"Quando escutava o barulho dos sapatos sendo tirados e da luz se acendendo, abria a porta com cuidado e partia para o quarto ao lado, zelar o sono da irmã. Já sabia o que estava por vir, como todas as noites que ele chegava horas depois que seu trabalho era concluído.
As ruas de L.A estavam mais frias do que o comum, pelo horário, desertas, mas ainda era possível ouvir os carros se movimentando e buzinando pelo asfalto feito recentemente.
As meias coloridas aqueciam seus pés pelo piso congelado, e suas mãos abrigavam seu caderno e seu mais novo mp3. Ao chegar na porta amarronzada entrava com cuidado para não a acordar, já ouvindo as vozes se exaltarem.
Via a caçula se mexer na cama e se aproximava pronto para colocar os fones em seu ouvido, soltando a melhor playlist que teria para a faze-la relaxar.
Assim que ela ficava longe de ouvir as palavras acidas que os pais gritavam, respirava fundo ligando o abajur e começando a escrever no mais novo caderno que ganhou de sua avó paterna.
Permanecia sentado no pufe até as vozes cessarem e a porta de entrada ser batida com força. O silêncio reinava até escutar o choro sofrido de sua mãe, que naquele momento, deveria estar de joelhos sobre o chão largando todas as suas frustrações.
Como todas as noites.
Na manhã que seguia, ela estava lá sorrindo para sua irmã, mesmo que não tivesse a mesma capacidade de fazer o mesmo por si. Dava para ver a dor por trás das esmeraldas esbranquiçadas, e doía em si ver a matriarca tão tristonha.
Quando a caçula partia para sua escola, ficava os dois ali se encarando, ele esperando que ela desabafasse, e ela se segurando para não mostrar fraqueza para o adolescente.
Então, para escapar do olhar interrogatório do filho, viajava por sua estante favorita, e pegava o livro que tanto amava. Sentava com o menino no sofá, os fazia chocolate quente, e com todo seu coração, lia pelo resto da tarde.
O garoto de cabelos loiros odiava ler. Para ele, não havia sentido em perder horas do dia com a cara em um pedaço de papel, mas sua mãe amava. Ela passava tardes e noites lendo para se afastar das frustrações, para escapar de sua vida tão desastrosa.
Ele sabia como o relacionamento de seus pais estava desgastado, e parecia que nas últimas semanas havia piorado. O homem saia pela manhã, e voltava a noite, a deixando sozinha por horas.
Com ambos os filhos fora de casa, a mulher permanecia sem ninguém na grande casa, bebendo chocolate quente e lendo todos os livros de sua estante.
Permanecia ouvindo a história por ela. Sabia como era importante a leitura para a saúde de sua mãe, e faria de tudo para vê-la sorrir como quando lia certas frases daquele velho livro.
Porém, um dia, as coisas foram diferentes, pois, naquele dia, ele não voltou.
Pegou um atestado médico falso e passou todas as tardes lendo para sua mãe, a vendo sorrir em agradecimento. Não sabia o que teria acontecido, e não queria saber, só queria ajudar a mulher como ela o ajudou toda a sua vida.
Ele sabia que ela nunca faria nada para o machucar.
Então imagine qual foi o sentimento ao acordar naquela maca hospitalar, vendo as tulipas ao lado de sua cama e o cheiro de hospital por todo seu corpo.
Nada se comparava a dor que sentia no momento, nada se comparava as facadas que levava cada vez que sentia as cicatrizes arderem e os olhos se encherem de lágrimas.
Naquela noite levou seu primeiro cigarro a boca."
[...]
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= • || Sugar Crash
FanfictionSeu pai anunciou seu casamento no final de Novembro, e suas lágrimas na grande e ampla sala branca ao ouvir a notícia sobre sua mãe acabaram com si. Sua vida não tão perfeita chegou ao fim em L.A... Os meses passam e as coisas mudam, e agora, ele te...
