Âncora

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Talissa já havia feito uma quantia consideravelmente boa de amizades levando em conta as poucas semanas que estava na instituição, mesmo assim, naquela manhã ela não estava tão falante. Admitia para si mesmo que estava ansiosa até ao esperar pela garota misteriosa que vira uma parte de seu lobo de forma inesperada.

Nas mãos segurava um pequeno colar com um pingente de lobo esculpido em madeira, não chegava a ser maior que sua palma. Fora no que trabalhou como a mais nova integrante do clube de artes plásticas, unindo seu dom ao artesanato e sua aflição pela exposição de seu lobo. Ela passou a mão em seu adorável vestido florido para desamassá-lo e ficar mais apresentável assim que viu a garota de antes entrar naquela sala. Chamava bastante atenção com seus cabelos quase platinados. Tirava o fone de ouvido conforme adentrava a sala à procura de uma carteira livre, fez questão de cumprimentar Talissa com um singelo movimento com a cabeça assim que passou por ela. 

— Ah... fiz isso para você. — Talissa falou de uma vez, chamando atenção da outra. Logo ergueu a mão para entregar-lhe o presente. — Sabia que, para alguns, a imagem do lobo significa companheirismo e lealdade? — para Talissa, aquele seria o máximo que poderia entregar como pedido de desculpas, afinal, não era agradável para qualquer um assistir a crise existencial de um lobo. — Você me ajudou. Sinto muito pelo que teve que presenciar.

A garota de cabelos loiros deixou com que seu sorriso espontâneo dominasse seu semblante. As roupas escuras que trajava com frequência, estranhamente não condizia com seus traços que, segundo Talissa, eram considerados quase angelicais. Ela pegou o lobinho de madeira, admirando com encantamento os cortes precisos que levaram a dar forma ao animal; era simplificado e adorável, ao mesmo tempo que era preciso na representação de um lupino. A pintura era chapada em três cores, basicamente para desempenhar sua pelagem em dois tons: Preto e cinza; e outra para representar os olhos amarelos. Mas, apesar de aparentar ser simples, na verdade, apenas valorizava ainda mais a estética do entalhe geométrico do animal. E mais uma vez a garota reforçou o quão adorável era.

Logo ela se apressou em sentar-se próximo de Talissa.

— Você não fez nada de errado. Sendo bem sincera, fiquei muito feliz de ter presenciado as histórias que meu avô contava.

— Que tipo de histórias ele contava? — Talissa perguntou com certo receio. Não sabia se já havia intimidade suficiente para saber qualquer coisa sobre ela.

— Tem certeza que quer falar sobre isso aqui? — a garota olhou em volta a sala movimentada e acabou por soltar um sorriso travesso.

— Tem razão. Que ideia minha...Mas seu avô confiou a você a história de toda uma comunidade? Você deve ser especial.

— Ou talvez ele apenas imaginasse que eu seria a única que acreditaria. De qualquer forma, agradeço por ter confiado em mim e...

— Não ter te atacado? — Era apenas nisso em que Talissa pensava. Martelava em sua mente que, se não tivesse conseguido manter o controle, alguma tragédia poderia acontecer. O tom frustrante de sua voz fora notável.

— Isso não passou pela minha cabeça. Não quero que minha presença te traga lembranças ruins, você é boa demais para sofrer com uma culpa que não existe. — como sempre, as palavras daquela garota eram como uma adaga que acertava em cheio o coração de Talissa e causavam confusão em seus pensamentos com tamanha serenidade que ela as pronunciava acompanhado de seu semblante neutro. E antes que ela pudesse se afastar, Talissa se apressou em prosseguir:

— Posso contar mais histórias de nossa alcateia. Seu avô ficaria feliz?

— Acredito que ele seria o homem mais feliz apenas de saber que conheci alguém da comunidade que ele tanto amou, ainda mais ter feito amizade com um membro dela.

Os Filhos da Lua: O pacto (Livro 1) | BLOnde histórias criam vida. Descubra agora