Desespero

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Um ano inteiro de tensão fora passado, todo tipo de coisa fora jogada para dentro do cerco, esterco, vísceras, partes do corpo, fogo, pedra, lama, qualquer coisa que possa imaginar.
Alguns morreram de doença, outros preferiram acabar com a própria vida. Pessoas as quais não tem esperança para se agarrar ou confiança na própria capacidade, muito dificilmente conseguem passar por momentos tão ruins, talvez não valha apena para um coitado que sequer consegue enxergar um futuro.
Aldeões escravizados foram usados para fazer comida, pegar água do poço, e todas as tarefas mundanas na qual um rei não seria digno de realizar.

Três anos se passaram e os ataques inimigos diminuem com frequência, fora decidido que não usariam mais água para banho, não havia mais nada para higiene e não podiam desperdiçar recursos.

Cinco anos se passaram e a comida começa a ficar escassa, aldeões escravizados são selecionados para morrer, pois não tinha como alimenta-los.

Sete anos se passaram, a comida e a água são mínimas para sobrevivência, muitos soldados e aldeões morrem, alguns corajosos ou tomados pelos instintos, se alimentam dos restos mortais de seus companheiros. Tudo é reutilizado, tripas, vísceras, cérebro, pele, carne, músculos, tudo é posto em um fúnebre e grotesco sopão, todos os dias.

Nove anos se passaram e menos que uma dezena está vivo, dessa vez apenas determinação e esperança não são o suficiente para continuar vivo, já não existe mais soldado, rei ou aldeão, são apenas animais famintos.
Amids se encontra sentado, ou melhor, jogado no mesmo canto ao qual estava nos primeiros anos de cerco, sua barba ja não existe mais um desenho, parece um amontoado de pelos grisalhos, tal qual seu cabelo. Seu olhar não existe mais convicção, não anseia mais por poder, seu corpo está esquelético e desnutrido, poderia ser facilmente confundido com um cadáver.

Dez agoniantes anos, dez tenebrosos, solitários e enlouquecedores anos se passaram dentro daquele cerco, Amids teve de matar seus amigos e se alimentar de suas carnes para sobreviver.
Ele estava sozinho há muito tempo e sequer pensou em sair, não havia reparado que fazia anos desde que não sofrera por ataques ou insultos inimigos, estava meses sem proferir uma palavra sequer e quando havia mastigado a última carne tostada da perna de seu amigo, ele percebeu que havia acabado toda a comida e saiu em busca por mais, sequer pensou no risco ou percebera que não havia inimigos, ele apenas estava faminto.

Pouco havia mudado nas estradas, flores e árvores cresceram e nada mais, parecia tudo intocado. Ao longe Amids avista o que um dia fora seu reino, uma aguda dor vem em sua cabeça mas nenhum pensamento lógico chegou a toca-lo, Amids apenas pensou em entrar neste local.

O reino estava em anarquia, coisas destruídas para todos os lados, fogos e gritos ecoam por todos os lados e em contraste, Amids parecia calmo, ou melhor, ele parecia não estar com a mente neste local, parecia não perceber a situação, apenas continuou instintivamente seu caminho para seu antigo trono.

A sensação de subir as escadas era como uma memória adormecida, trancada por três portas e três chaves, a sensação de tocar os pés nos tapetes vermelhos era como se lembrasse de quando sua mãe te abraçou, enquanto chorava por ter se machucado na infância, a sensação de tocar nas maçanetas douradas era como se ela secasse suas lágrimas e dissesse que vai ficar tudo bem.

Ao abrir as portas, Amids percebe sua sala, seu palácio, vazio, apenas o tapete e o trono sujos, esfarrapados e gastos, enquanto uma pequena garotinha está catando alguns restos de riqueza. Amids direciona seus olhos para pequena garotinha no escuro, ela saca uma faca de seu vestido.

- PRA TRÁS, É MEU

Amids paralisado apenas observa os frágeis e sujos braços delicados, cheio de pequenas jóias enquanto a garotinha se aproxima com a faca apontada.

