Em 1917, Juan Pablo Radamés embarcava em um navio rumo ao Rio de Janeiro em busca de uma nova vida. Eram tempos difíceis para a Europa, pois a mesma ainda respirava os ares pesados da primeira guerra mundial e se encontrava no início de uma das piores pandemias já presenciada pela humanidade, a Gripe Espanhola.
Depois de perder seu pai durante a guerra, Juan Pablo viu sua mãe e irmã serem levadas pela doença, deixando-o sozinho no mundo. Até que certo dia, um amigo italiano mencionou que muitos de seu país estavam melhorando de vida no Brasil e que o país sul-americano era a promessa para uma vida de realizações, o que deixou o rapaz muito animado.
Com o pouco que lhe havia sido deixado de herança, Juan Pablo arrecadou o dinheiro suficiente para comprar uma passagem para o destino desejado. Aos 20 de agosto de 1918 ele se despedia da Espanha e rumava para uma nova vida, porém a bordo, ele não tinha como conseguir comida, levando-o a trabalhar como faxineiro no convés.
Juan era um rapaz de boa aparência, alto e porte físico saudável, com apenas 19 anos ele já tinha que tomar decisões complexas em sua vida e vir para o Brasil era uma delas. Foram quase três longas semanas de viagem pelo mar, mas, mesmo diante da falta de comida, o jovem não se arrependia do que fez.
Já em alto mar, da proa ele observou o pôr do sol no horizonte e sentiu como se todo o seu sofrimento estivesse sendo deixado para trás. A morte de seus pais, sua mãe e irmã sendo incineradas em meio a vários outros cadáveres vítimas da mesma praga. Humilhado por alguns homens que não gostavam de sua aparência, certa vez ele foi agredido e teve o lábio superior cortado por conta de um soco desferido por
um imigrante alemão que disse não ter ido com a sua cara.***
Tendo passadas as três benditas semanas de viagem, Juan Pablo deu graças por ter saído daquele navio. Na primeira classe todos viajavam confortavelmente, mas na terceira classe, essa sim era um verdadeiro inferno para quem estivesse a bordo. O jovem desembarcou no Rio de Janeiro, era uma linda cidade repleta de praias e muita gente bonita, ele observou que haviam diversos estrangeiros ali, inclusive compatriotas, o que poderia facilitar as coisas para ele. Mas não foi bem assim que aconteceu.
Por diversos dias, Juan teve de morar na rua e chegou a passar fome. Até que um dia, uma senhora já muito surrada pela idade ia passando, quando a mesma tropeçou e caiu. Isso fez com que a bolsa que carregava também caísse espalhando seu dinheiro pelo chão. Ao ver quela cena, Juan Pablo correu em seu socorro, mas um meliante acabou alcançando a senhora antes dele.
Quando a senhora tentou se levantar, o meliante a empurrou fazendo com que a pobre mulher voltasse a cair, o que deixou Juan furioso, pois lembrou-se de sua mãe. Então ele correu atrás do suspeito conseguindo intercepta-lo e recuperar o dinheiro.
— Aqui está seu dinheiro, abuela (avó). – falou misturando o português no espanhol.
Ao olhar para aquele rapaz muito bonito, porém com o rosto sujo, que de tanto passar por privações, já nem se importava mais em se lavar. A mulher abriu um sorriso sereno para o moço.
— Eu também sou espanhola. Você veio de Espanha, meu filho? – perguntou num português claro, mas Juan entendeu.
Ele respondeu que sim, mas que as coisas não haviam saído conforme ele planejou. A mulher perguntou se o jovem estava com fome e ele respondeu que não comia nada haviam dois dias, a senhora então o levou até sua casa, mas ao chegar ali, Juan viu que se tratava de uma pousada, modesta, mas muito arrumada.
Ela chamou uma moça que trabalhava ali com ela e a mesma veio ao seu encontro. A mulher se apresentou a Juan como Mecedez Muñoz e a moça lhe foi apresentada por Maria Catarina Petrova. Mercedez pediu que a moça providenciasse um prato de comida para o rapaz, ela, porém, ao olhar para Juan, sentiu seu coração palpitar e imediatamente foi providenciar o que sua patroa lhe havia pedido, mas antes abriu um singelo sorriso para o moço. Pouco tempo depois a jovem retornou com a comida.
Enquanto o rapaz comia, Mercedez lhe perguntou o que o fez partir da Espanha sendo ainda tão jovem e sozinho, Juan respondeu que sua família inteira havia morrido, seu pai na guerra e sua mãe e irmã por causa da Gripe Espanhola. Tanto a mulher mais velha quanto Maria Catarina, ficaram de coração partido com o relato de Juan.
