Matando a saudade

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A tarde estava lindíssima na cidade. Catarina pediu a Celso, seu chofer, para que desse uma volta de carro pela cidade. Ela queria muito ver com tudo estava. O rapaz aconselhou a não irem muito longe, já que a cidade estava um tanto perigosa nos últimos anos. Ela aceitou e pediu que fossem na avenida Beira-mar para que pudesse ver a Orla.

Da janela do carro, sentada no banco de trás de seu confortável carro de luxo, a morena ficou encantada ao ver a aquela praia maravilhosa e sentiu vontade de descer e pôr os pés na água, mas viu que tinha muita coisa para fazer em sua casa e ainda tinha as preparações para a reunião do conselho de acionistas que aconteceria no dia seguinte.

Isso se o seu tio Adriano conseguisse fazer com que todos estivessem lá. Ela via os banhistas se divertindo e sorriu lembrando-se de quando era pequena e ia à praia com seus pais e seu irmão. A saudade começou a mostrar sua força e lágrimas desceram por sua face, involuntariamente.

— Já podemos ir, Celso. Para mim já é o bastante. – pediu, limpando as lágrimas com as mãos.

O chofer olhou para sua patroa através do retrovisor e confirmou.

— Como quiser, madame!

Minutos depois eles estavam em casa e Catarina subiu direto para o seu quarto. Ela somente avisou a Cíntia, a moça que estava ali para cuidar da limpeza, que a chamasse apenas se fosse algo importante. A mulher assentiu e a morena subiu para o quarto. Chegando lá ela trocou de roupa, vestindo uma camisola na cor salmão, transparente. A calcinha branca combinava com a peça que cobria apenas o colo. Catarina pegou o álbum de fotografia da família, deitou-se sobre a cama e começou a olhar uma por uma. Cada foto era uma doce lembrança. Será que um dia serei feliz e poderei ter outra família? Pensava ela, enquanto acariciava cada foto que via.

Às vezes a saudade consegue doer mais do que o ferimento mais profundo. Ela corrói o peito, deixando um buraco que nunca é fechado, fazendo com que a gente sempre sinta que algo faltando. Assim era o que se passava com Catarina naquela tarde ensolarada de verão. De tanto chorar, ela pegou no sono ali mesmo, abraçado ao álbum de fotografia.

Mas enquanto dormia, novamente o mesmo sonho veio para atormentá-la. Catarina se viu caminhando à beira da praia como sempre gostou de fazer. As pessoas passavam por ela e todos sorriam amistosamente, quando de repente um vórtice na vertical se abriu, sugando todas as pessoas ao seu redor, para dentro dele. Do vórtice saía uma voz cavernosa que dizia palavras amedrontadores para a morena.

"Catarina, você deveria ter ido com a sua família naquele dia. Não era para você estar aqui. Agora eu vou fazer com que você vá para onde eles!"

Nesse momento Catarina se viu sendo puxada na direção do vórtice. Ela caiu na areia e começou a tentar se arrastar para frente, para longe, mas, por mais que se esforçasse, a força da anomalia era maior, então Catarina começou a gritar por socorro. Nesse momento ela viu Rodrigo se aproximar correndo, o rapaz segurou sua mão e começou a gritar seu nome: Catarina, acorde, acorde, Catarina. Você precisa acordar! Catarina... A morena despertou de repente e sua respiração estava ofegante. Ela percebeu que alguém a chamava, mas não era exatamente Rodrigo e sim, Cíntia.

— Entre! — exclamou respirando fundo.

— Com licença, dona Catarina, mas a senhora me disse para que chamar caso fosse importante. – a mulher falou, meio sem jeito.

— Sim, falei. O que foi? – perguntou de forma fria.

— É que tem um moço lá fora dizendo que é o técnico que a senhora pediu. – respondeu.

— Ah sim, o rapaz do computador. Mande-o entrar, por favor e traga-o até aqui. – respondeu levantando-se da cama.

Pouco tempo depois e o rapaz já estava no quarto de Catarina. Ele entrou e para a sua surpresa, a mulher estava exatamente de camisola transparente. O pobre homem ficou parado feito uma estátua, sem conseguir tirar os olhos das curvas da morena.

— O que foi? – perguntou ela. — Nunca viu uma mulher de camisola?

O rapaz engoliu seco e deu uma resposta que fez Catarina sorrir.

— Já sim, mas nunca uma tão bonita!

— Obrigada pelo elogio. Mas agora vamos parar com essa enrolação e instale logo o meu computador. Pode ser naquele lugar ali! – instruiu, apontando para o local desejado. Ao lado da porta do closet. — E por favor, seja rápido. Eu preciso desse computador para hoje ainda.

— Não se preocupe, senhorita, não demoro mais que uma hora para terminar. – disse o técnico.

— Então está bem. Eu vou até a cozinha comer alguma coisa, pois já vi que se eu ficar aqui, o trabalho não rende. – Catarina vestiu um roupão de seda e saiu do quarto, deixando o rapaz ali. O mesmo deu um sorriso de canto de boca e começou o processo de instalação.

***

Rodrigo havia combinado de almoçar com sua Solange naquele mesmo dia. Ele atrasou um pouco por conta de muitas coisas que deveria organizar, mesmo assim, cumpriu com a promessa.

— Pensei que viesse. Demorou tanto. – ela falou, cumprimentando o filho com um beijo nas bochechas.

— Foi tanto trabalho lá no escritório. Estava com medo de ter que te avisar que não poderia vir. Mas enfim, cheguei. — respondeu, se jogando no sofá. — Aliás, a senhora não sabe quem foi que eu encontrei hoje na sede da Radamés.

— Quem?

— Catarina. A senhora acredita? – falou com um largo sorriso no rosto.

— Acredito. Eu falei com ela ontem, por telefone. Preciso fazer uma visita. Mas ela já foi na Radamés? – Solange falou, estranhando. — Pensei que antes fosse descansar, passear... deve ter ido pedir dinheiro.

— Pois eu acredito que não foi só isso. – Rodrigo, levantando-se e chegando mais perto da mãe. — Eu fui na empresa para tratar de assuntos com o Dr. Adriano e ele estava com uma cara nada contente e a Cacá havia acabado de deixar a sala. E por falar nisso, nem na sala presidencial ele me recebeu.

— Estranho. Será que ele não gostou da visita da sobrinha? – comentou com a mão no queixo. — Mas vamos deixar isso pra lá. Estava só esperando você chegar para comermos, estou morrendo de fome.

— Ah, eu também, mãezinha!

***

Quase duas horas depois, o computador estava devidamente instalado. Catarina ironizou dizendo que já não era sem tempo. Mas ela ainda deu uma gorjeta ao rapaz por tê-la elogiado.

— Muito bem, Catarina. Agora o próximo passo. – falou olhando para a interface do computador na sua frente. — Vamos ver como de fato anda a Radamés.

Uma Mulher de Coragem - DegustaçãoOnde histórias criam vida. Descubra agora