"Dias de chuva, tão triste, tão bom
No espelho, um recado de batom de uva..."
Mão e Luva - Adriana Calcanhotto
***
_ Jeju, julho de 2019 _
A manhã começou preguiçosa para Namjoon. A despeito de estar numa cidade litorânea e de seu quarto de hotel ficar bem de frente para a praia, o sol não brilhava intenso do lado de fora e não havia calor. Era mais pelo contrário; a maresia trazia consigo certo frescor e uma boa dose de umidade, que batiam na vidraça e formavam desenhos engraçados conforme o líquido impregnado ia escorrendo pelo obstáculo transparente.
Debaixo das cobertas o romancista, no alto de seus trinta e nove anos de idade, nada mais queria a não ser poder se cobrir e dormir um pouco além do costumeiro. Não que tivesse dormido pouco ou mal durante a noite — a bem da verdade, tinha dormido por incríveis oito horas seguidas, de acordo com o horário que podia ver no grande relógio de parede à frente da cama —, mas conforme o tempo ia passando, seu corpo ia ficando mais e mais manhoso. Cada hora a mais de sono parecia algo necessário e indispensável, dia após dia, e se permitisse, não faria outra atividade a não ser esta. Quem colocava ordem ali era sua mente, consciente de que tudo estava bem, e nem uma hora a mais nos braços de Orfeu se mostrava como necessidade.
Assim, abriu bem os olhos, fixando a visão do lado de fora, entre a fresta das cortinas, que ele propositalmente posicionou para que a claridade do dia lhe batesse na face. Queria despertar, ficar disposto para quando chegasse o momento de cumprir com seus compromissos na ilha, no entanto, não pretendia apressar as coisas para tal intento. Por isso, ainda deitado, fixou os olhos naquele cantinho descoberto que lhe permitia levar a visão para o horizonte, onde podia divisar o céu levemente encoberto e os pássaros voando em círculos.
Vinte anos tinham se passado desde a última — e única — vez em que esteve na ilha. Era tanto tempo que já não se recordava do quão bonito era aquele lugar, e de certa maneira a constatação lhe chocava. Como alguém era capaz de esquecer tamanha beleza? Não era chegado a praias e afins, nunca tinha sido, mas não podia ficar imune ao toque daquela natureza singela e perfeitamente desenhada. Que explicação podia oferecer para um lapso dessa monta?
A verdade era que Namjoon sabia muito bem os motivos pelos quais Jeju e sua figura lhe surpreendiam como se fosse a primeira vez. As lembranças da ilha eram um misto de sensações e de tudo o que tinha vivenciado ali. Os encantos naturais daquele pedaço de mundo certamente não ficariam em primeiro lugar. Existiam lembranças bem mais impactantes e importantes para se levar em conta em relação ao pequeno paraíso no qual se encontrava outra vez.
O celular tocou, e acabou revirando os olhos ao sentir a vibração no colchão. Tinha ideia de quem era, e se estivesse correto, o processo de lento despertar findaria naquele momento. Passou a mão pelo lençol, sob a grande coberta que o mantinha aquecido, tateando até encontrar o aparelho. Olhou de relance para a tela, arfando ao confirmar suas suspeitas.
— Bom dia, Yoonji — disse sem muita animação, se virando na cama para ir em busca dos óculos sobre o criado-mudo.
— Bom dia, Joon oppa. — A mulher do outro lado da linha cumprimentou de volta. — Estou ligando para me certificar de que já está devidamente acordado e pronto para seus compromissos hoje.
— Hum... — suspirou baixo, ajeitando os óculos no rosto e se espreguiçando em seguida. — Acordado, sim, mas pronto...
— E a surpresa, onde está? Cada ano que passa parece mais e mais lento — riu. — Não está atrasado, oppa, mas se não começar a se arrumar agora, vai ficar.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Era verão, o ano era 1999
FanfictionHá vinte anos Namjoon viria a conhecer alguém que, muito embora tenha convivido por pouco tempo, acabou por lhe marcar de forma significativa. De volta a Jeju, ele acaba reencontrando essa pessoa e... O que exatamente poderia ser feito agora? Capa p...
