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Quando a fumaça começou a se dissipar, eu ainda estava tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Vi a garota que eu conhecera mais cedo destruindo alguns robôs com uma força que eu sinceramente invejei. Mais à frente, o garoto de cabelo verde parecia um furacão descontrolado, procurando por inimigos e tropeçando em tudo.

Faltavam menos de dois minutos quando uma explosão fez o chão tremer sob meus pés. O som ecoou por todo o campo de batalha. E lá estava ele: o robô de nível zero. Gigante, apavorante e inútil em pontos. Evitá-lo seria o mais lógico, mas lógica nunca foi bem o meu forte. Quando vi o garoto correndo pra salvar a menina presa nos destroços, minhas pernas se moveram sozinhas.

Ele saltou tão alto que eu mal acreditei no que vi. O soco que ele deu explodiu o robô como se fosse de papel. Só que os destroços começaram a despencar logo em seguida. Um deles, enorme, vinha direto na direção da garota.

Sem pensar, ergui as mãos e concentrei o máximo de força que restava. Um jato de água cortou o ar e atingiu o pedaço de metal, reduzindo-o a fragmentos antes que atingisse ela.

─ Obrigada! - ela murmurou, tentando se mover, mas ainda presa sob uma pedra.

─ De nada... - sorri cansada. ─ Agora vamos tirar isso de cima de você.

Encostei a mão na rocha, canalizando o restinho de energia que me sobrava. A água se infiltrou nas pequenas fendas e se expandiu até a pedra rachar e se partir em pedaços. A garota se levantou rápido, subindo nos destroços e ativando a individualidade dela. Vi quando ela flutuou e alcançou o garoto, dando um tapa que fez ele... levitar?

─ Mandou bem! - gritei, meio sem fôlego. No instante seguinte, ela colocou a mão na boca e vomitou. ─ Ah... então esse é o ponto fraco da sua individualidade... - fiz uma careta solidária.

─ Acabou o tempo! - Present Mic berrou.

Eu deixei o corpo cair no chão, exausta.

─ Eu só quero uma água gelada!

Ouvi cochichos ao redor.

─ Eles são loucos? Foram pra cima do robô em vez de fugir!

─ Pois é. Nem valia ponto.

Logo depois, uma mulher baixinha, de coque e expressão preocupada, apareceu entre os escombros.

─ Muito bem, bom trabalho! - ela disse, se aproximando.

─ Aquela é a Mademoiselle, a espinha dorsal da U.A. - alguém murmurou.

─ Pobrezinho! - a mulher comentou.

─ Recovery Girl, a enfermeira oficial da U.A. - outra voz explicou. ─ A escola só mantém exames assim por causa dela.

─ Tem mais alguém machucado?

─ Tem um copo d’água? - perguntei, erguendo o braço.

Ela riu baixinho. ─ Claro que tem, querida. Vamos, venha comigo.

Fui até a enfermaria e finalmente pude respirar. Um copo d’água nunca pareceu tão perfeito. Depois de me recompor, voltei pra casa, cambaleando de cansaço.

Assim que entrei, fui recebida por uma avalanche de vozes:

─ Como foi o teste?!
─ Você lutou com vilões de verdade?!
─ Aposto que foi a melhor lá!

─ Calma, calma, calma! ─ ri, me jogando na cama. ─ Eram só robôs. Consegui 50 pontos. Não sei se fui a melhor, mas acho que tenho chance de passar.

─ A mamãe saiu pra comprar um bolo! ─ Yuri anunciou.

─ Eu pedi sabor chocolate! ─ Jin completou, animado.

─ O bolo é pra Mih, não pra você! ─ Lip rebateu.

─ Eu também gosto de chocolate, tá? ─ respondi, rindo. ─ Agora dá licença, eu preciso dormir um século.

Eles foram saindo um por um, com o Jin prometendo guardar um pedaço pra mim. Adormeci antes mesmo de ouvir a porta fechar.

A semana seguinte foi uma mistura de ansiedade e tédio. Acordava cedo, ajudava mamãe com o café, e depois passava horas imaginando se minha carta chegaria naquele dia. Treinei um pouco no quintal, mas sem exagerar. Os gêmeos não paravam de fazer perguntas sobre os robôs, e Jin insistia pra eu “Dar vida” aos brinquedos dele com minha água.

Toda vez que o carteiro passava na rua, meu coração disparava. E toda vez que ele não parava na minha casa, eu sentia um vazio. Até que, finalmente, no oitavo dia...

─ Naomi! Sua carta! Chegou! - ouvi minha mãe gritar da sala.

Em segundos, Yuri, Lip e Jin invadiram meu quarto, todos gritando meu nome.

Abri a carta tremendo, e um pequeno projetor caiu na cama. Quando a luz se acendeu, uma voz conhecida encheu o quarto:

─ É em forma de projeção, mas eu cheguei! Bem... você foi aprovada na prova escrita! E não é só isso! Você também foi aprovada na prova física! Principalmente pela ajuda que deu à garota durante o final dela! Olhe e assista!

Era ele. All Might. O próprio.

O vídeo mostrava eu ajudando a garota e, logo em seguida, uma gravação minha na sala dos professores:

─ Eu queria saber se poderia dar alguns dos meus pontos pro garoto de cabelo verde. Acho que ele não conseguiu nenhum... Ele foi muito corajoso indo ajudar ela mesmo podendo fugir.

─ E isso foi muito nobre da sua parte! - All Might disse com aquele sorriso que parecia brilhar mais que os raios solares que Lip produzia. ─ Parabéns, jovem!

─ É o All Might! - Jin gritou, pulando na cama.

─ Mih, o All Might tá falando com você! - Yuri berrou.

Eu ri, ainda sem acreditar. ─ Sim, ele tá falando comigo!

─ Você foi aprovada! - Yuri me abraçou.

Mamãe entrou no quarto com os olhos marejados. ─ Você conseguiu?

─ Ela conseguiu! E o All Might que disse! - Lip respondeu por mim.

─ Espero te ver aqui na U.A, jovem futura heroína! - foi a última coisa que o holograma disse antes de apagar.

Mamãe me abraçou forte, chorando de felicidade. Eu mal conseguia respirar, mas não importava.

─ Kaito não vai acreditar! - falei, pegando o celular.

─ O que foi, Mih? - a voz sonolenta dele veio do outro lado. ─ Eu tava indo no banheiro.

─ Tava dormindo?! São DUAS da tarde!

─ E?

─ Tanto faz! Eu passei, Kaito! Eu entrei pra U.A!

Um silêncio, e então um grito: ─ Mentira! Vamos sair pra comemorar!

─ Tô sem dinheiro...

─ É por minha conta!

Sorri. ─ Em quinze minutos tô na porta da tua casa!

─ Tá bom!

Desliguei e pulei da cama. Eu tinha conseguido. Depois de tanto esforço, tanto treino e tanto sonho... eu finalmente ia ser uma heroína.

Lighting storm -  Denki KaminariHistórias para pegar e não largar. Descubra agora