Capítulo 1 - Linha do Equador

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Abrindo os olhos lentamente, Fernanda, por alguns segundos, se perguntou onde estava. O cérebro não havia acordado com o corpo, ela percebeu, e demoraria mais alguns segundos até que o fizesse. Da cama, podia ver a escuridão que brindava a noite pela janela que esquecera aberta. Procurou ao redor, tentando encontrar o corpo da mulher que encantou seus sonhos. Nada.

Os olhos pesaram outra vez e ela os fechou; então, lembrou-se da ligação que prometera aos filhos e levantou de supetão, procurando por seu celular. Por uns segundos, achou ainda estar sonhando. Quando alcançou o aparelho na bolsa e tentou se acostumar à luz que, apesar de baixa, batia contra seus olhos, viu que estava bem acordada. Às cinco e oito da manhã. Franziu o cenho. O sol já deveria estar nascendo.

Esticando os braços para cima, espreguiçou-se, tentando acordar. Ainda sonolenta, bocejou e ponderou o que deveria fazer: voltar a dormir ou descer e comer. A barriga roncou e ela sabia a resposta certa. Levantou-se do colchão e calçou os chinelos. A passos curtos e preguiçosos, abriu lentamente a porta de madeira e se arrastou por todo o piso de madeira lisa, descendo as escadas na pontinha dos pés para que ninguém acordasse.

Sentia-se Emile, a ratazana irmão de Remy, em Ratatouille, perambulando pela escuridão da casa que não era sua em busca de alguma migalha de pão para saciar sua fome. Pôs a mão na boca para se impedir de rir. Diferente dele, entretanto, não estava em Paris - também não tinha seu irmão super talentoso e de culinária inigualável para saciá-la. Tinha a santa Isabelle que guardara sua comida e a embalagem quadrada gelada de comida chinesa na primeira prateleira da geladeira.

Apanhando a caixa de papelão fino, a abriu: macarrão taiwan. Olhou ao redor e, no escuro, tateou o balcão até encontrar a gaveta e puxar um garfo de lá. Por alguns segundos, ponderou se esquentaria o alimento. Decidiu que não: a fome não deixaria - e não queria ser inconveniente ao acordar os outros às cinco da manhã.

Caminhou até a sala de estar com a caixinha e o garfo em mãos, sentando-se no sofá branco espaçoso. A enorme televisão de plasma à sua frente parecia paquerar consigo e Fernanda deixou-se ser seduzida. Procurou pelo controle e a ligou, deixando o volume tão baixo que mal escutaria. Pulando de canal em canal, caçou algum filme ou qualquer programa que chamasse sua atenção.

A imagem envelhecida e pixelada a fez parar, decidindo que aquele seria o escolhido. Não demorou até que reconhecesse o filme: Museu de Cera, de 1953. Acomodando-se melhor, Fernanda engoliu o macarrão com rapidez. Não percebera o tamanho de sua fome até pôr o primeiro fio da massa em sua língua.

O filme já estava lá pela metade quando começou o assistir. Sue Allen já fazia de tudo para provar que o professor Henry, de alguma forma, matara e roubara o corpo de sua amiga Cathy do necrotério e a transformara em sua Joana D'Arc. E, num silêncio absoluto quebrado apenas pela voz baixa dos atores e pelos efeitos sonoros, ela terminou sua refeição.

Fernanda estava tão absorta no filme que sequer ouvira os passos na escada. Somente quando uma mão tocou seu ombro, a fazendo pular tão alto que jurou encostar a cabeça no forro da casa, ela percebeu que mais alguém estava ali.

Com a mão no peito, deixou na ponta da língua seus maiores e piores palavrões para praguejar Matteus. Mas quando virou-se com um "filho da puta do cu arregaçado" engatilhado, encontrou o nariz enrugado de Alane, que gargalhava com mãos em sua boca para não fazer barulho. Mordeu a língua. A vontade de xingá-la não era menor do que se fosse Matteus ali. Porém, Fernanda não a conhecia o suficiente. E ela ainda pretendia conhecer, então, calou.

"Tu tinha que ver tua cara." Alane comentou, ainda tentando se recuperar da crise de risos que tremia seu corpo.

"Eu sou uma velha" Fernanda começou: "Mete uma dessas de novo e meu coração geriátrico preguiçoso para de vez, e você quem vai cuidar dos meus filhos, bonequinha."

Fernanda e Alane - Eu te devoro.Onde histórias criam vida. Descubra agora