Meu corpo inteiro endureceu ao ouvir aquilo. Por alguns segundos, fiquei parada no escuro do corredor, sentindo o coração bater tão forte que ecoava pela casa inteira, enquanto as palavras deles continuavam atravessando o vão da porta. Tentei convencer meu corpo a voltar a obedecer, mas o que eu tinha acabado de ouvir não saía da minha cabeça.
— Às vezes eu penso em como seria se elas morassem aqui — ouvi meu pai dizer, num tom cansado, como quem comentava uma ideia distante. — Pelo menos a Sofia teria uma vida melhor.
Meu estômago afundou.
— A Katarina já tem dezesseis anos, está grande demais pra isso. Mas a Sofia... realmente ainda dá tempo. E ela praticamente já age como se morasse aqui.
Senti algo estranho subir pelo peito, uma mistura de raiva e medo tão forte que, por um instante, achei que fosse passar mal ali mesmo. Sem perceber, apertei a parede ao lado e, no movimento brusco, meu braço acabou esbarrando em um pequeno vaso decorativo sobre o aparador do corredor. O objeto balançou, raspando na madeira antes de cair no chão com um som seco e alto demais para aquela hora da noite.
O silêncio do outro lado da porta veio imediatamente, e cada músculo do meu corpo gelou.
Ouvi passos rápidos se aproximando e me afastei por instinto, mas já era tarde demais. A porta se abriu, e meu pai apareceu no corredor, franzindo a testa ao me ver parada ali.
— Katarina? O que você tá fazendo acordada?
A vergonha veio primeiro, quente e sufocante, seguida quase imediatamente pela raiva. E ele não parecia bravo. Parecia desconfortável, e aquilo me irritou ainda mais.
— Vocês querem tirar a Sofia da minha mãe?
Nenhum dos dois respondeu de imediato.
— Querem? — repeti.
Meu pai passou a mão no rosto devagar.
— Não é assim.
— Então como é?
Ele hesitou. Sandra não.
— Sua mãe não consegue cuidar de vocês direito.
Falar começou a doer.
— Você nem conhece a minha mãe.
— Conheço o suficiente.
— Sandra... — meu pai tentou interromper.
— Não. Ela precisa ouvir. Faz anos que aquela mulher vive daquele jeito e nunca faz nada pra mudar.
— Ela trabalha.
Sandra soltou uma risada curta.
— Trabalha? E, mesmo assim, vocês vivem aparecendo aqui precisando de tudo.
— Se vocês acham que a gente precisa tanto, então por que ele nunca ajuda minha mãe com nada?
Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia e, por um segundo, ninguém respondeu. Meu pai desviou os olhos primeiro, o que por si só já pareceu uma resposta. Mas quem falou foi Sandra.
— Seu pai não tem obrigação de dar dinheiro nenhum. Vocês passam férias aqui, comem aqui, recebem presente, roupa, passeio... ele já faz muito mais do que muita gente faria.
Olhei para ela sem acreditar.
— Muito mais? — repeti, sentindo a garganta arder. — A gente fica aqui três semanas. O resto do ano é minha mãe sozinha.
— E, mesmo assim, ela nunca reclamou de nada — respondeu Sandra rapidamente, como se estivesse preparada para aquela discussão havia muito tempo. — Talvez porque saiba que o problema não é o seu pai.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Código de Silêncio
ActionKatarina carrega consigo um passado doloroso e busca desesperadamente uma fuga para suas frustrações. Em uma tentativa arriscada de resolver seus problemas e proteger sua família, ela se junta a uma perigosa facção criminosa, mergulhando em um mundo...
