Programas de entrevistas me incomodam sobremaneira, porque agora eles resolveram ser inclusivos.
Parece existir uma "cota pra pretos" em programas de entrevistas. Não que ela nunca tivesse existido. Mas nos anos 90, ou em tempos mais remotos, pretos só eram interessantes na cadeira do entrevistado se viessem com um pandeiro na mão, ou se fossem a nova estrela do nosso time do coração. Quando o assunto era sério — política, ciência, economia ou qualquer outra coisa que fosse assunto no noticiário e tivesse o poder de interferir no PIB —, então retomávamos o status quo.
O século 21 veio prometendo novos ares, mas me parece apenas racismo velho em roupas novas. Hoje, só vejo negros em programas de entrevistas quando o assunto é a "lamúria de ser negro". Todo negro é ativista. Todo negro é antirracista (sério que precisamos afirmar isso em um programa de entrevistas?). Todo negro está numa luta eterna contra quem não é negro. Parece uma nova versão da Maria do Bairro, onde todos nos sentamos no sofá, com um balde de pipoca no colo, e vemos o pobre preto sofredor chorar porque não consegue por comida no prato, apenas por entretenimento.
Repare: se um preto, nesses programas, fala sobre economia, é "economia para pretos"; se fala sobre tecnologia, "tecnologia para pretos"; se fala sobre política, direito, filosofia, religião, idem. Ora, não sabia que existia uma "ciência política negra", ou uma "placa mãe negra", da qual só cientistas da computação pretos podem comentar sobre. Ciência é ciência. Política é política. Mas aos negros, está reservado o cantinho para falar apenas ao seu subgrupo. Quando precisamos falar sobre tecnologia, política, ou qualquer outra coisa para o público em geral... Bem, você já sabe o que acontece. É como se nenhum preto fosse competente o suficiente para ser autoridade em qualquer assunto.
No fim, parece ser apenas mais uma estratégia nojenta de marketing. Em algum porão de alguma empresa de mídia do país, em algum brainstorming em plena sexta feira, às 21 horas, regado a Coca Cola quente, pizza ruim e promessa de um plano de carreira, alguém deve ter sugerido colocar um avatar negro no próximo programa, apenas pra gerar uma sensação de proximidade. Afinal, o povo quer se ver na TV, não é mesmo. "Isso vende"!
Parabéns! Boa estratégia para sacanear a "reunião sobre como ser mais inclusivo", tão prioritária que foi deixada para os 48 do segundo tempo. Pelo menos, conseguimos ganhar, em importância, da cervejada pós-expediente. (Já posso me orgulhar?).
E não vá achando que esse é um "Black people problem". Troque, no parágrafo acima, o termo "preto" por "gay" ou "mulher" e veja que este é um padrão que se reproduz. Ou pior: troque o termo "preto" por "evangélico" e veja que nem isso temos. Afinal, como todos sabemos, "todo evangélico é um louco, negacionista, incauto, bolsonarista", não é verdade? Se eu começasse qualquer frase aqui com os dizeres "todo gay é...", ou "todo preto é...", eu seria (com toda a justiça) preso e cancelado em menos de 24 horas. Mas aos crentes, nem mesmo essa migalha resta.
Enfim, o brasileiro mira na inclusão e acerta na hipocrisia. Pelo menos, nos anos 90 tinha pagode e futebol de qualidade. Hoje, nem isso.
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Crônicas de um escritor extremamente rabugento
Short StoryPra escrever, tem que pensar Quando mais eu penso, mais eu entendo Quanto mais eu entendo, mais mal-humorado fico. Ou é só arrogância e rabugice, mesmo? (2021)
