Trégua

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Narração

Os olhos do pequenino menino abriam lentamente. Era escuro. Frio. De madrugada. Vestido por seus pijamas predominantes azuis da cor clara, sentia sede. Portanto, levantou devagar afim de não fazer muito barulho para não acordar aquele outro que era pouco mais velho do que si e que dormia profundamente em seu sono. Seus calcanhares não estavam rentes ao chão de madeira, buscava cautela e o medo de acordar qualquer um dos outros moradores gritava constantemente em sua mente.

Caminhou em direção a porta do quarto que costumava dividir com seus outros dois irmãos. Um deles, estava adormecido enquanto coberto pelos lençóis do Homem-Aranha. Adorável. Porém seu irmão mais velho fazia falta, o garotinho precisava admitir.

Tristonho, pois fazia mais de dois dias desde sua partida. Porém alegre, porque retornaria a vê-lo no dia seguinte.

Tentando fazer o mínimo de silêncio possível, fechou a porta de madeira e começou a descer das escadas. Iria até a cozinha pegar um copo d'água e voltar a dormir. Afinal, precisava estar disposto para receber novamente aquele com quem entrou tanta falta.

Parou subitamente no caminho ao ouvir um barulho pouco distante.

Eram vozes. Vozes familiares.

Curioso, sentou em um dos degraus e assistiu seus pais conversarem com um homem com qual não podia ver o rosto, do lado de fora de casa. De onde estava, dava para enxergar claramente a porta da frente da casa. Sua mãe e seu pai, de costas para si. Por que não convidavam o moço para entrar? Seus pais sempre foram muito bem receptivos com todos, até aqueles mesmo que não conheciam.

Do que conversavam?

— ... Sinto muito, senhora. - ao descer mais um degrau, foi tudo o que pode ouvir. E então o homem desconhecido se foi.

Sua mãe, por um instante permaneceu parada, o pequeno desejou conseguir ver o rosto dos dois adultos ali e o motivo da paralisia. Imaginou sua primogênita com uma feição alegre, exatamente como costumava reagir quando recebia notícias boas. Mas se estava tão feliz então por que abraçou seu pai de repente? Sua cabeça estava escondida sobre o peitoral de seu pai, ela parecia devastada. O homem tentava acalma-la, fazia carinho em seus cabelos de cor castanho, pouco ondulados igualmente aos do garotinho. Sua feição pareceu preocupada, pode sentir que algo estava errado. Sua mãe chorava.

Seu pai não estava diferente mas se recusava a derramar lágrimas. Ainda que visivelmente desolado.

O pequenino decidiu que era a hora de aparecer e descer o restante dos degraus.

— Mãe? Pai? O que está acontecendo? Quem era aquele homem?

Os olhos de seu primogênito pareceram dobrar de tamanho ao notar a presença do garotinho que encarava-os confuso, seus lábios se mexiam, mas nenhum som saia deles.

Sua mãe, separou-se imediatamente ao ouvir a voz do filho. Pálida. Enrijecida.

— Filho? O que está fazendo acordado a essa hora? Deveria estar na cama. - frenética, enxugava suas lágrimas e o sorriso que costumava lhe parecer doce e sincero, agora parecia amargo e forçado.

Estava escondendo algo. O pequeno detestava quando os mais velhos faziam isso.

Em sua direção, logo a mulher veio e se abaixou, pegou seus braços que eram cobertos pela pequena manga curta d ecor amarela, delicada e gentil.

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