O Abismo dos Desejos

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Raul acordou com uma estranha sensação de familiaridade. Os primeiros raios de sol entravam pela janela, iluminando o quarto com um brilho suave. Mas, à medida que seus olhos se ajustavam à luz, ele percebeu que algo estava errado. O quarto parecia igual ao que conhecia, mas os detalhes... os detalhes gritavam que nada ali era como deveria ser.

O relógio na parede marcava 6h30, mas os ponteiros giravam de forma errática, ora acelerando, ora parando completamente, como se o tempo estivesse preso em um ciclo distorcido. A textura do lençol em sua cama parecia mais áspera, mais densa, como se ele estivesse deitado em uma superfície rígida e fria. Raul se levantou devagar, sentindo um peso desconhecido em seus membros. Cada movimento parecia ser um esforço monumental, como se o ar ao seu redor estivesse mais denso, puxando-o para baixo.

Ele passou as mãos pelos cabelos, tentando se ancorar na realidade, mas o desconforto crescia. O silêncio do quarto era tão profundo que parecia sufocar. Era um silêncio diferente, o tipo que se ouve apenas nos sonhos, quando tudo ao redor não faz sentido. Raul olhou em volta, esperando encontrar algo que o trouxesse de volta à normalidade, mas tudo parecia deslocado.

Seus olhos se fixaram no espelho à sua frente. O reflexo estava lá, como sempre, mas havia algo estranho. Ele se aproximou com cautela. Ao chegar perto o suficiente, notou que, embora o reflexo estivesse imóvel, havia algo errado com os olhos. No espelho, seus olhos pareciam... maiores, como se algo dentro deles estivesse observando de volta, algo além dele.

Raul deu um passo para trás, e o reflexo se mexeu antes dele. Era rápido, um movimento sutil, mas impossível de ignorar. Seu coração começou a bater forte no peito. "Não, isso não pode estar acontecendo de novo," ele pensou, tentando afastar a sensação. Ele sabia que estava preso naquela teia fina entre o sonho e a realidade, onde as linhas estavam cada vez mais borradas.

Virou-se rapidamente, saindo do quarto e descendo as escadas. Cada degrau parecia mais longo que o anterior, esticando o espaço ao seu redor. As sombras nas paredes pareciam se mover à medida que ele passava, como se estivessem observando, aguardando o momento certo para avançar.

Chegando à cozinha, Raul sentiu o ar pesado e denso, quase como se estivesse submerso. O ambiente que deveria ser reconfortante agora parecia uma versão distorcida da realidade. As cadeiras ao redor da mesa estavam empilhadas de maneira caótica, como se tivessem sido jogadas ali por alguma força invisível.

Ele correu a mão pelo rosto, tentando afastar a sensação crescente de pânico, mas sabia que algo estava prestes a acontecer. Sempre estava.

Ele abriu a geladeira, mais para tentar algo comum e mundano, algo que pudesse prendê-lo ao real, mas o que encontrou lá o fez recuar instantaneamente. A luz interna da geladeira estava piscando de forma intermitente, como um estroboscópio. No interior, as prateleiras estavam vazias, exceto por um único objeto: uma maçã. Vermelha e brilhante, como uma pintura surreal, posicionada perfeitamente no centro da prateleira. Era impossível desviar os olhos.

Raul fechou a porta com força, o som ecoando pela cozinha vazia. O que estava acontecendo? Ele sentia que estava à beira de algo, mas a compreensão escorregava pelos seus dedos como areia fina.

Foi então que ouviu o som.

Vindo da sala, um som baixo e abafado, como uma respiração profunda e pesada. Raul paralisou. Sabia que não estava sozinho, mesmo antes de ver. A entidade estava ali.

– Raul... – o sussurro familiar, suave como uma melodia, ecoou por sua mente. Ele fechou os olhos por um segundo, tentando resistir, mas o sussurro se repetiu, mais próximo. – Você já sabe o que fazer...

Entre o Sonho e a EscuridãoOnde histórias criam vida. Descubra agora