III - Rua

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Eu não tinha plano nenhum, só sabia que não queria continuar sendo um peso para minha mãe.

Comecei a andar antes que pudesse pensar demais e desistir. As ruas estavam quase desertas naquela hora, iluminadas apenas pelos postes amarelados e pelas luzes distantes de alguns apartamentos ainda acordados. Abracei a mochila contra o peito e mantive o passo rápido, tentando ignorar o pânico crescente que surgia conforme me afastava cada vez mais da casa do meu pai.

Foi só depois de alguns quarteirões que percebi o tamanho da loucura que tinha acabado de fazer.

Eu não tinha para onde ir, não tinha dinheiro suficiente e muito menos ideia de como conseguir um emprego.

Fiquei tensa conforme comecei a cruzar com mais pessoas na rua. Homens encostados em bares ainda abertos demoravam os olhos em mim, motos reduziam a velocidade perto da calçada e alguns carros passavam devagar, como se estivessem avaliando alguma coisa.

Continuei andando até avistar um hospital funcionando vinte e quatro horas por dia e decidi ficar por perto. Era o lugar mais seguro que eu tinha encontrado. Havia movimento, luzes acesas e seguranças circulando de tempos em tempos.

Me sentei em um banco de concreto próximo ao estacionamento e puxei os joelhos contra o peito, tentando ignorar o frio atravessando minha blusa.

Ninguém prestou atenção em mim. No começo, aquilo foi um alívio, mas depois começou a doer, porque significava que eu podia simplesmente desaparecer e talvez ninguém percebesse.

Toda vez que fechava os olhos, eu via o rosto da minha mãe.

Via Sofia sorrindo, via meu pai parado no corredor sem fazer nada.

Aquilo ficava se repetindo na minha cabeça sem parar.

Dormir era impossível, porque qualquer barulho me fazia levantar num susto, fosse uma porta batendo, um carro passando ou vozes ecoando do outro lado do estacionamento.

Passei a noite inteira alerta. Qualquer som me fazia erguer a cabeça imediatamente e, por alguns segundos, aquilo distraía minha mente do caos que carregava. Mas bastava tudo voltar ao silêncio para a realidade cair sobre mim outra vez.

Quando o céu começou a clarear, senti um alívio estranho, quase ridículo. Eu tinha passado a noite inteira com medo de alguma coisa acontecer.

E nada aconteceu.

Aquilo já parecia uma vitória.

Levantei sentindo as costas doerem e comecei a andar pela cidade antes que alguém resolvesse perguntar o que eu fazia ali sozinha.

Passei a manhã inteira procurando qualquer tipo de trabalho. Perguntei em mercadinhos, lojas de roupa, lanchonetes e padarias. A resposta era quase sempre a mesma.

— Tem currículo?

Não.

— Tem experiência?

Não.

— Quantos anos você tem?

Dezesseis.

E era o suficiente para a conversa acabar.

Depois de ouvir tantos "não", comecei a mudar a pergunta.

— Vocês precisam de ajuda?

— Eu faço qualquer coisa.

— Posso limpar.

— Posso organizar estoque.

— Posso lavar louça.

Nada.

Algumas pessoas eram educadas, outras me olhavam como se eu estivesse tentando aplicar algum golpe.

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⏰ Última atualização: Jun 02 ⏰

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