capitulo 2

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     Como sempre, passaríamos mais um final de semana dentro de casa planejando a semana seguinte, o que faríamos em cada dia e horário. Fazemos isso desde que me conheço por gente, e não só nós fazemos isso, mas todas as famílias, porém a minha, pelo que sei, é a única que faz isso o mais rápido possível para depois ir ver as pastas grandes de conteúdo proibido que chamamos de insights. Meu pai disse que antigamente eram chamados de livros, mas é claro que pra mim a nossa família é a única que faz isso, porque não podemos falar com ninguém sobre tal assunto, de maneira alguma.
      Também não podemos ter animais dentro de casa porque falam que tem pessoas que não podem ter, então, eles ficam no parque da cidade e todos cuidam deles e esse é o motivo máximo pelo qual saímos de casa, já que alimentos necessários são levados até as casas todos os meses, assim como as vitaminas necessárias, já que a poluição, mesmo tendo sido algo que ocorreu anos atrás, danificou as pessoas que passaram esse dano de geração em geração.
     Para manter uma alimentação e saúde perfeitas, a gente faz exercícios diários e só come os alimentos disponíveis para aquela refeição. Uma das poucas vezes em que vi meus avós eles disseram que seus pais e avós contaram histórias de que a sociedade era completamente diferente: era mais caótica, porém as pessoas eram mais felizes. Eu nunca soube o que isso significava até ter aula sobre emoções, pois como minha geração já não tinha tanto isso, esse fardo não me preocupava, as pessoas hoje geralmente vivem com poucas emoções, já eu não tenho nenhuma e nem quero, imagine! É tão estranho você ter algo em si mesmo que te causa problemas e te deixa indefeso, mas ao contrário disso, eu tenho algo chamado "pensamentos intrusivos", que significa que eu não controlo minha mente ou que ela tem controle próprio e ela pensa muitas coisas sem eu querer, na maioria das vezes, coisas ruins, e isso é só mais um segredo, porém esse é só meu.
     Depois de acordar completamente, levanto de acordo com o cronômetro diário, tomo banho e escovo os dentes. Em meia hora já deveria estar arrumada e pronta para o café da manhã, já que tinha alguns minutos ainda. Antes de a porta do quarto ser aberta, pego o livro que estava escondido na fronha do travesseiro e começo a folhear. Eu não conseguia entender por que muito poucas pessoas de antigamente fizeram algo para não deixar que a regeneração mundial fosse forçada, eram só mortes, desmatamento e sentimentos. Depois de alguns minutos, a porta se abre saio, vou até a cozinha para tomar café com minha família.
      Nós comíamos em silêncio, para ser mais rápidos e não atrapalhar um ao outro, e esperávamos dar a hora de ir ao parque ver os animais, todavia, como o dia estava fechado, provavelmente choveria e não daria para ficar muito tempo lá. Bem, quando chega a nossa vez na programação, os horários evitam que muitas famílias se encontrem no mesmo lugar causando aglomeração, porque ninguém merece isso. Hoje também teríamos a atividade da noite, que também fazíamos escondidos, sempre na semana de finalização de um período de 365 dias, e como hoje é dia 30 de dezembro, poderemos presenciar escondido do lado de fora da nossa residência.
     Quando chegou a hora nós já estávamos prontos, à frente da porta, e vamos até o veículo. Tínhamos que deixar o Harley na Creche e depois ir fazer os serviços semanais.
Ao dar o horário, saímos e vamos para a área animal. Vou olhando pela janela lateral da carruagem a cidade que, como sempre, estava movimentada, porém sem exagero algum. A área animal era onde ficavam todos os bichos da cidade, todos os cidadãos eram responsáveis por cuidar deles, mas ninguém podia levá-los para casa, até porque daria muito mais trabalho, ali todos eram bem cuidados e alimentados.
Logo que chegamos, vamos nos aprontar, nos separamos em duas equipes: meus pais, eu e meu
irmão ajudamos a dar comida para os animais e limpar o terreno. Em certo momento meu irmão se aproxima de mim e comenta, baixo:
— Ei! Está vendo aquele cachorro ali, que parece que levou um choque?
— O que está meio arrepiado?
— Ele mesmo.
— O que tem ele?
— Ele é a sua cara, é estranho — ele fala, debochando de mim, e ri. Olho de volta e dou uma
cotovelada de leve nele, que ainda ria.
— Você é tão bobo.
— Foi engraçado, se você soubesse como é, você entenderia.
