"Livro 4 da Série Barcelona"
Velhos conhecidos, desde adolescentes, Fermín e Pilar nunca demonstraram interesse um no outro além da amizade cordial que possuíam por fazerem parte do mesmo ciclo de amizades.
Porém, anos depois e mais velhos, ambos se...
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Eu comecei a organizar as coisas, em silêncio, mas sentia o olhar do Gavi queimar sobre mim. Desde sempre, ele nunca foi o exemplo de disfarce, de saber disfarçar quando algo o incomodava.
Eu me lembrava de várias vezes na escola em que o Gavi ficava de olho na Manu, tentando parecer indiferente, mas era nítido para mim que ele sentia ciúmes. Ele não conseguia esconder aquele jeito possessivo, mesmo que tentasse. Era até engraçado, porque ele fazia umas expressões de quem estava "de boa", mas os olhos dele sempre o entregavam. A forma como ele observava cada detalhe dos caras ao redor da Manu, como se estivesse calculando cada movimento para garantir que ninguém se aproximasse demais.
Eu me divertia com isso. O Gavi era péssimo em disfarçar o que sentia, e embora ele achasse que estava sendo sutil, eu sempre percebia. Lembro de uma vez, no recreio, quando ele ficou de braços cruzados, fingindo não ligar para o fato de que um cara mais velho estava conversando com a Manu. Ele estava claramente irritado, mas tentava manter a pose. Eu observava de longe, segurando o riso, porque já sabia como aquilo ia acabar: ele inventaria uma desculpa qualquer para interromper a conversa e afastar o "intruso".
E agora, depois de tantos anos, aquele mesmo olhar estava de volta, fixo em mim, como se quisesse saber o que eu estava fazendo ali. Ele se aproximou devagar, mas com aquele ar meio desconfiado que eu conhecia tão bem. Claro, agora não era mais sobre a Manu, mas ainda assim havia algo no olhar dele que me dizia que ele queria falar alguma coisa.
— Pilar, eu posso te fazer uma pergunta? — Gavi me olhou.
— Pode. — Dei de ombros.
— Você tem falado com a Mariah?
A menção do nome da Mariah fez meu coração acelerar, não por causa de sentimentos antigos, mas pela lembrança da confusão que ela sempre trouxe para a minha vida. Uma onda de emoções me atingiu, misturando curiosidade e um leve desconforto. A Mariah sempre foi uma figura intrigante; sua presença era como uma tempestade súbita que podia transformar um dia ensolarado em algo completamente caótico.
Eu me recordava de como a amizade dela tinha sido intensa, mas também tumultuada. Lembro-me das risadas compartilhadas e das noites em que a conexão parecia inquebrável, mas, ao mesmo tempo, havia sempre aquela sensação de que o chão poderia desmoronar a qualquer momento. As pequenas intrigas e desentendimentos eram como nuvens escuras pairando sobre nós, esperando a hora certa para desabar.
E uma hora, desabou... Da pior forma possível.
E então, Nick parou o que estava fazendo e encarou nós dois.
— Não, por quê? — Olhei para Gavi, sentindo a tensão no ar. — Não falo com a Mariah há anos, se quer saber. Soube que ela se mudou para algum lugar, Londres, eu acho, depois da Maya ter avisado aos pais que ela precisava de ajuda psicológica e psiquiatra. Não sei nada dela ultimamente, por quê?