A noite das sombras

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♡ Enid ♤

O caminho até o Clube Bela Dona era silencioso demais. Mesmo com os corredores vazios, cada rangido do chão parecia alto demais. A única fonte de luz era a pequena lanterna que Wednesday segurava, seu rosto parcialmente iluminado pelo brilho amarelado, trazendo um ar de mistério para ela e aumentando ainda mais a sensação de que estávamos fazendo algo perigoso.

Quando paramos diante da grande estátua de mármore, fiquei paralisada por um segundo. Ela continuava sendo a mesma de sempre, com a mesma imagem séria e imponente do fundador de Nunca Mais, se não fosse por uma flor esculpida em pedra descansando no final da estátua.

— Pronta? — Wednesday perguntou, sua voz baixa, mas firme, me passando uma estranha sensação de confiança para o que quer que fossemos encontrar lá embaixo.

— Sempre.

Ela ergueu a mão e estalou os dedos ritmadamente. O som ecoou como um segredo sussurrado ao vento e, então, com um rangido quase teatral, a estátua começou a se mover, revelando uma escada em espiral que descia para o subterrâneo.

— Eles realmente não mudaram a senha? — perguntei, franzindo o cenho. Fazia tempo que eu não ia até os Bela Donas, e, na época em que descobri o clube, eu definitivamente não tinha livre acesso para entrar.

— Tradição, talvez? Mas também não é como se eles ainda se importassem com o propósito inicial do grupo. — Wednesday deu de ombros e começou a descer.

Segui atrás dela, sentindo o cheiro de poeira e algo antigo conforme íamos mais fundo. As paredes eram iluminadas por tochas, que projetavam sombras dançantes no caminho. No final, chegamos ao salão subterrâneo do Clube Bela Dona.

Era enorme. As paredes eram cobertas por estantes cheias de livros encadernados em couro, com títulos dourados e desgastados pelo tempo. Algumas mesas estavam espalhadas pelo salão, cobertas com papéis, penas e frascos de tinta que pareciam não ser usados há muito tempo. O teto era alto, sustentado por colunas de pedra, e havia uma enorme tapeçaria no fundo, representando uma rosa negra entrelaçada com espinhos prateados.

— Uau... Isso aqui está mais impressionante do que da última vez, agora que posso olhar com calma — murmurei. Era uma pena que não fosse aproveitado de forma boa. A verdade é que o clube era mais usado como um local para encontros do que qualquer outra coisa. Realmente uma pena.

Mesmo que eu quisesse admirar mais, Wednesday já estava em movimento, vasculhando de forma metódica os livros e papéis espalhados pelas mesas. Fui até uma das estantes próximas e comecei a passar os dedos pelos títulos, procurando algo suspeito.

— O que exatamente estamos procurando? — perguntei após alguns minutos.

— Qualquer coisa que nos leve até Damian. Mama dizia que, na época deles, tudo era muito organizado e cada um tinha uma função determinada. Além disso, eles tinham o costume de datar qualquer coisa que fosse importante no futuro. Então, datas de dois ou menos anos do que nossos pais se formaram devem nos ajudar.

— Entendi. Procurar algo suspeito numa sala inteira cheia de coisas suspeitas. Fácil.

O tempo foi passando. Eram livros atrás de livros, com assuntos distintos, desde pequenas ações para ajudar excluídos até movimentos criados para expressar as vontades dos alunos. Tudo parecia mais do mesmo, e, quanto mais procurávamos, menos parecia que estávamos perto de algo concreto. Era como andar em círculos. Minha paciência — e minhas pernas — começavam a dar sinais de cansaço. A madrugada já devia ter avançado além das duas da manhã, e a tentação da minha cama quentinha parecia estar vencendo minha ambição em descobrir algo.

o corvo ( wenclair)Onde histórias criam vida. Descubra agora