Quando me separei dos meus amigos, fui direto para meu navio. Eu o usava para trabalhar, transportava cargas e pessoas de uma cidade para outra, sempre começava no porto Panteliph e ia navegando de cidade em cidade. Com essas minhas viagens, consigo levantar até cem reais por dia, dependendo do tanto de viagem.
Era cinco horas da tarde quando cheguei ao porto, eu trazia comigo alguns moradores que estavam voltando de lugares diferentes.
O sol estava se pondo, deixando o céu em um mesclado lindo de azul e rosa.
Minha intenção é ir direto para casa, tirar um cochilo, comer alguma coisa, colocar uma roupa mais quente e voltar a trabalhar - a partir das seis é um horário muito bom para transportar pessoas, já que é o horário que muitas pessoas saem do serviço.
Viro a esquina da minha casa, um homem vira a outra esquina e começa a correr em minha direção. Seu cabelo é compridinho e de um castanho claro, quase loiro, parecido com o príncipe...
Droga, Alice! O príncipe provavelmente também deve ter me reconhecido, pois se virou e disparou para o outro lado, corri atrás dele.
- Peguem ele! - Gritei enquanto desviava das pessoas que transitavam por ali
Dois homens ficaram olhando a gente passar, logo em seguida escutei os passos deles atrás de mim. O príncipe era rápido, eu não sabia se conseguiríamos capturá-lo novamente, mas de qualquer forma ele não teria para onde ir.
De repente, o príncipe parou, achei estranho. Fui me aproximando devagar, só quando cheguei perto o bastante é que vi que um menino magrinho estava parado na frente do príncipe, o garoto segurava no colo um bebê que estava tão magro que era possível ver sua estrutura óssea. Agarrei o príncipe pelos braços, os apertando contra suas costas, ele deu um gemido de dor, mas diferente do que eu pensava, ele não lutou, deixou que eu o arrastasse para qualquer lugar.
- Onde está sua mãe querido? - Perguntei ao garotinho que parecia estar morrendo de fome e medo
- A-ali - gaguejou ele usando a mão livre para apontar para a mãe. A moça vinha vindo do mar com uma bacia de roupas e um bebê ainda na barriga
- Fala para ela ir na prassa amanhã às sete da noite - O garotinho assentiu com a cabeça, sorri para ele e sai empurrando o babaca do príncipe de volta para o lugar de onde não deveria ter saído
- Aqueles garotos eram tão... magros - Comentou o príncipe depois de alguns minutos em silêncio. Sua voz estava diferente, estava baixa, e sem aquele tom de autoridade, era como se ele estivesse perturbado
Não o respondi.
- Eles não têm comida? - Perguntou o príncipe
- Não - minha voz saiu um pouco seca
- Por que?
- Porque os pais deles não querem que eles comam - Me arrependi do que falei assim que as palavras saíram.
O príncipe se contorceu e fez força até conseguir que eu o soltasse, então ele virou de frente para mim e me encarou, percebi pelo seu olhar que ele realmente estava perturbado, o que só fez com que eu me sentisse ainda mais culpada pelo que tinha dito.
- Olha, você não deve estar acostumado a ver crianças nesse estado, sei que deve ser perturbador. Mas aqui, aqui em Crempopulis, isso é comum. Muitas pessoas só tem dinheiro para bancar o teto sobre as cabeças ou pagar comida, por isso preferem o teto, pois aqueles que tem um pouquinho mais sempre ajudam os outros com a comida. - Respondi
- Aquela mulher não trabalha? - Perguntou ele sem tirar os olhos dos meus
- Por um acaso você viu o tamanho da barriga daquela mulher? - Perguntei já sem paciência
- Vi...
- Então meu filho, queria que ela trabalhasse naquelas condições?
Ele não respondeu, então resolvi explicar para o príncipe como funcionava as coisas no reino dele - irônico não?.
- Já que você está tão interessado, vou te mostrar
- Sério? - Perguntou ele como se tivesse lendo as letras miúdas de um contrato
- Sim
Ele se virou novamente e colocou as mãos para trás para que eu o segurasse, isso me assustou e me comoveu. Ele estava pronto para abrir mão da sua liberdade para saber como era a vida nessa cidade pequena. Ele poderia muito bem aproveitar que eu estava distraída para sair correndo, mas permaneceu ali, esperando que eu o segurasse e arrastasse para onde fossemos.
Meus cinco sentidos me diziam para segurá-lo, mas meu sexto sentido me mandava deixá-lo solto. Eu ainda iria me arrepender por escutar esse meu sexto sentido, mas o jeito que ele parecia perturbado e o fato de abrir mão da liberdade para saber sobre seu povo realmente me sensibilizou.
Passei por ele e fui caminhando, eu acreditava que ele me seguiria. Parei depois de dar cinco passos, olhei para trás, sabia que ele estaria lá, só queria incentivá-lo a vir comigo
- Você não vem? - Perguntei, a cara dele era um verdadeiro ponto de interrogação, dei risada. Ele me olhou por mais uns dois segundos e depois correu para me acompanhar.
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Amor e Espadas
FantasíaRachel é só mais uma garota disposta a fazer tudo pelo o que acha certo, e no momento ela acha que sequestrar um príncipe e travar uma batalha entre seu grupo e a família real é a coisa certa a se fazer. Rachel faz parte de um grupo de rebeldes de...
