Capítulo 3 - Encontro das águas

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Sentindo as gotículas da água doce que caiam do céu baterem contra seu rosto e peito aprumado, de olhos fechados, Fernanda sorria. Os braços estavam abertos, os fios longos de cabelo preto iam esvoaçantes para trás, os pés descalços fincados na madeira do barco para não cair, os quadris encostados nas grades parapeitais que revestiam a proa da embarcação para a proteção de quem estivesse ali, os lábios separados num sorriso que há muito não dava.

Ali, como Jack Dawson, numa das cenas mais icônicas da sétima arte, ela entendeu, finalmente, o que o rapaz quisera dizer: sentia-se como a rainha do mundo. A pele estava arrepiada e o barulho dos dentes batendo uns contra os outros enquanto o queixo tremia evidenciavam seu frio; todavia, não se mexera para procurar abrigo. O corpo tremia, mas seu peito ardia como brasa numa felicidade pura. Era a única ali, na chuva, porém, estava onde queria estar.

Apontou o rosto para cima, os olhos imóveis fitavam o céu, molhando-se ainda mais. A imensidão sempre azul, tornou-se, por ora, acinzentada. Acima de si, as nuvens enegrecidas brilhavam esporadicamente quando os relâmpagos irrompiam suas escuridões como flashes de câmera. Os trovões, em consonância ao correr do motor do barco, faziam seu coração pular no peito. Por algum motivo, embora todos os estudos meteorológicos dissessem o contrário, estava chovendo.

Adorava dias chuvosos. Sabia que, não importava o quão ruim pudesse parecer a chuva, em algum momento, ela cessaria. Era como sua vida. A luz brilharia. O queixo tremeu outra vez - agora, com o choro engasgado que queria rasgá-la de dentro para fora. Sentia o peito subir e descer pelos soluços que tentava reprimir. Há tanto não se sentia tão bem. E se sentia culpada por estar tão bem tão longe de sua vida real.

A liberdade que acometera seu corpo era tanta que chegava a doer. Sua vida era uma merda. Adorava a vida que tinha, mas a odiava com todas as forças que havia em seu ser. O grande - quiçá único - motivo de adorar a vida que tinha era o casal de filhos. Marcelo e Laura deram outro sentido em sua trajetória fadada ao fracasso; por eles, buscava, tentava e lutava não ser uma fracassada.

Quando Celo chegara, quando sequer tinha maturidade para lidar consigo mesma e suas atribulações, obrigou-se a crescer; enquanto as amigas - que a abandonaram ao longo do caminho - curtiam seus anos de juventude irresponsável, podendo serem inconsequentes sem ligarem para como as atitudes iriam afetá-las posteriormente, ela tinha uma criatura minúscula que dependia dela para tudo. Quando Laura chegou, sua vida se tornou completa. Em meio ao caos que o casamento se tornara, a menina foi o ponto de paz ao qual se segurou. E por causa dela, resolveu que poderia e deveria se reinventar.

Durante os anos tempestuosos, quase todos partiram. Sua família, com quem nunca tivera um bom relacionamento, não fez qualquer questão de permanecer. E, honestamente, Fernanda não se importava. Eles nunca tinham escolhido ficar; aquela não seria a primeira vez, ela sabia. Gabriel ficou. E Matteus também. Por isso, o amava tanto. Nunca iria dizer isso para ele, evidentemente. Nos anos de calmaria, portanto, não os queria de volta. Percebera que conseguia galgar seus próprios caminhos sozinha. Fazendo o que podia, o que sabia e o que não sabia, se propôs a aprender. Tinha sorte por ser boa em tudo o que fazia.

O som do barco quebrando a tensão da água e as trovoadas agitavam seu peito já agitado ao fechar os olhos uma outra vez. As gotas da chuva não eram mais as únicas a molharem seu rosto. Não percebeu quando as bochechas haviam se banhado com suas lágrimas. A mania de estragar tudo não a abandonara. Mesmo nos melhores momentos, se autossabotava com seus pensamentos, falas, atitudes, silêncios. E ali estava: chorando pelo que passara e por se sentir, nem que por poucos instantes, bem. Não se achava merecedora daquela felicidade, quando sua realidade era uma inconstância deprimente.

Os braços abertos foram fechados quando dedos se enlaçaram aos seus e suas mãos foram ao peito, num abraço mudo. O cheiro de baunilha invadiu suas narinas úmidas quando o queixo de Alane repousou em seu ombro, e ela não abrira os olhos. Desde que chegaram ali, a paraense fugia da água fria sob o convés com os braços cruzados, mas, de alguma forma, à escuridão da madrugada que lentamente se tornava dia, a menina enxergou seu choro. Ela havia a enxergado. E o coração, que ardia como brasas, tornou-se uma fogueira. Mal podia esperar para estragar aquilo também. Sempre estragava tudo de bom em sua vida.

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⏰ Última atualização: May 31, 2024 ⏰

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Fernanda e Alane - Eu te devoro.Onde histórias criam vida. Descubra agora