Minha irmãzinha, Sofia, tagarelava animada, sua voz preenchendo o quarto cada vez mais alto conforme lembrava de alguma coisa nova que queria fazer nas férias na casa do nosso pai. Com o calendário marcando o dia, ela já não conseguia mais conter a felicidade.
— Quero ir no cinema de novo! O papai disse que talvez me leve no zoológico também, mas só porque tirei nota boa.
Vi ela guardar o boletim com todo cuidado do mundo entre as roupas e, logo depois, voltar a encarar as bonecas espalhadas pela cama, claramente sofrendo por não conseguir escolher só uma. Acabou tentando levar quase todas, apertando cada uma contra o peito como se abandonar qualquer delas fosse uma crueldade.
— A tia Sandra disse que vai fazer bolo colorido. — Parou por um instante, pensativa, e o entusiasmo diminuiu. — Ahh... mas eu também gosto de pudim...
Observei sua expressão mudar de novo quase imediatamente, os olhos brilhando ao ter outra ideia.
— Já sei! Vou pedir pudim também!
Sorri sem perceber. Mesmo depois de tantos anos convivendo com ela, ainda me impressionava a facilidade com que Sofia conseguia mudar de expressão tão rapidamente, triste por dois segundos e feliz logo depois, como se o mundo jamais pudesse permanecer ruim por muito tempo.
— Você tá bem animada, né, pequena?
Ela confirmou com tanta força que algumas bonecas quase caíram dos braços.
Queria conseguir sentir a mesma coisa.
Mas desde que nossos pais se separaram, quando eu tinha treze anos, nunca mais consegui olhar para aquelas férias da mesma forma que ela. Para Sofia, que tinha só dois anos quando tudo aconteceu, aquela realidade era normal. Nosso pai sempre foi alguém que aparecia de vez em quando, levava presentes, fazia promessas e sumia outra vez. Mas eu lembrava de antes. Lembrava dele chegando cedo em casa, me levando na escola, perguntando sobre minhas provas, me fazendo acreditar que nada no mundo era mais importante do que a nossa família.
Para a Sofi, aquela realidade era a única que ela conhecia, já para mim, foi doloroso acompanhar minha família se desintegrar sem que eu pudesse fazer algo. A sensação de não poder fazer nada às vezes ainda doía, mas, de tudo o que vivi naquela época, o pior foi ter sentido o amor de um pai e então o perder sem ter feito nada para merecer, como se nossa relação e elo fossem passageiros, não algo eterno, como eu achava que deveria ser. Acontece que quando criança, por muito tempo fiz dele o centro do meu universo, até perceber que eu ocupava um espaço muito menor no dele.
Talvez por isso tenha doído tanto perceber, aos poucos, que ele não tinha se separado só da nossa mãe.
Tinha se separado da gente também.
No começo ainda nos via toda semana, ligava, fazia questão de aparecer. Depois começaram as desculpas, os atrasos, os compromissos. Os encontros diminuíram de dois dias na semana para um, de um para a cada quinze dias, de quinze para talvez nas férias, até que em algum momento eu percebi que precisava pensar antes de responder quando alguém perguntava qualquer coisa sobre ele, como se estivesse tentando descrever um conhecido distante e não o meu próprio pai.
A ausência não aconteceu de uma vez. Acho que teria sido mais fácil se tivesse. O pior não foi perder meu pai. Foi ter conhecido antes a versão dele que me fazia acreditar que eu era importante.
As coisas só começaram a mudar quando ele se casou com Sandra. De repente ele quis voltar a se aproximar, dizia que queria as filhas fazendo parte da vida deles, e por um tempo eu quase acreditei que tudo voltaria a ser como antes. Sofia era pequena demais para desconfiar de qualquer coisa, então se agarrou àquilo imediatamente, encantada com os passeios, presentes e atenção.
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Código de Silêncio
AksiKatarina carrega consigo um passado doloroso e busca desesperadamente uma fuga para suas frustrações. Em uma tentativa arriscada de resolver seus problemas e proteger sua família, ela se junta a uma perigosa facção criminosa, mergulhando em um mundo...
