Fantasmas do passado

317 18 14
                                        

O silêncio no corredor do hotel foi quebrado pelo choque na voz de Thiago.

— Espera... O QUÊ?! — Ele arregalou os olhos, alternando o olhar entre mim e o César. — A LIZ SABE DISSO?

— Fala baixo, porra! — sibilei, olhando para a porta do quarto dela.

— A Liz sabe? — ele repetiu, agora num sussurro dramático.

— Não. E do jeito que ela bebeu, agora deve estar dormindo como uma pedra. Da última vez, ela apagou no meio da escada, lembra?

— Responda à minha pergunta, [Seu Nome]!

Respirei fundo, sentindo o peso do olhar dele. — Não... ela ainda não sabe.

Thiago relaxou a postura, e um sorriso quase paternal surgiu em seu rosto. — Sabe, quando o Cris partiu, ele me pediu para cuidar do César como se fosse meu próprio filho. Isso... isso vai ser perfeito.

— Sério? — César perguntou, parecendo tirar um peso das costas.

— Sim, querido. Mas o que a Liz vai achar... bom, aí já é outra história.

— Então... a gente fala com ela de manhã? — sugeri, já sentindo o cansaço bater.

— Quando ela estiver de ressaca? Acho que não é a melhor ideia — César murmurou.

— Vocês que se virem, meus jovens — Thiago riu, dando as costas. — Eu não tenho nada a ver com as broncas da Liz. Vão descansar. Amanhã a gente pensa nisso.

Enquanto caminhávamos para o quarto 11, ouvi Thiago sussurrar algo para o César, um aviso que me fez sorrir de canto:
— Cuida bem dela... os surtos dessa menina são lendários.

O Peso da Noite

Já no quarto, César parecia exausto. — A Liz me dá um medo genuíno.

— Vamos só fingir que contamos, ela concordou e está tudo bem — brinquei, mas meu tom era incerto.

— Ela não é tão burra, [Seu Nome].

— Eu sei... Por que isso tem que ser tão difícil?

— Não sei — César bocejou, sentando-se na beira da cama. — Talvez o medo de decepcionar eles de novo.

— Ofensivo, mas faz sentido — respondi.

César deitou-se e, em poucos minutos, o som da sua respiração tranquila indicava que ele havia apagado. Eu, porém, continuei encarando o teto. E então, o frio subiu pela minha espinha.

— Para de mentir para si mesma — a Voz ecoou, cortante. — Ridículo. Sinceramente.

— Você não cala a boca nunca? — respondi em pensamento.

— Talvez quando você parar de fugir. Eu te conheço.

— Eu te matei, Ágatha. Por que você ainda está aqui?

— ...

— Fala sério, eu amava você — senti um nó na garganta. — Não precisava ter terminado daquele jeito.

— Eu só queria ser como aqueles garotos legais... parar de sofrer bullying. Parar de sofrer o SEU bullying.

— Ágatha...

— Eu só queria que você me amasse.

— Eu amava!

— Desculpa... a culpa não foi minha. Desculpa. Desculpa. DESCULPA!

— ÁGATHA, CALA A BOCA! — gritei, sentando-me na cama de uma vez.

Suor frio escorria pelo meu rosto. Eram sete da manhã. Olhei para o lado; César já tinha levantado. O quarto estava vazio. A sensação de que eu estava enlouquecendo era quase física. A culpa pela morte de Ágatha, o peso do Ocultismo, as profecias do livro... parecia que eu era a próxima peça a cair. Eu era idêntica ao meu pai, e isso me apavorava.

O Confronto com a Realidade

Desci as escadas e, ao passar pelo saguão, ainda conseguia ver as manchas de sangue onde o recepcionista caíra. Provavelmente era só minha mente projetando o trauma, mas o cheiro de ferro parecia real.

— Está tudo bem com você? — A voz de César me trouxe de volta.

Ele estava encostado na parede, observando-me com preocupação.

— Está... — respondi, tentando recompor minha máscara de indiferença.

— Vem. O Thiago e a Liz estão lá fora comendo alguma coisa.

Olhei para ele por um momento. O sol da manhã batia em seu rosto, suavizando suas feições. — Você está lindo, César.

Saí andando antes que ele pudesse ver meu sorriso, deixando-o para trás, visivelmente corado. Encontrei os dois em uma mesa de calçada.

— Liz... — chamei.

— ... — Ela apenas me encarou, segurando uma xícara de café como se fosse sua única âncora no mundo.

— Está tudo bem?

— Sim... tirando a britadeira dentro da minha cabeça.

César chegou logo atrás, ainda meio sem jeito. Liz nos olhou com um semblante sério, quase psicopático.

— Novidades? — ela perguntou, a voz gélida.

— Sim... na verdade, sim. Eu estou namorando.

O silêncio foi mortal. Liz fechou a cara imediatamente. — O quê? Com quem?

— Com o César — respondi, sustentando o olhar.

— Liz... está tudo bem? — Thiago interveio, tentando conter o riso.

— Você sabia disso, Thiago? — ela disparou.

— Talvez...

— [Seu Nome], vamos conversar. A SÓS!

Ela me puxou para longe da mesa. Eu me preparei para o pior, para os gritos, para a desaprovação. Mas, assim que ficamos sozinhas, a expressão dela mudou completamente. Um sorriso largo e vitorioso surgiu em seu rosto.

— EU SABIA! — ela quase gritou, animada. — Fala sério, vocês dois não sabem esconder nada! Que incrível!

— Eu sei que parece... espera, o quê? Você está sorrindo?

— Por que eu não estaria? Pelo menos agora você ocupa essa sua cabeça oca com outra coisa que não seja tragédia. Isso é ótimo. Você finalmente conseguiu superar a...

— Cala a boca, Liz — cortei, sentindo a sombra de Ágatha passar pela minha mente.

— Tudo bem, tudo bem. Vamos voltar.

Ela recompôs a cara de brava em um segundo, apenas para manter as aparências. Voltamos para a mesa onde Thiago e Joui nos esperavam.

— Bom — Thiago levantou-se. — Liz, Joui e eu vamos buscar o Arthur. Temos que terminar de organizar as coisas.

— Sim, Thiago-sensei! — Joui exclamou, sempre pronto.

— Cala a boca, garoto — Liz resmungou, entrando na van, mas com um brilho diferente no olhar.

Ficamos eu e César na calçada, observando a van se afastar em direção ao Suvaco Seco.

— Está tudo bem? — ele perguntou, aproximando-se.

— Sim. Ela aceitou bem... do jeito maluco dela. Só faz aquela pose de chefona para ninguém folgar.

César sorriu, genuinamente feliz. Eu tentei retribuir, mas o sonho da noite anterior ainda ecoava. Ágatha, o sangue, as desculpas. Teria sido apenas um sonho? Ou a minha mente estava finalmente começando a quebrar sob o peso do Outro Lado?

Noites FriasOnde histórias criam vida. Descubra agora