Capitulo curtinho, mas importante para o rumo dessa história.
Acordei com o som do despertador, tão ensurdecedor que parecia uma ironia depois de um fim de semana tão perfeito. Angra ainda estava na minha cabeça, o mar, a brisa, os sorrisos trocados sem pressa de voltar. Parecia que, por algumas horas, estivemos em um outro mundo, onde as regras não se aplicavam. Só nós dois e a sensação de que o tempo parava.
As mais de 24h em Angra vivendo de beijos e banho de mar junto de Alexandre tinham sido reconfortantes, mas assim que chegamos ao Rio de Janeiro sabíamos que tínhamos trazido algo mais além das malas. Aquela conversa inacabada.
Ele sabia e eu também. Depois das meias palavras e olhares inteiros tudo tinha mudado. Assim que chegamos ao apartamento ele como um homem bem educado que só, e um cavalheirismo que poderia ser incluído até em seu currículo abre a porta do carro e não me deixa nem cogitar levar a mala até meu andar.
O caminho do elevador até a sala do meu apartamento é feito em um completo silêncio. O medo do inseguro andava de mãos dadas junto conosco. Alexandre larga minha mala no meio da sala de estar, me olha como se roga-se por algum acalento, as mãos guardadas em seus bolsos da calça, adotando uma posição um tanto quanto desconfortável.
Ali estávamos. Eu, ele e a tensão que estava no ar. Não era algo óbvio, mas eu sentia. Era como se o ambiente estivesse respirando algo que não fazia sentido, algo que não tinha nome, mas estava lá.
- Está entregue. - Diz com certo receio
- Você quer um café? Posso passar um para a gente - Talvez não fosse o melhor a se dizer por agora onde o menor dos nossos possíveis problemas era a falta de um café, mas, olhe bem, eu nunca fui uma mulher segura de si quando se trata sobre relacionamentos.
Alexandre faz que sim com a cabeça, então caminho até a cozinha sentindo ele me acompanhar.
- Olha Gio, você sabe que precisamos conversar né? - Ele dizia com as mãos grudadas na minha cintura enquanto eu tentava me concentrar em continuar passando o café.
- Eu sei, Ale. - Se ele continuasse com aquelas mãos ali e o rosto preso no vão entre meu pescoço a gente não ia conversar mesmo. A gente ia incendiar aquela cozinha em dois toques. Sem café algum, sem conversa alguma. Só, nós dois como sempre fazíamos.
Me viro colocando o indicador sobre seu peito e fazendo ele caminhar até se sentar na cadeira. - Sentado. Espera eu passar esse café sentadinho. - Digo sorrindo e vendo ele erguer as duas mãos em sinal de rendição.
Sirvo os cafés e sento em sua frente. Numa distância razoável. Mas sinto minha cadeira ser arrastada pelos braços de Nero, fazendo ficarmos sem distância alguma um do outro. Enquanto com uma mão toma o café preto a outra delicadamente coloca minhas pernas uma de cada lado de seu corpo. Sinto sua mão subir e descer na parte onde o vestido rodado não fazia menção alguma de cobrir.
- O que você quer fazer a respeito disso? - Ale falou apontando o indicador para nós.
O café preto na minha xícara estava fumegando, mas eu mal consegui dar um gole. Poderia sair correndo dali naquele mesmo instante. Eu sabia o que sentia, mas externar isso era algo que não sabia como fazer, tentava encontrar algum sinal que me desse coragem de começar, mas as palavras estavam presas na minha garganta.
- Ale... - Falei, com a voz tremendo. - Eu não sei o que fazer. Eu realmente gosto de você, mais do que eu imaginava que fosse gostar de alguém. - Fiz uma pausa, as palavras estavam difíceis de sair. Ou talvez eu só estivesse com medo. - Mas eu não sei lidar com isso. Não da forma que você acha que eu sei.
Aquelas palavras caíram sobre nós como uma lâmina afiada. Que rasgava todas as camadas da nossa pele. As mãos que antes faziam um carinho nas minhas pernas agora estavam distantes.
Talvez pelo nervosismo da situação destrambelhei a falar. E só conseguia perceber Alexandre estático na minha frente, me olhava tentando ser o mais compreensível possível mas profundamente magoado com tudo, comigo principalmente.
- Eu não sou boa com relacionamentos, Alexandre. Eu nunca fui. Não depois de tudo o que aconteceu antes.- Hesitei em falar, poupando ele de meus fracassos passados e de reviver algo doloroso. - Eu me entreguei antes, e isso me destruiu. Eu não quero passar por isso de novo.
- Giovana...- Ale falava com suavidade, sentindo a tensão entre nós. - Eu não estou aqui para te machucar. Não estou tentando te fazer promessas que você não pode cumprir. Só... eu só quero saber se existe algo entre a gente que vale a pena tentar.
Ele me olhava, com aqueles olhos. Aqueles olhos que eram a minha perdição. Os olhos que diziam que eu poderia falar o que quisesse, olhos que queriam me entender, me escutar.
Eu estava morrendo de medo. Mas, ao mesmo tempo, era para o colo dele que eu queria fugir e ficar até essa sensação passar. Era ele que eu queria. Se ele pudesse entrar dentro da minha cabeça, poderia ver que ele já estava em todo canto.
Ontem, hoje, amanhã aqui.
Como se entendesse meus medos e tristezas só pelo olhar, sinto suas mãos me puxarem para o seu colo, prendendo meu corpo num abraço reconfortante. Ali, num emaranhado de sentimentos bons e ruins.
Me afasto do seu corpo criando a coragem necessária para falar.
- Eu... Eu quero tentar, Ale. Mas não posso prometer nada. Não posso simplesmente virar a chavinha e ser a pessoa que você espera. Eu sou quem sou, com todos os meus medos e inseguranças. Eu sou isso.
Ele assentiu, compreendendo o peso das palavras. Entendendo que o que eu dizia não era uma recusa, mas uma advertência: não espere que tudo seja fácil.
- Não vou te pressionar. Só quero que você saiba que, se você quiser tentar, eu estou aqui. Não é sobre o que eu espero, é sobre o que a gente vai descobrir juntos. Sem pressa minha morena. - Aquelas palavras saiam de sua boca doce feito mel.
A grande verdade absoluta, era que a gente se encorajava. Mesmo que com algumas pedras no caminho, a gente se entendia nas entrelinhas.
E, naquele momento, isso calhou de ser o suficiente para nós. Essa armadilha que é te agarrar e não querer prender.
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Doce Desejo
FanfictionEm uma noite quente no Rio de Janeiro, Giovanna e Alexandre se encontram por acaso em um bar movimentado. Uma troca de olhares, um sorriso tímido, e a faísca de uma conexão nasce entre eles, sem que saibam das vidas entrelaçadas que estão por vir. D...
