Ao deixar para trás todo o caos que se formava, encarei o silêncio e a paz do vestiário, me lembrei de uma vida em que minhas preocupações eram outras, e por mais que enfrentasse problemas em casa, ao menos tinha minha mãe e irmã comigo. Longe de assaltos ou assassinatos. Meu peito apertou pela falta daquela vida, que apesar das dificuldades, era melhor que esse inferno que me enfiei.
Me olhei no único espelho que tinha ali, um arrepio percorreu meu corpo e meus olhos marejaram ao olhar o vermelho em minha roupa e pele. Não me reconheci, não consegui sustentar o olhar por muito tempo, e por um momento, pude imaginar a minha mãe olhando o mesmo reflexo que eu, coberto pelo sangue de outra pessoa, tendo o mesmo reflexo que eu, sentindo repulsa, desprezo.
Não consegui sustentar as pernas e cedi. A visão embaçou e senti meu rosto quente quando as lágrimas começaram a cair. Eu não tinha ninguém. Abandonei meu lar para me juntar àquelas pessoas e seus planos absurdos. O arrependimento chegou como agulhas na garganta. É claro que eu era culpada! Sempre estive ciente dos riscos de me envolver em algo que não teria volta, com alertas diários de que algo assim poderia acontecer, mas escolhi me afastar da possibilidade, me enganando que poderia sair ilesa. Como pude ser tão ingênua?
Me lembrei do primeiro trabalho que fiz depois de passar pelo treinamento do Erick e da Alexia. Me senti suja. Parecia que cada coisa de errado que fiz tinha voltado para cobrar o preço. E eu merecia.
Meu coração acelerou e senti uma dor que nunca havia sentido antes, e quase como um instinto, levei as mãos ao peito, como se elas fossem impedir que meu coração saísse do lugar. Encarei pelo espelho o borrão dos meus próprios olhos e decidi que não ficaria ali parada nem por mais um minuto, andei alguns passos, o suficiente para alcançar minha toalha em meu armário e pegar algumas roupas limpas, e então corri para a cabine do chuveiro.
A água quente me atingiu e deixei escorrer por mim, como se pudesse lavar a culpa e o arrependimento. Esfreguei cada parte do meu corpo até sentir a pele arder e parar de ver o vermelho descer pelo ralo. Desejei que toda a minha angústia descesse por ele também.
Quando minha mente deu uma trégua saí debaixo do chuveiro, me sentindo anestesiada, mas não estava pronta para que aquela sensação passasse. Tive medo de que quando saísse dali tudo viesse a tona e a dor voltasse, ou que os olhares me quebrassem outra vez, então deixei o tempo passar enquanto me secava, me vesti e quando meu cabelo estava quase seco, me preparei para sair, desejando que não encontrasse ninguém no caminho para o dormitório.
Quis evitar ter que lidar com qualquer coisa, e sabia que o melhor jeito de fazer isso era dormindo, ou pelo menos fingir. Pensei em um jeito de cruzar o corredor sem que Alexia me visse, mas o único jeito seria se ela não estivesse no escritório, torci para que fosse o caso.
Andei alguns metros até sair do vestiário, e a partir dali caminhei mais devagar, tentando fazer com que meus passos fossem silenciosos. Eu já estava perto do escritório quando escutei.
— Tem certeza de que isso foi tudo? — Era a voz da Alexia.
— Claro.
— Pela reação dela, eu não diria que foi só isso que aconteceu.
— Ah, então esse é o problema?
Escutei Erick rir e tudo ficou em silêncio por um tempo.
— Eu já disse, ninguém teve culpa, nós seguimos o plano... Você deveria saber que isso aconteceria, eu te avisei. Ela não serve para o trabalho.
As palavras de Erick ecoaram na minha cabeça. "Ela não serve para o trabalho". Eles estavam falando de mim, e ele estava certo. Eu falhei em controlar a situação e um inocente morreu. Minha mente voltou para o mercado e trouxe aquele cheiro de volta, meu estômago embrulhou.
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Código de Silêncio
ActionKatarina carrega consigo um passado doloroso e busca desesperadamente uma fuga para suas frustrações. Em uma tentativa arriscada de resolver seus problemas e proteger sua família, ela se junta a uma perigosa facção criminosa, mergulhando em um mundo...
