capítulo 1 - Um shopping e um oceano

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mesmo depois de tantos anos, felix ainda não era rápido o suficiente para respirar entre uma braçada e outra enquanto nadava o mais rápido que podia. aquela era a modalidade que mais odiava entre todas e preferia mil vezes submergir e prender a respiração a ter que se forçar a respirar entre intervalos tão diminutos.

aquela era a primeira vez que nadava na piscina da faculdade. a contragosto, felix apresentou-se ao time de natação porque a tradição de família ditava a sua natureza íntima com a água. desde os oito anos felix empregava toda sua energia nessa atividade, e parecia que fugir dela era impossível.

felix não era tão bom assim, mesmo que tivesse ganho cinco medalhas de prata e três de bronze na infância e adolescência. isso até poderia ser algo para a cidadezinha em que viveu, mas numa faculdade pública da capital...? era muito mais possível que houvesse uma centena de medalhas de ouro afim de competir.

para não fazer vergonha, felix ao menos deu o seu melhor nos testes, e – para sua surpresa, – o técnico se agradou com seu desempenho e o elogiou abertamente assim que felix terminou sua rotina de demonstração. aliviado com a aprovação, o calouro se curvou enquanto agradecia pelas palavras gentis do professor e pelo convite para participar do time da faculdade.

tudo teria acabado bem, não fosse apenas um detalhe – uma vírgula crucial naquele dia que por pouco não acabou bem.

ao passo que se dirigia ao vestiário, felix passou por christopher bang, um veterano que sabia ser o maior exemplo da natação naquela faculdade. ele não era tão mais alto do que felix, mas era definitivamente grande e definido, diferente de felix, que era magricela e pequeno. christopher era só sorrisos em boa parte do tempo, com seus olhos fechados e com uma covinha adorável em uma das bochechas – ele definitivamente parecia alguém caloroso e confortável de se estar por perto.

naquele momento, christopher estava sozinho, os cabelos úmidos soltos e com uma toalha ao redor do pescoço. felix pensou em cumprimentá-lo, mas antes mesmo que algum som saísse de sua boca, o garoto mais velho riu de canto, debochado, e disse bem baixinho, apenas para felix ouvir: "bem-vindo ao time, peso-morto."

x

desde que era criança, felix tinha um buraco no lugar do coração. sabia que não havia nascido assim, mas desde a sua primeira memória, tudo o que ele sentia no peito era a falta de algo. com o passar dos anos, felix aprendeu a abraçar o espaço vazio, enfeitando-o com flores e aprendendo a ouvir seus ecos. o trabalho de, de tempos em tempos, ter que regar e trocar essas flores definitivamente pesava-lhe um pouco, ainda mais quando pensava que a única pessoa que iria admirar seus esforços era ele mesmo, mas felix o fazia de todo jeito, porque tinha certeza de que era o que sua mãe iria querer dele.

quando disse para o seu pai que iria cursar letras, a reação que recebeu definitivamente não foi das melhores, contudo tinha orgulho de dizer que essa batalha ele havia vencido contra seu velho. por isso, mesmo que a natação fosse um fardo que deveria carregar, aliviava-se todos os dias quando acordava ao olhar para a pilha de livros na sua mesa e encontrar os nomes de alguns de seus autores favoritos.

dentre todas as aulas de que dispunha no seu primeiro semestre, a sua favorita era um curso optativo sobre escrita criativa. não se achava um grande escritor, mas encontrava paz ao colocar em palavras muitas das dúvidas e dos sentimentos que tinha dentro de si.

a professora, olivia, era uma mulher de prováveis quarenta-quase-cinquenta anos, que se vestia com roupas coloridas bem chamativas, usava óculos para corrigir a hipermetropia (o que fazia seus olhos dobrarem de tamanho) e dava aula, às vezes, fumando dentro da sala. todos diziam que ela era muito rigorosa com a correção, mas suas aulas eram completas e dinâmicas – felix sempre saía de lá com a cabeça cheia de ideias, mas com uma sensação de leveza, parecida com a que tinha quando escrevia algo de que realmente se orgulhava, ou de quando tinha discussões sobre assuntos que lhe interessavam.

Eu tenho feridasOnde histórias criam vida. Descubra agora