   Podia até ser, mas eu não entendia mesmo, não fui treinada assim, para ter sentimentos, e com isso também não ter emoções. Nunca vi tanta necessidade disso, as pessoas me deixam confusa com isso, meu irmão e meus pais brincavam uns com os outros e na maioria das vezes eu ficava meio de fora. Depois de algumas horas de trabalho, enquanto descanso vou falar com meu pai sobre uma dúvida com que fiquei depois que li o livro, ele estava sentado embaixo de uma árvore. Vou até ele me certificando de que não havia mais ninguém por perto.
— Fogerus? — falo, para chamar sua atenção.
— Oi, filha. Está cansada, já? Cadê sua energia jovem?
— Energia jovem?
— Deixa para lá — ele fala, sorrindo e me olhando, então me sento ao seu lado.
Ele parou o que estava fazendo e olhou para mim.
— São pessoas que viviam nas ruas porque não tinham casa, eles viviam de restos e ajuda das
pessoas que tinham.
— Então, nosso governo arrumou isso também.
— Em parte, sim, mas o que isso nos custou?
— Como assim?
— Seu avô dizia que o que isso custou para nós, antigamente e agora, é mil vezes mais do que
custaria para a sociedade se ajudasse cem anos atrás.
— Eu não tenho certeza, só suposições, mas ele, com certeza, sabia.
— Mas se eles não nos ajudassem, o mundo seria um caos porque as pessoas de antigamente fizeram isso.
— Elas erraram antes, mas não seria algo difícil, entende? Ajudar as pessoas e os animais para
ajudar a si mesmo não é algo gigante como as pessoas diziam antes, e que só perceberam isso tarde demais.
— Então o nosso governo é feito de heróis?
— Só vamos saber daqui a vários anos, quando olharmos para trás, assim como o meu pai, e
veremos se nós ajudamos de verdade ou só fingimos. Infelizmente é assim que funciona, já faz muitos anos que nessa alternativa o ruim e o mal estão prevalecendo.
— Então você acha que com tudo isso que fizeram eles ainda são maus?
— Se isso não está nos custando agora, o que vai nos custar no futuro? Eu tenho uma lição para
você também.
— O quê?
— Nada é de graça, podem pedir coisas além de dinheiro, poder, fama, mas nada é de graça.
Ouço ele, mas não era bem o que eu esperava, sabia que ele me mostrava os livros por um motivo, só não sabia que as coisas eram tão complicadas antigamente e pelo que ele falou, hoje em dia também.
Fico em silêncio e depois de um tempo olho de novo para ele.
— Eu queria poder mudar isso.
— E você pode e deve.
— Como?
— Fazendo a sua parte, o necessário.
— Lutando? Mas pelo quê?
— Talvez sim, e não confie em ninguém e em nada.
— Está bom, mas eu confio em você.
— Sinto-me honrado.
Levanto e vou terminar as atividades, logo minha mãe vem na nossa direção.
— Acho que por hoje é só, e parece que vai chover.
— Então vamos, corra.
Assim que eu falo, ouvimos um trovão e em seguida a chuva.
— Que boca essa a sua, hem — diz meu irmão, caçoando.
Meus pais riem e saímos correndo em direção à carruagem. Antes de entrar pego as capas e cubro os dois cavalos na frente do veículo enquanto os outros entram nele. Entro também, já bem molhada. Fogerus controla o veículo que começa a andar, mas logo percebo que não estamos a caminho do lar.
— Aonde estamos indo?
— Você verá — meu pai responde.
    Fico olhando pela janela do veículo até que para. Estávamos em cima de um morro. Meu pai sai do veículo e vou atrás dele, mesmo com a chuva ele abre a lateral do quadriciclo nos dando uma proteção para não nos molharmos, e apesar da chuva, quando olho o horizonte vejo o que ele queria nos mostrar: era uma visão incrível da cidade. Apesar de ser meio sem cor era linda vista de lá, principalmente as luzes amarelas, mas o que mais me chamava a atenção eram o céu estrelado em uma tonalidade de azul e um final alaranjado no fim do horizonte, as nuvens que restavam, presentes em tons de branco- acinzentado e as estrelas que se destacavam no céu, centenas delas. Logo meu irmão e minha mãe vêm para perto de nós e ficamos embaixo da parte do veículo observando, até que vemos o que acreditávamos ser estrelas cadentes, o evento que acontecia toda semana de finalização: luzes passando pelo céu, indo para o espaço, foi uma noite incrível, diferente, não sabia por que estávamos lá, mas se pudesse, tentaria pegar uma estrela cadente para mim ou escolheria ficar ali para o resto da vida, era um momento memorável que ficaria na minha história.

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Oiii, espero que estejam gostando da história, votem e comentem por favor,
Beijinhos 💋

Expectação a espera de algoOnde histórias criam vida. Descubra agora