S2-020

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A viagem de trem foi tranquila. Sempre gostei de andar de trem. O chão firme, o som constante dos trilhos e a paisagem passando pela janela me davam uma sensação estranha de paz.

Quando o trem parou na estação final, ajeitei a mochila no ombro e abri o GPS no celular. O mapa me guiava por ruas cada vez mais vazias, com prédios velhos e lojas fechadas. Até que parei na frente do que deveria ser a “agência de heróis” do meu estágio.

Era um prédio todo rachado, com a pintura descascando e janelas quebradas.

— Esse GPS só pode estar errado. - murmurei, franzindo a testa. — Não é possível que seja aqui.

Olhei a placa da rua. O nome batia. O número também.

Suspirei e subi os degraus enferrujados. A porta de madeira rangeu quando encostei a mão.

— Por favor, que não seja um assalto, sequestro, ou qualquer coisa que me faça parar no jornal. - pedi em voz alta, empurrando a porta. — Oi? Tem alguém aí? Eu sou a Naomi, vim pelo estágio! - chamei, mas o som ecoou vazio. Nenhuma resposta.

Dei mais uns passos pra dentro, observando o lugar coberto de pó. Foi então que a porta se fechou sozinha, batendo com tanta força que o barulho me fez pular e o coração quase sair pela boca. Antes que eu entendesse o que estava acontecendo, ouvi passos atrás de mim. Me virei no susto e acertei um soco direto na cara de alguém.

— Ai! - o homem levou a mão ao rosto, meio atordoado.

— Foi mal! Reflexo! - falei, encolhendo os ombros.

— Tudo bem... - ele murmurou, massageando o queixo, e me olhou curioso. — Então você é a garota do estágio?

— Sim... sou eu? - respondi, sem muita certeza.

— Beleza. Veste o traje e vamos.

— Como é que é?

— Eu que vou te treinar. Vamos começar agora.

— Tá brincando, né?

— Não. E a gente treina aqui mesmo.

Olhei em volta, tentando entender se ele tava falando sério.

— Agência? Sem ofensa, mas isso aqui é só um prédio mofado caindo aos pedaços. - suspirei. — Mas tudo bem...

Abri minha mala pra pegar o traje e notei um envelope em cima. Tinha o nome da Mei Hatsume rabiscado com caneta rosa.

“Para Naomi! Fiz umas pequenas melhorias no seu traje, nada demais. Adicionei um bastão fluorescente pra missões aquáticas e um óculos de mergulho novo. Espero que goste! — Mei.”

Sorri sozinha. Aquela garota nunca deixava nada simples.

De repente, senti uma dor no braço.

— Ai! Você me deu um soco!

— Dei. - ele respondeu, como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Era pra ver se você tava preparada.

— Mas eu nem vesti o traje ainda!

— Exatamente. Você não pode depender de estar pronta pra reagir.

Revirei os olhos e fui me trocar. Quando saí do banheiro, o cara tava pegando uma pizza com o entregador, como se nada tivesse acontecido.

— Eu sou o Roger. Nome de herói: Space. - ele falou, abrindo a caixa de pizza. — Minha individualidade me permite controlar tudo dentro de um espaço delimitado. Quanto maior a área, mais difícil fica o controle.

— Interessante. - me sentei, ainda meio desconfiada.

— Sua individualidade é a mesma do seu pai, né?

Demorei um pouco pra responder.

— É... mais ou menos. Ele morreu faz dez anos. Minha mãe evita falar sobre isso, e meus irmãos nem chegaram a conhecer ele direito. Só sei que ele também tinha hidrocinese.

Roger assentiu, pensativo.

— Seu pai foi um herói incrível. Trabalhei com ele por um tempo. Muita gente ainda lembra da coragem dele. - ele pegou um pedaço de pizza e me ofereceu outro. — Quer uma? É de calabresa.

Peguei a fatia, mesmo sem muita fome. Tudo ali era estranho: um prédio que parecia prestes a cair, um mentor que comia pizza no meio do treino, e um clima de “segredo” pairando no ar.

— O que você tá pensando? - ele perguntou, me observando.

— Tentando entender como tudo isso funciona.

Ele sorriu.

— Cada herói tem um jeito de ensinar. Aqui não tem manual. A única coisa que você precisa entender por enquanto é que, no campo, a ação não espera. Por isso o soco.

— Ainda acho que tinha um jeito menos agressivo de me ensinar isso. - cruzei os braços.

— E ainda assim você não desviou. - ele respondeu com um meio sorriso. — Eu conheci o seu pai quando tínhamos a sua idade. Aprendi com ele que salvar o mundo não é algo que aparece nas manchetes.

A seriedade no olhar dele me pegou desprevenida.

Fiquei em silêncio por um tempo, pensando na minha mãe, nos meus irmãos e em tudo o que me trouxe até ali. Eu não queria ser só uma heroína. Queria fazer diferença, mesmo que ninguém visse.

— Tô pronta. - disse, firme.

Roger sorriu, se levantando e jogando a caixa de pizza no lixo.

— Então vamos começar de verdade. Primeiro, vamos testar o seu controle da água em diferentes situações. Depois, partimos pro campo.

Ele estendeu a mão pra mim.

— Vamos nessa, Naomi.

Apertei a mão dele, sentindo um frio subir pelo estômago.

Lighting storm -  Denki KaminariHistórias para pegar e não largar. Descubra agora