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VINNIE H

Eu não acreditava em destino. Para mim, tudo o que acontecia era consequência de algo que alguém fez. Você merece o que acontece em sua vida, é sua culpa, você procurou isso. Entretanto, Scarlett parecia ser a coisa que fazia uma parte de mim cogitar que existia uma força maior regendo todos nós. Como poderia ser apenas coincidência que essa mulher tivesse caído de paraquedas na minha vida para me tirar do fim que parecia já estar escrito? Por que eu merecia aquela sorte? As coisas que fiz merecem ser tão recompensadas quanto a voz popular dizia que mereciam? De fato, não importava, eu só iria aproveitar aquilo.

Toda a minha vida agora parecia girar em torno de Scarlett e eu me sentia cada vez mais ansioso para saber o que ela precisava que eu fizesse por ela depois que estivesse livre. Eu poderia explodir o planeta se ela pedisse, arranjaria um jeito de descobrir como fazer isso apenas por ela. Cada segundo, cada um dos meus pensamentos, tudo o que eu fazia, qualquer coisa incluía pensar sobre a Scarlett, falar sobre a Scarlett, desejar desesperadamente a Scarlett.

Queria que fosse assim para ela também, que me achasse tão importante quanto, que me quisesse como eu a queria, que não conseguisse parar de pensar em mim. Acho que eu morreria se descobrisse que toda aquela sedução não passou de interesse pessoal. É claro que eu notaria, mas Scarlett era tão inteligente e tinha entrado tão intensamente na minha cabeça que aquilo tudo poderia muito bem ser uma doce ilusão. Não sei o que faria caso ela me passasse para trás após conseguir concluir seus objetivos iniciais.

Ela esteve tão empenhada em me tirar da prisão que conseguiu fazer com que o juiz decretasse que eu cumprisse prisão perpétua em um hospital presidial, o mesmo indicado por Scarlett. Ela era uma excelente manipuladora, uma coisa que me deixava com receio, confesso. A mulher era tão sombria que eu tinha certa dificuldade em lê-la às vezes.

Não acho de verdade que ela teria coragem de matar alguém, Scarlett não sabia fazer isso, mas pensava em coisas loucas e tinha atitudes que muitas outras pessoas julgariam como anormais. Ela tinha alguns traços quase imperceptíveis de uma pessoa que não bate bem da cabeça e só alguém que também não batia poderia notar. Mas quem a deixou assim? Acredito que foi a mesma pessoa que ela pretende machucar.

Fui transferido no mesmo dia para o hospital. O lugar estava tão cheio de curiosos que eu tive que ser escoltado como se fosse algum senador ameaçado de morte.

O quarto em que eu ficaria era em uma ala afastada, mas era confortável. A cama era muito melhor do que a da cela onde estive no presídio, tinha uma janela gradeada com vista para o jardim da frente, onde eu podia ver as pessoas passeando, entrando e saindo do terreno. Eu tinha meu próprio banheiro, uma cômoda com roupas minhas que foram enviadas pela minha família e alguns cadernos, lápis, giz de cera e diversos acessórios para desenhar.

Quando abri a primeira gaveta da cômoda, notei um bilhete com o meu nome sobre ele.

"Olá, querido. Queríamos dizer que estamos aqui por você e o veremos todas as semanas. Te amamos para sempre.

Mamãe."

Ela pareceu muito emocionada quando eu pedi desculpas na frente de todos, ressaltando o Matthew. Senti um gosto amargo na língua em ter que fazer aquilo. Detestava me desculpar quando não achava que tinha feito algo de errado, mas eu sabia fingir bem. Tão bem que a comoção foi geral e eu convenci as pessoas de que alguma parte de mim se importava com as opiniões da minha família.

Sem nada para fazer ali, eu peguei um dos cadernos, abri em uma folha e comecei a desenhar. Comecei a rabiscar sem ter nada em mente, mas de repente os rabiscos se tornaram olhos. Lindos e marcantes olhos verdes. Scarlett. Sempre ela. Ao desenhar, eu focava minha mente e meu corpo naquilo, de modo que me desligava completamente do mundo ao meu redor. Como agora, que nem notei que alguém havia entrado no quarto.

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