2. O destino gosta de nos fazer de besta

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— Ai, meu cu!

— Que isso, Nando? — espanto-me repentinamente, erguendo a cabeça que antes estava contra a mesa.

— Dói a bunda ficar sentado por duas horas inteiras, pô! — Ele se defende com um sorriso esfarrapado.

— Sei, você e essa sua bunda rodada não me enganam.

— Que estranho, quem foi mesmo que teve a brilhante ideia de transar a algumas horas atrás? — Sua face teatral de inocência me faz querer bater nele.

Mas não posso culpá-lo, nem todos conseguem acompanhar o meu ritmo e Fernando Flores — Nando, para os íntimos — é meu melhor amigo desde que comecei a faculdade de História. Ele aspira a ser um professor, é um rapaz bonito de pele negra, grossos lábios e sobrancelhas marcantes. Tem uma tatuagem de rosa no lado direito do pescoço — em homenagem a dona Rosa, sua mãe — e olhos de um castanho marcante. Todavia o que mais me impressiona nele é seu bom-gosto por moda, ele está sempre transpirando estilo, todo jeitosinho, mas sem perder a vibe favela, porque, em suas palavras, "a vibe riquinho é prepotente demais".

E eu? Eu gosto do que é simples e confortável, tons frios ou cores escuras, não passo maquiagem e o máximo de penteado que faço é um coque ou um rabo de cavalo com meus cabelos alisados artificialmente — aliás, já faz um tempo que não vou no cabelereiro —, acho que a única coisa que cuido com carinho são minhas unhas postiças... Mentira, não refaço meu esmalte tem três semanas, está todo craquelado, acho que vou tirar ele logo.

— Mas fala aí, mona... — Lá vem o Nando. — Como foi essa noitada? Nem entrou em detalhes com seu melhor e mais divo amigo!

Seu falso tom de ofensa me impressiona, ele deveria estudar Teatro, não História.

— Tu sabe bem que eu não curto falar sobre os outros.

— Opa, então rolou algo interessante com seu peguete?

— Pode-se dizer que foi uma bela surpresa, mas nada no sentido negativo.

— Ah, qualé, me conta, vai, mocreia!

— Se eu te contar, você aquieta esse cu? — Ele acena fortemente, é incrível como a curiosidade toma conta das poc ás vezes. — Então, acontece que o carinha que eu conheci era um praticante de bondage, pelo menos ao que tudo indicava, ou ele poderia ser um adepto ao BDSM...

— Pera, pera, para tudo! Faz sinal vermelho porque eu tô passada! — Nando leva uma das mãos até as têmporas, suas unhas amarelas têm bolinhas brancas. — Me amarrota e me conta mais dessa história!

— É exatamente como eu disse, ele apareceu todo enrolado numa corda de bondage e eu presumi que ele fosse um sub, mas pode ser só alguém com fetiche por ser amarrado.

— E o que mais ele fez, hein?! — Agora ele parece ainda mais eufórico.

— Já te disse o que podia dizer, não vou contar mais nada porque é pessoal.

Imediatamente vejo uma carranca teatral surgir no rosto daquela gay.

— Como pode desconsiderar nossos anos de amizade?! Vai me deixar no suspense pelo resto do dia? Eu vou IN-FAR-TAR!

— Você é mesmo a rainha do drama.

Para salvar minha pele, ouvimos o sinal da hora do almoço tocar e na mesma hora Nando sai saltitando pela porta da sala para poder encontrar com o namorado no refeitório da faculdade. É impressionante como ele muda de humor e foco rápido.

Eu, por outro lado, apenas arrumo minhas coisas, aprontando-me para sair, quando meu celular vibra dentro do meu bolso.

Apanho-o e me arrependo no mesmo instante:

É BDSMOnde histórias criam vida. Descubra agora