Capitulo 1

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𝟐2 𝙙𝙚 Março 𝙙𝙚 2023

— Victor, olha só essa vista! – disse Mônica toda empolgada, apontando pela janelinha do avião

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— Victor, olha só essa vista! – disse Mônica toda empolgada, apontando pela janelinha do avião.

Victor, 17 anos, cabelo todo bagunçado, franja caindo no olho, roupa preta da cabeça aos pés, tava segurando um livrinho do Dom Quixote só pra passar o tempo. Ele ajeitou os óculos meio tortos e olhou pela janela com um sorrisinho tímido.

— É bonito, mãe… — murmurou, apertando a mão dela como se fosse a última coisa que ele ainda tinha no mundo.

O avião começou a descer, e o coração dele só batia mais forte. Eles estavam chegando em Salamanca, na Espanha. Um recomeço, depois da perda do pai... e de tantas coisas difíceis.

Assim que desceram, foram levados num carrão, um Lexus todo chique, coisa que Victor só tinha visto no TikTok dos ricaços. Quando o carro parou, ele ficou em choque: a mansão era de outro "planeta". Os portões eram enormes, de ferro trabalhado com uns desenhos que pareciam saídos de um livro de fantasia. O caminho até a casa era cheio de pedrinhas brilhando no sol, com flores de tudo que é cor e árvores gigantes formando sombra.

Quando saíram do carro, foram recebidos por um casal todo elegante.

— ¡Bienvenidos a nuestra casa! — falou o senhor Lucius Godoy, com aquele sotaque espanhol arrastado, roupa alinhada e cabelo grisalho bem penteado. Ele usava óculos fininhos.

— Muito obriga... Quer dizer gracias, Sr. Godoy — respondeu Mônica toda formal, mas com um brilho nos olhos. — Somos muito gratos por essa chance.

Victor mal piscava. O lugar parecia até cenário de filme: fontes jorrando água cristalina, reparou que há também um labirinto de arbustos, estátuas chiques por todo canto... Tudo tão surreal que ele quase esqueceu que tava ali como "filho da empregada".

— Este es nuestro mayordomo, Carson, — disse a Sra. Priscilla Godoy, com um sorriso, Ela usava um colar gigante de diamantes que brilhava mais que tudo ali. — Él les mostrará sus quartos y explicará las normas de la casa.

— Por aqui, sra. Oliveira — disse Carson. Ele fez um gesto com a mão e saiu andando.

Mônica agradeceu de novo, toda educada, e puxou o filho que ainda tava viajando nos pensamentos enquanto olhava pros jardins como se fosse a última vez.

Dentro da mansão, o choque foi ainda maior. O hall era absurdo! Tinha lustre de cristal gigante, piso de mármore que dava até medo de pisar, retratos de família com umas molduras douradas que pareciam ter saído de um museu.

— MINHA NOSSA SENHORA! — soltou Victor, de boca aberta.

— Eu juro que nunca imaginei que ia morar e trabalhar num castelo de contos de fadas — cochichou Mônica, meio em choque também, o que fez Victor rir de canto.

Depois de apresentar tudo, Carson levou os dois pra área dos funcionários. Bem mais simples, claro. Não era nenhum luxo, mas comparado ao que eles tinham no Brasil… já tava bom demais.

Logo na entrada tinha uma recepção básica, e uma porta separada da entrada principal — assim os funcionários podiam entrar e sair sem incomodar os Godoy.

Victor ficou meio pra baixo. Ele sabia que aquele jardim lindo ia ser só uma lembrança. Aquele perfume das flores, aquele visual de filme… tudo ficou pra trás assim que entraram na ala dos empregados.

— Esta será su área durante el trabajo. As malas já estão chegando. Sintam-se cómodos — disse Carson, entregando pra Mônica um monte de papel com regras e as chaves dos quartos.

O quarto era pequeno, mas ajeitadinho. Tinha uma cama de solteiro, um armário, uma escrivaninha e um espelho redondo pendurado. As paredes em tons neutros deixavam o lugar mais calmo.

Victor sentou na cama e soltou um suspiro. Aquilo ali, por mais simples que fosse, parecia um lar.

— O que achou, meu filho? — perguntou Mônica, sentando na beira da cama.

— É… é confortável. Só de ter um quarto só nosso, já me sinto aliviado. No Brasil, a gente nem sonhava com isso — respondeu ele, se jogando pra trás e olhando pro teto.

Mônica foi até o espelho, arrumando o cabelo castanho, os olhos meio cansados. A vida não tinha sido fácil pra ela. Mas naquele momento, tinha algo diferente no olhar dela.

— Os banheiros são compartilhados, mas pelo menos são limpinhos e tem estrutura. Aqui as coisas são melhores mesmo… — murmurou, voltando pra cama.

Ela olhou pro filho com carinho.

— Eu sei que as coisas têm sido difíceis, mas... quem sabe essa nova fase na Espanha traga um pouco de paz, né?

Victor virou o rosto pra ela, com uma expressão meio esperançosa, meio insegura.

— Será que aqui vai ser diferente, mãe?

— Olha, eu não sei o que vai rolar. Mas o que posso te dizer é que... às vezes mudar de lugar ajuda a enxergar tudo de outro jeito. E a gente merece tentar.

Victor ficou em silêncio, olhando pro teto de novo. A família Godoy tinha contratado a mãe dele como funcionária, e como parte do acordo, ele foi matriculado no tal "Colegio Elencía", um colégio de elite da cidade.

Essa era a chance dele. Mas também era o começo de um monte de coisas que ele nem fazia ideia ainda.

E assim começava a nova fase da vida de Victor.

Continua...

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