II- Acordo

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Por conta dos boatos e de tudo o que ouvia sobre a crueldade do Erick desde que entrei para o grupo, precisei ser mais cautelosa e passei a mandar dinheiro com menos frequência, evitando chamar atenção e mantendo elas protegidas. Ainda assim, o tempo não parava, e era impossível não imaginar minha mãe tendo que escolher entre o almoço ou a janta, pedindo ajuda na igreja ou procurando sobras na feira. Eu não podia permitir que aquilo continuasse.

— Por que está me olhando assim? — Alexia quebrou o silêncio, e só então percebi que estava a encarando por tempo demais, perdida nos meus pensamentos.

— Aceito fazer o que você disse — não era uma escolha que eu pudesse recusar. — Não vou causar problemas, nem tentar me rebelar... mas quero algo em troca.

Alexia inclinou a cabeça de leve, um sorriso quase invisível surgindo no canto dos lábios, enquanto as sobrancelhas se uniam em curiosidade.

— Depende. O que você quer?

— Preciso que entregue um envelope para uma pessoa.

Ela não respondeu de imediato. Só me olhou, como se estivesse tentando decidir se aquilo era coragem ou estupidez.

— Para quem? E quando?

— Isso é assunto meu. Você só precisa entregar. Pode fazer isso por mim? — dei um passo mínimo à frente, sem perceber — Nem sei por quanto tempo vou ficar fora, e preciso que isso aconteça logo.

— Deve ser importante, para você confiar em mim.

— É arriscado, eu sei... mas você é a única pessoa aqui que sinto que confiar não seria tão errado. 

Sustentei o olhar no dela. Não era confiança, era falta de opção.

O silêncio se estendeu. Os olhos dela se moveram devagar, avaliando, calculando, e quanto mais demorava, mais eu sentia o peso daquilo crescer dentro do peito, como se já soubesse que qualquer descuido ia custar caro. Pedi ajuda para a pessoa errada, pensei. Mas naquele lugar, qualquer escolha parecia errada.

— Tudo bem — disse, por fim, sem qualquer entusiasmo. — Me diga onde e quando.

O ar pareceu voltar aos meus pulmões.

— Terminal rodoviário, amanhã, às 13h. Tem uns bancos na entrada. Ele vai estar em um deles, camiseta branca, boné e um tênis verde... bem feio. Pode só deixar o pacote e sair.

— Eu faço. Mas com uma condição — ela se inclinou na minha direção, o olhar firme — ele não pode saber que fui eu. E quanto menos ele souber, melhor pra todo mundo. Você sabe disso.

Eu sabia. Sabia bem demais.

— Vou fazer a minha parte. Ele não vai nem olhar para você.

— Ótimo — ela apoiou as costas na cadeira, ainda me observando — porque você não vai querer descobrir o que acontece com quem tenta me usar.

Ela estendeu a mão, esperando.

Levei um segundo para entender.

— O envelope não está comigo. Te entrego amanhã.

Minha voz saiu controlada demais, como se qualquer deslize pudesse estragar tudo.

Ela inclinou a cabeça, me analisando com mais atenção agora.

— Com todo respeito... você é uma ladra. Prefiro manter as coisas assim.

Por um instante, achei que tinha ido longe demais.

Alexia fechou os olhos e riu, negando com a cabeça, depois riu de novo, como se ainda estivesse processando o que tinha ouvido. Se levantou sem pressa, caminhou até a porta e a abriu.

Código de SilêncioHistórias para pegar e não largar. Descubra agora