"Livro 4 da Série Barcelona"
Velhos conhecidos, desde adolescentes, Fermín e Pilar nunca demonstraram interesse um no outro além da amizade cordial que possuíam por fazerem parte do mesmo ciclo de amizades.
Porém, anos depois e mais velhos, ambos se...
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Eu acordei antes do despertador, como de costume. O quarto estava mergulhado em uma penumbra aconchegante, cortada apenas por um fio de luz que escapava da cortina mal fechada. O silêncio era absoluto, e o único som que eu ouvia era a respiração tranquila da Pilar, deitada ao meu lado. Por um instante, fiquei imóvel, apenas observando-a. Ela estava virada de lado, com uma das mãos sob o travesseiro e os cabelos espalhados de forma caótica — uma visão que me arrancou um pequeno sorriso.
Não era minha intenção ficar encarando, mas ali estava eu, como um idiota, admirando detalhes que nunca tinha notado antes. Ela parecia tão vulnerável naquele momento, tão diferente da Pilar que eu voltei a conhecer — cheia de respostas rápidas e piadas afiadas. O contraste me fez pensar no que ela havia me contado ontem à noite. Sobre o ex. Sobre como aquele apartamento sempre tinha sido um lugar dela, intocado por outras presenças além da mãe.
Balancei a cabeça, afastando os pensamentos. Se eu continuasse a remoer aquilo, ia acabar inventando coisas que talvez nem fossem verdade. Pilar era direta — ou pelo menos parecia ser — e tinha dito que não havia acontecido nada além de gritos e brigas. Mas, mesmo assim, algo na forma como ela tentou cortar o assunto beijando me deixou inquieto.
Levantei devagar para não acordá-la. Meus pés tocaram o chão frio, e caminhei pelo apartamento em silêncio, tentando memorizar o caminho para o banheiro no corredor. Depois de lavar o rosto e me livrar do resquício de sono, fui direto para a cozinha. Ainda era cedo, e, como o apartamento dela era mais perto da faculdade, Pilar podia dormir mais um pouco. Era o mínimo que eu podia fazer.
A cozinha dela era pequena, mas bem organizada, como se cada coisa tivesse seu lugar designado. Abri os armários com cuidado, procurando ingredientes para um café da manhã decente. Encontrei ovos, pão, e uma pequena caixa de morangos na geladeira. Comecei a trabalhar em silêncio, rachando ovos em uma tigela e mexendo o suficiente para fazer uma omelete simples. Enquanto a frigideira aquecia, deixei minha mente vagar novamente.
Por que ela cortou o assunto daquele jeito? Pilar era a pessoa mais destemida que eu conhecia. Não fazia sentido para mim que algo ainda pudesse deixá-la desconfortável, especialmente algo do passado. Será que havia mais naquela história do que ela contou? Talvez eu estivesse exagerando, mas não conseguia evitar. Eu me preocupava com ela, mesmo que, tecnicamente, isso não fizesse parte do nosso "acordo".
O aroma do café começou a se espalhar pela cozinha, misturado ao cheiro da manteiga derretendo na frigideira. Achei uma bandeja em um dos armários e comecei a montar tudo: a omelete dourada, uma pequena porção de morangos lavados, fatias de pão torrado, e uma caneca de café. Coloquei tudo na bandeja com cuidado, certificando-me de que estava apresentável.
Peguei a bandeja e voltei pelo corredor em direção ao quarto. A porta ainda estava entreaberta, e Pilar continuava deitada, na mesma posição de antes. Empurrei a porta com o ombro, tentando não fazer barulho, e coloquei a bandeja no criado-mudo antes de me sentar ao lado dela na cama.