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Terminei mais um dia no escritório, hoje finalmente me declarei para a senhorita Carla, porém ela rejeitou minhas flores e meus sentimentos, assim como a senhorita Mercedes, a dona Dolores, a doce e elegante Catarina e... Enfim, está tarde e frio, talvez mais frio do que o normal, mas deve ser porque a estação está vazia.
Quinze para meia noite, mais tarde do que eu pensava, não deveria ter ficado até tão tarde, mas o que eu podia fazer? Precisava fazer hora extra e minhas passagens não se pagam sozinhas.
Está ventando muito, sinto o vento gelado no meu rosto, aposto que sentiria nos braços também se não fosse pelo meu sobretudo, e ouço os grilos e outros insetos cantando onde as luzes da estação não conseguem chegar. O céu está limpo, mas não me surpreenderia se chovesse em algum momento.
Quinze longos minutos depois, o metrô chegou, mas não estou muito preocupado com o tempo, minha bagagem pode esperar, eu garanti isso.
Entrei no vagão e sentei-me em uma das cadeiras, o lugar estava quase vazio e minhas únicas companhias eram duas mulheres sentadas no outro vagão, elas pareciam estranhas, com suas cabeças baixas, mas eu deveria estar apenas cansado, então as esqueci e comecei a observar pela janela. Em algum momento adormeci e acordei com o som de alguém me chamado.
Não havia ninguém, e ainda bem, como pude ser tão descuidado desse jeito? Não há ninguém aqui, mas aprendi da pior maneira que sempre pode haver um curioso, perdi um belo e caro par de sapatos nesse dia. Olhei pela janela e estava nublado, algumas casas e prédios que nunca vi antes no meu trajeto para casa. Provavelmente passei do meu ponto e sem saber que horas são, já que meu relógio resolveu parar. "Deve ter sido a bateria" - pensei, afinal era um relógio resistente e a prova d'água, a tela do metrô também estava apagada, ouvi dizer que isso acontece em altas horas. Lembrei- me das duas moças no outro vagão, e como ainda estavam lá, resolvi pedir informação.
—Boa noite senhoritas - me aproximei educadamente, porém elas ficaram em silencio e com as cabeças baixas - desculpe incomoda-las, mas...
Percebi uma pulseira colorida no braço de uma delas, estranhamente ela me era familiar.
—Ah... Será que podem me dizer para qual estação estamos indo?
A outra mulher, levantou o rosto de leve e sussurrou algo que não consegui entender.
—Sua última parada! - as duas gritaram em uníssono e olharam pra mim com seus olhos brancos e seus rostos pálidos, que me fizeram cair no chão de pavor.
—Não... Não podem ser...
As duas mulheres levantaram e vieram em minha direção, enquanto eu apenas tentava me afastar e me convencer de que não eram elas, não tinha como ser.
Pensei em dizer algo, mas as luzes começaram a piscar, os rostos pálidos das duas ficaram sujos de terra, assim como suas roupas, marcas e ferimentos apareceram pelos seus corpos, uma delas até mancava... eu a fiz mancar.
—Me... Me deixem em paz! - gritei alto.
—Isso não funcionou pra nenhuma de nós - a garota da pulseira, que parou de mancar, apontou para o corredor, de onde escutei o barulho familiar dos sapatos vermelhos.
—Não... Não pode ser - pensei estar sendo enganado por meus próprios olhos.
Tentei levantar, mas estava apavorado, foi quando a vi...
—Catarina?...
Aterrorizado, levantei para tentar fugir, mas encontrei mais delas impedindo minha fuga, me vi cercado por todos os lados, até mesmo algo segurou meu pé, quando olhei, percebi o braço saindo da minha mala e tudo que pude fazer foi gritar.
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—Bom dia caros telespectadores, hoje de manhã um homem foi encontrado morto no metrô do centro da cidade, ele é suspeito do assassinato de Carla... *TV desligada*
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Curtas-viagens
Storie breviNeste livro, apresento-lhe várias histórias em capítulos próprios e únicos, podendo ser sobre qualquer assunto ou realidade.