- Saia do meu caminho

Enquanto a garota lentamente caminhava, sua aparência começava a ficar visível.
Ela tem uma estatura pequena e frágil, não veste nada nos pés e usa um vestido de cores escuras e levemente azulado, marcados por sujeira e uns pedaços rasgados e ao reperar no seu rosto, uma memória dolorosa atinge sua cabeça. Vidrado, Amids nota os cabelos cabelos escuros e emaranhados da jovem garotinha e sem conseguir pensar, algumas lágrimas descem de seu rosto e ele pronuncia sua primeira palavra após meses

- Aura...

- C-como você sabe o nome da minha mãe?

Amids sem conseguir se comunicar, pergunta

- Q-quem é voce?

A garotinha abaixa a guarda, desamparada

- Charlotte...

Ela responde, deixando o silêncio completar seu nome, em seguida, aponta a faca novamente, recuperando a expressão séria

- E como você conhece esse nome?

- Eu sou Amids

- PAI?!

A garota deixa todos seus pertences cair, sem se importar com a defesa e a riqueza, e corre para abraçar seu pai enquanto lágrimas caem aos montes de seu pequeno rosto

- A mamãe disse que um dia você voltaria, a gente sempre acreditou em você, por onde esteve? Eu estive tão só. É muito difícil viver sozinha, eu não quero nunca mais viver assim.

As chamas da esperança se acende no peito do rei e ele finalmente, expressou um sorriso, se sentiu eufórico, quase como se as chamas ascendesse verdadeiramente seu coração.
O sorriso se torna um rosto posado, um riso forçado que se desmancha, ficando com um rosto sem expressão alguma. Ele sentiu um abraço depois de anos, ele sentiu o amor depois de anos, ele sentiu o toque de uma mulher depois de anos.

- A vida que eu tive, faria qualquer bom homem, virar mau. Por favor, pela primeira vez na minha vida, deixe-me ter o que eu quero. Por favor pelo menos desta vez, me deixe ter o que eu preciso. Por favor... me deixe ter o que eu quero.

O coração de Amids pedia riqueza a qualquer custo, ele não conseguia ver uma filha, era apenas uma mulher, uma mendiga ao qual ele taria disposto a sacrificar ele não se importava onde sua mulher estava, ele apenas queria riquezas e poder, para acabar com essa guerra.
E assim foi feito, a mente de Amids estava mais sã do que nunca o coração não estava abalado, não existia amor e saudades, apenas antigo Amids, pronto para conquista e erguer um novo reino.
Sua sala havia se tornado luxuosa novamente, as cores ganharam vida e o ouro voltou a ser dourado.
Amids aperta mais forte sua filha, ela se engasga procurando ar

- p-pai?

E Amids deseja, com toda convicção, riqueza e felicidade, e assim é feito. A pele de sua filha se torna dourada, dos pés aos cabelos escuros, cada fio se torna ouro. Mas não é um ouro comum, é macio e vivo como uma pele de uma criança, Amids coloca a mão no peitoral da estatua de ouro e percebe que tem uma coração batendo, vivo. Os olhos esbanjam desespero e medo, mais vivos do que a antiga garotinha que aparentava ser sem teto, desta vez era a prosperidade em pessoa.
Amids esbanjou o maior e mais genuíno e aterrorizante sorriso que um homem foi capaz de demonstrar, a dor dele finalmente acabou, o horror cessou-se.

Amids toca no tapeta e a parte tocada se torna ouro, um ouro macio como a seda, um ouro único. Ele nota o poder que foi concebido dos deuses e se sente mais forte que nunca, se sente imortal.

Olhando nos olhos da jovem menininha, Amids não consegue ver uma criança, muito menos uma filha, ele vê apenas como um troféu de suas conquistas.
Ele passa sua lingua do pescoço até a testa da estatua dourada e os olhos da Charlotte parecem arregalar-se de horror.
Ele aperta os pequenos seios da garotinha, enquanto sua respiração fica profunda.
E assim ele continua, colocando sua língua em cada parte do corpo da estatua dourada e macia, testando cada possibilidade, cada sensação, revivendo como é a sensação de ser um homem. Passando noites e noites com a estátua, todo tipo de posição, todo tipo de sensação, chegou a vendar os próprios olhos encenando uma situação com um humano real. A sala inteira, junto da estatua estava nojenta e pegajosa, com um cheiro horrível.

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