A dona da pousada então perguntou se este não gostaria de ajudá-la na pousada, já que Maria sozinha não dava conta, ele logo aceitou. Mercedez deixou claro que não poderia pagar muito, mas pelo menos ele teria onde comer e dormir, além de ganhar um dinheiro para juntar, ou,
comparar roupas e sapatos novos.***
Um ano se passou e Juan Pablo se estabilizou naquela pousada. Ele ajudou a melhorar muitas coisas das quais Mercedez não podia fazer por custar caro, porém, o jovem fez questão de fazer tudo sem cobrar um só centavo, segundo ele, a gratidão pelo que a senhora havia feito por não tinha como o mesmo pagar, nem que vivesse cem anos.
Durante esse período, Maria Catarina confessou seus sentimentos por Juan. Filha de um casal russo, ela era uma jovem prendada e dona de um senso de responsabilidade incomum, isso fez com que o rapaz também aprendesse a amá-la e em um ano os dois já estavam de casamento marcado.
Mas o destino seguia sendo cruel com Juan, ele acabou descobrindo que Mercedez se encontrava gravemente doente, era um câncer e estava muito avançado e como a medicina da época pouco sabia a respeito dessa terrível doença, a velha mulher estava condenada. Porém, antes de falecer, Mercedez ainda viu o casamento entre Juan e Maria e, como presente de casamento aos dois, ele decidiu deixar lhes a pousada como herança.
Mercedez não possuía parentes e também não teve filhos, tudo o que ela tinha era um sobrinho que fora convocado para a guerra e lá morreu antes que pudesse vir para junto dela no Brasil. Coincidentemente ele se parecia muito com Juan Pablo, o que a fez sorrir quando viu o jovem pela primeira vez. Poucos dias depois do casamento, Mercedez faleceu, deixando os dois profundamente tristes, eles agora tinham a missão de levar a pousada a diante. Maria ainda deu a ideia para que Juan a vendesse, mas ele se recusou dizendo que aquela não era a vontade de Mercedez
e quem em memória dela, ele transformaria aquela simples pousada numa grande rede de hotéis.***
Vinte anos se passaram. Maria e Juan Pablo tiveram três filhos homens, porém dois acabaram morrendo de sarampo e varíola. Mas, o mais novo, Enrico Radamés, sobreviveu. A pousada cresceu, conforme a promessa de Juan, ela foi transformada em um organizado hotel no Leblon, além das outras três pousadas Radamés em Petrópolis e Niterói. Juan havia se tornado um homem bem sucedido.
***
Depois de outros cinco anos, Enrico se casou com uma jovem italiana chamada Constanza Di Carmelo e em 1941 eles tiveram seu único filho, Paolo. Nome dado em homenagem ao pai de Juan Pablo. Mesmo diante dos acontecimentos da Segunda Guerra mundial, os negócios da família Radamés só cresciam e depois da Guerra, com a falta de recursos na Europa, eles conseguiram adquirir diversos imóveis por lá e transformá-los em hotéis. Já na década de 1960, os Radamés já podiam se considerarem ricos, com diversos hotéis espalhados pela América e Europa. Milão. Roma, Madrid, Nova York, além da sede que ficava no Leblon onde situava a antiga pousada de Mercedez. E foi justamente em 1960 que nasceu Adriano Radamés e dois anos depois foi a vez de seu irmão mais novo, Marcondes, vir ao mundo.
Paolo se sentia orgulhoso por se pai de dois lindos meninos. Mas um câncer acabou levando Juan Pablo aos seus 70 anos, exatamente em abril de 1970 e poucos meses depois foi a vez de Maria Catarina por não suportar a perda do marido. Ela era apenas dois anos mais nova do que ele.
E seguiu assim a vida de Paolo, que cada vez mais aumentava o patrimônio da família e o seu legado estava garantido com seus dois filhos. Mas o que Paolo não sabia era que um destino terrível já estava se desenrolando ao redor de seus filhos e que ele ainda presenciaria grandes e dolorosos eventos se desencadearem.
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Uma Mulher de Coragem - Degustação
RomanceAviso! Este livro contém cenas explícitas e linguagem chula. Catarina Radamés teve sua infância marcada por uma terrível tragédia, quando seus pais e seu irmão, morreram em um trágico acidente de avião, no qual apenas ela sobreviveu. Dezessete anos...