problema no quarto?

Respirei fundo, sentindo a mão de César tremer levemente ao lado da minha. Olhei bem nos olhos do homem que me criou.

— Não é problema nenhum. Só queria te dizer que... eu e o César estamos namorando.

Noites FriasOnde histórias criam vida. Descubra agora